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Nascido para morrer: como a obsolescência programada esvazia seu bolso e devasta o planeta

Estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro detalha a prática, que vai de atualizações forçadas em celulares a peças que somem do mercado, e revela um custo social invisível.

Aquele celular que, de uma hora para outra, começa a travar após uma atualização. A impressora que para de funcionar e cujo conserto custa mais que uma nova. A peça de um eletrodoméstico que, misteriosamente, some do mercado. Essas situações, familiares para milhões de consumidores, não são meros acasos ou sinais de má sorte. Elas são, muitas vezes, o resultado de uma estratégia deliberada conhecida como obsolescência programada.

Um mergulho profundo no tema, realizado na dissertação de mestrado “Obsolescência Programada: Política Pública para a Sustentabilidade das Relações de Consumo”, de Juliana Mattos dos Santos Joaquim, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) , revela como essa prática se tornou uma ferramenta cíclica de impulsionamento econômico, com reflexos negativos profundos nas esferas social e ambiental. O trabalho mostra que o produto que você compra já pode vir com uma data para morrer, e o preço disso vai muito além do que consta na etiqueta.

 

Uma morte anunciada

 

A obsolescência programada é, em essência, a redução artificial da vida útil ou do desejo por um produto para forçar o consumidor a trocá-lo, perpetuando o ciclo de produção e consumo. Segundo o estudo, essa estratégia não se manifesta de uma única forma, mas se adapta para garantir que o consumidor nunca se sinta satisfeito por muito tempo.

É uma engrenagem que depende, nas palavras do autor Vance Packard, referenciado na pesquisa, da “estupidez inabalável dos clientes” , que são constantemente bombardeados com a promessa de uma “nova e inexplorada oportunidade de felicidade” a cada lançamento .

 

A crise que nos ensinou a descartar

 

Embora pareça um fenômeno da era digital, a prática ganhou força como uma política pública velada para reerguer a economia após a devastadora quebra da bolsa de valores em 1929 . Diante de fábricas com estoques abarrotados e uma população sem poder de compra, pensadores da época, como Bernard London, defenderam que o uso prolongado de bens era uma “desobediência às leis da obsolescência” .

Consumir tornou-se um dever. A administração pública incentivou a noção de que comprar era um ato patriótico para salvar a nação . A indústria automobilística, por exemplo, percebeu que poderia vender mais não apenas pela qualidade, mas fazendo com que os proprietários se sentissem antiquados em seus carros de dois anos . O marketing, sutilmente, passava a valer mais que a engenharia. Essa lógica, nascida em um momento de desespero econômico, fincou raízes profundas, moldando a sociedade de consumo que conhecemos hoje.

 

As três faces da mesma moeda

 

O estudo detalha como a obsolescência se disfarça no nosso dia a dia. Ela pode ser de função, quando um produto se torna “antiquado” porque um novo executa melhor a tarefa — pense nas constantes atualizações de smartphones que tornam modelos antigos quase inoperantes.

Há também a obsolescência de qualidade, a mais direta de todas: o produto simplesmente quebra ou se desgasta mais rápido do que deveria . O exemplo histórico é o Cartel Phoebus, um acordo entre grandes fabricantes na década de 1920 para reduzir a vida útil das lâmpadas de 2.500 para apenas 1.000 horas, garantindo assim uma troca contínua .

Por fim, a mais sutil e talvez a mais poderosa, é a obsolescência de desejabilidade ou psicológica. Nela, um produto perfeitamente funcional torna-se “gasto” em nossas mentes porque um novo estilo ou design o faz parecer menos desejável . É o motor da indústria da moda e uma tática pioneira da General Motors para competir com a durabilidade dos carros da Ford, lançando novas cores e modelos a cada ano .

 

Na lei, um abismo

 

Enquanto a prática avança, a legislação patina. A França se destaca como pioneira ao ter tipificado a obsolescência programada como crime em 2015, prevendo multas e até prisão para os infratores . A medida foi um passo significativo, impulsionado por organizações da sociedade civil que pressionaram por mais transparência e durabilidade.

No Brasil, a realidade é outra. O país, que possui um robusto Código de Defesa do Consumidor (CDC), não tem uma lei específica para coibir a prática . O que se observa são tratativas tímidas. Projetos de lei que buscam definir a obsolescência como prática abusiva tramitam lentamente no Congresso, muitas vezes paralisados por anos . Na ausência de uma norma clara, os casos que chegam aos tribunais são frequentemente enquadrados como vício de produto ou falta de informação, sem atacar a raiz do problema.


PARA ENTENDER MELHOR: A Política Nacional de Resíduos Sólidos

 

Ainda que o Brasil não combata a obsolescência em sua origem, possui uma ferramenta que pode mitigar um de seus piores efeitos: o lixo. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), de 2010, estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos . Isso significa que fabricantes, importadores, comerciantes e consumidores são todos responsáveis por minimizar o volume de resíduos gerados e garantir sua destinação correta . Um de seus instrumentos mais importantes é a logística reversa, que obriga empresas a estruturarem sistemas para o retorno de produtos após o uso, como é o caso dos eletroeletrônicos . Na prática, é uma tentativa de gerenciar o sintoma, já que a doença — o consumo desenfreado incentivado pela obsolescência — continua sem tratamento direto.

 

 

O custo invisível no lixo do mundo

 

Para além dos danos ambientais óbvios, como as 53,6 milhões de toneladas de lixo eletrônico geradas no mundo em 2019 , a pesquisa de Juliana Mattos dos Santos Joaquim joga luz sobre um custo social devastador e frequentemente ignorado. A lógica consumista, que promete felicidade e status, cria na verdade uma profunda desigualdade.

O estudo recorre ao dilema moral da “Cidade da Felicidade”, proposto pelo filósofo Michael Sandel, para ilustrar a questão: a prosperidade e o bem-estar de uma cidade inteira dependiam do sofrimento contínuo de uma única criança, abandonada em um porão . Da mesma forma, a nossa sociedade de consumo, com seus lançamentos incessantes e trocas aceleradas, depende de uma face oculta de exploração.

São os trabalhadores em minas na África, extraindo minérios para as baterias de nossos celulares em condições análogas à escravidão . São as comunidades em países em desenvolvimento, como Gana, que se tornaram os depósitos de lixo eletrônico do mundo, onde pessoas manipulam resíduos tóxicos sem qualquer proteção para extrair metais valiosos .

Essas pessoas são o custo não contabilizado de um sistema que nos treinou a associar o ato de descartar à prosperidade. Elas estão no porão da nossa cidade feliz, garantindo que as prateleiras estejam sempre cheias. A obsolescência programada, portanto, não é apenas uma afronta ao direito do consumidor, é uma prática que, silenciosamente, corrói o princípio da dignidade humana em escala global.

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