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El Niño está de volta: o que a confirmação oficial muda para o Brasil

A NOAA mudou o status do Pacífico Equatorial para "El Niño Advisory" nesta quinta-feira (11) e projeta 63% de chance de um evento muito forte entre novembro e janeiro. O INMET confirmou o retorno do fenômeno no Brasil no mesmo dia em que a Conab estimou safra recorde de 358,6 milhões de toneladas de grãos, com Mato Grosso respondendo por cerca de 31% do total.
El Niño confirmado

Agência dos Estados Unidos elevou o status do Pacífico para “El Niño Advisory” e calcula 63% de chance de um evento muito forte; no mesmo dia, a Conab anunciou safra recorde de 358,6 milhões de toneladas de grãos.

O El Niño voltou, agora oficialmente. A NOAA, agência dos Estados Unidos que monitora oceanos e atmosfera, confirmou nesta quinta-feira (11) que o fenômeno está instalado no Pacífico Equatorial e mudou o status do monitoramento para “El Niño Advisory”, o aviso usado quando as condições deixam de ser previsão e passam a ser observadas na prática. No Brasil, o INMET reconheceu o retorno do fenômeno na mesma data em que a Conab anunciou estimativa de safra recorde de 358,6 milhões de toneladas de grãos para o ciclo 2025/26.

De previsão a realidade: como o fenômeno é medido

Para entender o anúncio, ajuda saber como o El Niño é acompanhado. O fenômeno é o aquecimento fora do normal das águas do Pacífico na altura da linha do Equador, e os cientistas medem esse aquecimento em quatro faixas do oceano, cada uma com um nome: Niño 4, Niño 3.4, Niño 3 e Niño 1+2.

A faixa de referência é a Niño 3.4. Quando a água dela fica pelo menos 0,5°C acima da média, o fenômeno está caracterizado. Nesta primeira semana de junho, ela marcou +0,7°C. As outras três também aqueceram: a Niño 4 registrou +0,7°C, a Niño 3 chegou a +1,0°C e a Niño 1+2, encostada na costa da América do Sul, foi a +2,1°C.

Não basta o oceano esquentar, para caracterizar o El Niño, a atmosfera precisa reagir ao calor da água, e foi isso que o boletim registrou: os ventos sobre o Pacífico mudaram de comportamento perto da superfície e em altitude, e o Índice de Oscilação Sul, um indicador de pressão atmosférica usado no monitoramento, ficou negativo. São os sinais clássicos de que oceano e atmosfera entraram em sintonia.

Os modelos de previsão usados pela agência indicam que o fenômeno deve ganhar intensidade até o fim de 2026 e o início de 2027. O boletim também projeta 63% de chance de um El Niño muito forte entre novembro e janeiro. A própria agência pondera que um evento intenso aumenta a probabilidade dos impactos típicos, mas não garante efeitos fortes nem iguais em todos os lugares.

Brasil já esperava a volta

No mesmo dia, o INMET publicou a nota “El Niño está de volta”, alinhada ao diagnóstico americano. O instituto registrou as anomalias da primeira semana de junho nas quatro faixas de monitoramento e repercutiu a projeção de um evento muito forte entre novembro e janeiro.

A confirmação não pegou os órgãos brasileiros de surpresa. Nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam, publicada em abril, já apontava mais de 80% de chance de o El Niño se formar no segundo semestre de 2026, podendo durar até o início de 2027. O mesmo documento registrava que a água abaixo da superfície do Pacífico já estava bem mais quente que o normal, com anomalias acima de +2°C em uma faixa ampla e pontos passando de +4°C.

O histórico do fenômeno no Brasil, mapeado nesse material, segue um padrão conhecido: chove mais na Região Sul, chove menos no Norte, principalmente na Amazônia, partes do Nordeste podem receber menos chuva e a primavera tende a ser mais seca em áreas do Sudeste e do Centro-Oeste, com destaque para Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia.

O monitoramento do CPTEC/INPE registrava o movimento desde abril, quando o centro do Pacífico Equatorial ainda estava perto da neutralidade e a parte leste do oceano, junto à costa do Peru, já aquecia em torno de +1,5°C, primeiro sinal claro da transição.

O El Niño mexe nas probabilidades e no padrão de circulação do ar, mas o resultado em cada região depende de outros ingredientes: frentes frias, bloqueios atmosféricos, a temperatura do Atlântico e a umidade disponível em cada lugar.

