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Malária: a febre que sobe com o desmatamento e a crise climática no Brasil

Aumento de casos globais e a estagnação no controle da doença acendem alerta, enquanto a Amazônia continua sendo o principal foco endêmico do país.

A malária, uma doença antiga e curável, persiste como um grave desafio de saúde pública em pleno século XXI. Longe de ser uma batalha vencida, seu controle encontra novos e velhos obstáculos: a pobreza, o acesso precário à saúde e, de forma cada vez mais determinante, o avanço do desmatamento e as mudanças climáticas. O cenário global mostra que o progresso estagnou. E no Brasil, a situação espelha essa preocupação, com a vasta região amazônica concentrando quase a totalidade dos casos.

Um inimigo persistente

A doença é uma infecção febril aguda, causada por protozoários do gênero Plasmodium. Sua transmissão ocorre pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, popularmente conhecido como mosquito-prego ou carapanã. Os sintomas clássicos são episódios de febre alta, que pode chegar a 40°C, acompanhada de calafrios, tremores e suor intenso, além de dores de cabeça e no corpo. Embora nem sempre o ciclo febril se manifeste de forma regular, a pessoa infectada pode também sentir náuseas, cansaço e tontura.

No Brasil, três espécies do parasita circulam com mais frequência: Plasmodium vivax, a mais prevalente; Plasmodium malariae; e o Plasmodium falciparum, responsável pelas formas mais graves e potencialmente fatais da doença.

O cenário global e o peso da África

Os números mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) pintam um quadro preocupante. Em 2023, foram registrados cerca de 263 milhões de casos de malária no mundo, um salto de 11 milhões em relação ao ano anterior. A grande maioria desses casos, 94%, e 95% das 597 mil mortes estimadas, ocorreram na Região Africana. As crianças com menos de cinco anos continuam sendo as vítimas mais frágeis, representando 76% dos óbitos no continente africano.

Fatores como conflitos, deslocamentos populacionais e a crescente resistência do parasita a medicamentos e dos mosquitos a inseticidas, agravam a situação e dificultam os avanços que haviam sido conquistados em décadas passadas.

Brasil em alerta: os números da Amazônia

No território brasileiro, a malária tem um endereço bem definido: a Amazônia Legal, que responde por 99% dos casos autóctones, ou seja, contraídos localmente. Fora dessa região, mais de 80% dos registros são de pessoas que viajaram para estados amazônicos ou outros países endêmicos. Ainda assim, existe uma transmissão residual em áreas de Mata Atlântica, como em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Dados do Ministério da Saúde mostram uma montanha-russa nos números. Após uma queda entre 2010 e 2016, houve um pico de mais de 189 mil casos em 2017. Nos anos seguintes, os registros voltaram a cair, chegando a 139.884 casos em 2023. O número de mortes também flutuou, com um aumento preocupante de quase 26% em 2023, quando 73 óbitos foram registrados. A letalidade fora da Amazônia chega a ser 23 vezes maior, um reflexo trágico da dificuldade no diagnóstico e tratamento rápidos em áreas onde a doença é rara.


Para entender melhor:

  • Plasmodium: Gênero de protozoários parasitas causadores da malária.
  • Anopheles: Gênero de mosquitos que atuam como vetores da malária. Apenas a fêmea pica e transmite a doença.
  • Endêmico: Refere-se a uma doença que ocorre com frequência em uma determinada região.
  • Autóctone: Caso de uma doença contraído pelo paciente na zona de sua residência.
  • Hipnozoíto: Forma dormente do parasita Plasmodium que pode permanecer no fígado por meses ou anos, causando recaídas da doença. Exclusiva das espécies P. vivax e P. ovale.

Do mosquito ao fígado: como a doença age

O ciclo da malária começa quando um mosquito fêmea infectado pica uma pessoa, injetando os parasitas na corrente sanguínea. De lá, eles viajam até o fígado, onde amadurecem e se multiplicam. Após esse período de incubação, que pode variar de 8 a 30 dias dependendo da espécie do Plasmodium, os parasitas rompem as células hepáticas e invadem os glóbulos vermelhos do sangue. É dentro dessas células que eles continuam a se replicar, destruindo-as em ciclos que coincidem com os picos de febre.

As espécies P. vivax e P. ovale têm uma característica adicional perigosa: a capacidade de formar hipnozoítos, uma forma latente no fígado que pode reativar a doença meses ou até anos depois.

Diagnóstico e tratamento: uma corrida contra o tempo

A qualquer sinal de suspeita de malária, a orientação é clara: procure atendimento médico imediatamente. A doença pode evoluir para um quadro grave de forma muito rápida, especialmente quando causada pelo P. falciparum. O diagnóstico é confirmado por exames laboratoriais, como a gota espessa ou testes rápidos, que identificam a presença e a espécie do parasita.

No Brasil, tanto o diagnóstico quanto o tratamento são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento, feito com medicamentos antimaláricos, varia conforme a espécie do parasita, a idade e o peso do paciente. A automedicação é fortemente desaconselhada, pois pode mascarar sintomas e contribuir para a resistência do parasita.

A sombra das mudanças climáticas

A relação entre malária e meio ambiente é a peça central do quebra-cabeça atual. O aumento das temperaturas e a alteração nos regimes de chuva criam condições ideais para a proliferação do mosquito Anopheles, podendo expandir as fronteiras da doença para áreas antes consideradas seguras.

Esse cenário exige que as políticas públicas de saúde se adaptem, fortalecendo a vigilância epidemiológica e integrando a variável climática no planejamento de ações. Programas de educação precisam conscientizar as comunidades sobre essa nova realidade, onde a saúde humana está diretamente conectada à saúde do planeta.

Para combater a transmissão, medidas de prevenção individual e coletiva são cruciais. O uso de mosquiteiros impregnados com inseticida, telas em portas e janelas, roupas compridas e repelentes, principalmente ao amanhecer e ao entardecer, quando os mosquitos são mais ativos, continua sendo a principal linha de defesa.

Fonte: MALÁRIA ALÉM DO MOSQUITO: O IMPACTO DO DESMATAMENTO E DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NA SAÚDE 10.37885/250920215

Autores:

  • Diego Simeone

  • Pedro Matheus R. Lopes

  • Bianca Moreira

  • José Henrique R. Vieira

  • Lívia Furtado de Oliveira

  • Rodrigo Petry C. de Sousa

  • Marcus Williams A. de Carvalho

  • Fábio Batagini Quinteiro

  • Oscar Calixto La Rosa Feijoo

  • Paulo Nazaré Miguel

  • Marinete Marins Povoa

  • Indira Angela L. Eyzaguirre

  • Aldemir B. Oliveira-Filho

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