Pela primeira vez em décadas, a pauta ambiental é formalmente expulsa das negociações centrais do Fórum Econômico Mundial, substituída por tensões territoriais e disputas comerciais.
O Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2026 entrará para a história não pelos acordos firmados, mas pelo que foi proibido de ser dito. Em uma exigência sem precedentes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs uma condição sine qua non para sua presença em Davos: a exclusão formal da pauta climática de todas as suas reuniões bilaterais.
A determinação reconfigurou a arquitetura do evento. Onde antes se lia “Comprometido em melhorar o estado do mundo”, o novo slogan agora prega “Um espírito de diálogo”. Termos como “sustentabilidade” e “justiça social” desapareceram dos documentos oficiais. Segundo um diplomata brasileiro ouvido sob reserva, a ordem foi clara: “Ele [Trump] realmente colocou ali uma condição de não tratar de clima”.
O impacto foi imediato. A ministra brasileira Marina Silva e o ex-vice-presidente americano Al Gore tiveram painéis esvaziados ou cancelados. A agenda ambiental, antes protagonista, foi relegada às margens.
A “limpeza” ideológica de Davos
A mudança não foi apenas externa. Sob a liderança interina de Larry Fink, CEO da BlackRock, o Fórum ajustou sua retórica para acomodar a nova realidade geopolítica. Fink, que anteriormente defendia o capitalismo de stakeholders, evitou menções a energias limpas em seu discurso inaugural. “Compreender diferentes perspectivas é essencial para impulsionar o progresso econômico”, limitou-se a dizer.
Essa guinada pragmática reflete o poder dos doadores e a pressão de governos produtores de petróleo. A ciência climática perdeu seu assento na mesa principal.
Groenlândia: A nova fronteira de segurança
Com o palco limpo de preocupações ambientais, Trump usou seu discurso, iniciado com atraso devido a uma falha elétrica no Air Force One, para focar em segurança e expansão territorial. O alvo: a Groenlândia.
Descrevendo o território dinamarquês como um “pedaço de gelo” estratégico entre EUA, Rússia e China, Trump negou intenções bélicas, mas foi enfático sobre o desejo de anexação.
“Eu não preciso usar a força. Eu não quero usar a força. Eu não usarei a força. Tudo o que os Estados Unidos estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia”, declarou o presidente.
Para Trump, a devolução da ilha à Dinamarca após a Segunda Guerra Mundial foi um erro histórico. “Colocamos bases militares na Groenlândia para defendê-la e salvá-la (…). Demos a Groenlândia de volta para a Dinamarca, que ideia estúpida. E olha o quão ingratos eles são agora”.
O duelo retórico: Macron e a Europa reagem
A resposta europeia veio na forma de um duelo de discursos. Emmanuel Macron, presidente da França, falou um dia antes. Sem citar Trump nominalmente, rebateu cada ponto da doutrina “America First”.
“Não é momento para imperialismos e colonialismos”, afirmou Macron, usando óculos escuros devido a uma condição ocular. “Preferimos o respeito aos valentões. Preferimos a ciência às teorias da conspiração e preferimos o Estado de Direito à brutalidade”.
Os bastidores revelam uma tensão comercial aguda. Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos franceses caso Macron não aderisse a um “Conselho de Paz” para Gaza. Ameaça que veio acompanhada de humilhação pública nas redes sociais, onde Trump expôs mensagens privadas do francês: “Meu amigo… Não compreendo o que está a fazer na Gronelândia”.
A União Europeia cerrou fileiras. Ursula von der Leyen e António Costa reforçaram que o bloco está pronto para reagir. Até a extrema-direita francesa, na voz de Jordan Bardella, alertou: “Quando um presidente dos EUA ameaça um território europeu usando pressão comercial, isso não é diálogo — é coerção”.
A ciência banida: o alerta de Carlos Nobre
Enquanto a política dominava o centro de conferências, a ciência foi empurrada para os eventos paralelos. Carlos Nobre, renomado climatologista brasileiro, não obteve o “white badge” para acesso às áreas nobres. Da “Brazil House”, ele traçou um diagnóstico sombrio sobre o segundo mandato de Trump.
“Isso se torna essencial agora porque o super negacionista quer destruir toda a energia renovável do planeta. Não só a dele. Ele quer destruir a do mundo”, alertou Nobre.
Para o cientista, a saída dos EUA do Acordo de Paris e o desmonte da EPA (Agência de Proteção Ambiental) ocorrem no pior momento possível, com a temperatura global superando 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
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O efeito dominó: A postura americana funciona como uma “licença” para outras nações abandonarem metas.
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A realidade ignorada: Nobre lembrou que a decisão ocorre dias após incêndios devastarem a Califórnia. “Quando os Estados Unidos se retiram do Acordo de Paris uma semana depois que cidades inteiras na Califórnia foram apagadas do mapa, isso diz muito”.
Para entender melhor: o relatório de riscos 2026
O novo cenário de Davos reflete os dados do Relatório Global de Riscos 2026. Houve uma inversão nas prioridades imediatas:
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Curto Prazo (2 anos): O confronto geoeconômico assumiu o topo. O clima caiu para a 4ª posição.
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Longo Prazo (10 anos): Eventos climáticos extremos continuam sendo a maior ameaça.
Saadia Zahidi, diretora do WEF, resumiu o paradoxo: “As questões ambientais estão sendo repriorizadas porque segurança nacional — incluindo energética — virou o novo motor das políticas de governo”.
Trump não criou essa divisão sozinho, mas a instrumentalizou com eficácia. Ao definir o que pode ou não ser discutido, ele alterou a própria natureza da diplomacia global em 2026.
A imagem que ilustra a matéria foi feita usando IA.