Chuva demais de um lado, tempo seco do outro

Enquanto o fenômeno se instala no oceano, a previsão do INMET para os próximos dias mostra chuva concentrada nas extremidades do país e tempo seco no centro. No Norte, os maiores acumulados da semana se distribuem por Amazonas, Roraima, Amapá e norte do Pará, onde os volumes podem ultrapassar 150 mm no noroeste paraense e no norte amapaense.

No Nordeste, a chuva se concentra no litoral e em parte do norte da região, de Maranhão a Pernambuco. O interior da Bahia permanece estável. No Sudeste, uma frente fria entre esta quinta-feira e sábado favorece chuva em São Paulo, no sul de Minas Gerais e no Rio de Janeiro.

No Sul, frentes frias e áreas de instabilidade mantêm chuva ao longo da semana, com acumulados que podem chegar a 150 mm no noroeste do Rio Grande do Sul e volumes acima de 50 mm em grande parte do Paraná e do leste catarinense na sexta-feira. No Centro-Oeste, o quadro é oposto: baixos acumulados, pancadas pontuais em áreas de Mato Grosso, possibilidade de granizo no extremo sul do estado e máximas de até 35°C no centro-norte mato-grossense.

Onde já existe risco de desastre

O excesso de chuva já gera risco concreto em duas pontas do país. No boletim desta quinta-feira, o Cemaden, órgão federal que monitora risco de desastres ligados à chuva, como enchentes e deslizamentos, classifica como moderado o risco hidrológico em Amazonas e Roraima, no Norte, e em áreas do Paraná e de Santa Catarina, no Sul.

Na Amazônia, os rios Solimões e Negro sobem aos poucos e a água avança sobre comunidades ribeirinhas da região de Manaus. Em Roraima, os níveis da bacia do rio Branco seguem em elevação, com atenção para Boa Vista e para o eixo entre Rorainópolis e Caracaraí.

No Paraná e em Santa Catarina, o problema é a chuva que vem com as frentes frias: canais urbanos podem transbordar e áreas mais baixas podem alagar nas regiões de Cascavel e Chapecó. Para deslizamentos de terra, o Cemaden não identifica cenário significativo no país.

Safra recorde de 358,6 milhões de toneladas no radar

O 9º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, divulgado pela Conab hoje (11), estima produção nacional recorde de 358,6 milhões de toneladas, em área de 83,5 milhões de hectares. A soja responde por 180,3 milhões de toneladas, com colheita praticamente encerrada no país, e o milho segunda safra por 107,9 milhões. O algodão em pluma, estimado em 3,978 milhões de toneladas, registra queda de 2,5% frente ao ciclo anterior.

Mato Grosso é o gigante dessa conta: de cada dez toneladas de grãos colhidas no Brasil, cerca de três saem do estado. São 111,4 milhões de toneladas, perto de 31% da produção nacional, em área de 22,8 milhões de hectares e produtividade média de 4.887 quilos por hectare, acima da média brasileira de 4.295.

No milho segunda safra do estado, o resultado depende de uma data: a do plantio. Quem plantou dentro da janela recomendada preservou o potencial das lavouras, principalmente no Médio-Norte e no Oeste. Quem plantou tarde viu a água faltar justamente na fase em que a planta define quanto vai produzir, e o potencial ficou comprometido no Sudeste e no Nordeste mato-grossense.

O algodão do estado aparece com área menor, em razão de preços menos atrativos, e produtividade maior. A diminuição das chuvas facilitou o trânsito de máquinas e as aplicações no campo. Pragas como Spodoptera e bicudo seguem exigindo atenção. A produção estadual da pluma se concentra na região Norte, com 52,93% do total, seguida pelo Sudeste, com 11,90%.

Na pecuária, o alerta do INMET é que pouca chuva e calor acima do normal no Centro-Oeste tendem a reduzir a umidade do solo, o vigor das pastagens e a comida disponível para o gado. O peso econômico é nacional: o rebanho bovino brasileiro somava 238,2 milhões de cabeças em 2024, e Mato Grosso liderou o abate de bovinos em 2025, com 17,1% do total do país.

Com a colheita da soja praticamente encerrada, o ciclo 2026/27 será plantado sob influência de um fenômeno com 63% de chance de atingir intensidade muito forte entre novembro e janeiro.

Em Mato Grosso, o período proibitivo do uso do fogo começa em 1º de julho e segue até 30 de novembro, abrangendo Amazônia, Cerrado e Pantanal, com Sala de Situação Central prevista para monitoramento e resposta a incêndios. No plano climático, a questão pendente é a intensidade: a evolução das anomalias no Pacífico nos próximos meses vai definir se a projeção de evento muito forte entre novembro e janeiro se confirma.

 

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