Ir para o conteúdo
Pesquisar
Close this search box.

Literatura brasileira assume papel de “denúncia poética” diante do colapso climático global

A literatura brasileira assume um tom de denúncia poética diante do colapso climático. Autores mapeiam tragédias e desigualdades na era do Antropoceno.
literatura brasileira contemporânea crise climática

Obras contemporâneas deixam o escapismo de lado para mapear tragédias ambientais, do rompimento de barragens em Minas às inundações no Sul, atuando como um alerta sobre a era do Antropoceno.

A literatura brasileira contemporânea abandonou a neutralidade. Diante da exploração desenfreada dos recursos naturais e dos eventos climáticos extremos, escritores nacionais estão forjando o que a poeta Prisca Agustoni define como “denúncia poética”. Mais do que entretenimento, a ficção tornou-se um mecanismo para iluminar desigualdades sociais, racismo ambiental e a relação fraturada entre humanos e não humanos no que cientistas chamam de Antropoceno.

Essa mudança de postura reflete um cenário onde a realidade atropela a ficção. A crise climática, marcada por secas severas e inundações mortais, compromete a própria estrutura da Terra. O impacto é tão profundo que teóricos como Ailton Krenak apontam que nosso apego a uma paisagem fixa e estável é, hoje, a marca mais profunda dessa nova era geológica.

Nesse contexto, a literatura atua como um registro sensível de um planeta em transformação, recusando o silêncio diante da destruição.

O fim da “natureza idílica”

Durante muito tempo, a chamada “literatura séria” evitou temas climáticos, relegando-os à ficção científica por parecerem improváveis. O escritor indiano Amitav Ghosh, em sua obra “O grande desatino”, criticava essa esquiva, notando que eventos extremos eram tratados como alienígenas na imaginação literária.

No entanto, o cenário mudou drasticamente. A improbabilidade deu lugar à urgência.

No Brasil, a resposta literária a essa crise é contundente. Prisca Agustoni, por exemplo, venceu o Prêmio Oceanos com “O gosto amargo dos metais”, obra que reescreve em versos as tragédias de Mariana e Brumadinho. Sua poesia não busca apenas a estética, mas cavar na lama da mineradora Vale para encontrar o que restou de humano e “comover”, ecoando o silêncio de vozes sufocadas, sejam elas de pessoas ou do rio Watu.

Ficção que antecipa a tragédia

A conexão entre a narrativa ficcional e a realidade climática atingiu um ponto crítico com a escritora gaúcha Morgana Kretzmann. Em seu romance “Água turva”, publicado em 2024, ela descreveu o desaparecimento do Salto Yucumã devido a uma hidrelétrica ilegal.

Coincidentemente, logo após o lançamento, as enchentes reais de maio de 2024 no Rio Grande do Sul fizeram o salto sumir sob as águas. Embora lido por alguns como premonitório, o livro apenas retratava as consequências lógicas das ações humanas, evidenciando como crimes ambientais e falsificação de laudos técnicos pavimentam o caminho para desastres.

Essa literatura expõe o que Achille Mbembe chama de “política de morte”, onde guerras e devastações ecológicas se retroalimentam. O progresso a qualquer custo cria refugiados climáticos e “apagamento de memórias”, como relata Eliane Brum ao descrever os “refugiados de Belo Monte”, que perderam até os ossos de seus mortos para as águas da usina.

O racismo ambiental e a soja

A crise não atinge a todos da mesma forma. A escritora Paulliny Tort, em “Erva brava”, utiliza a cidade fictícia de Buriti Pequeno para ilustrar o conceito de racismo ambiental. Em seus contos, o agronegócio e a monocultura da soja não trazem apenas riqueza, mas medo e degradação.

No conto “Rios voadores”, uma tempestade devasta a cidade. A narrativa expõe a fratura social: enquanto a população pobre e os animais sofrem com a enxurrada de um rio podre, a elite local foge em caravanas de caminhonetes para lugares seguros.

Entenda: racismo ambiental

O termo define uma injustiça específica: quando a degradação ambiental e os grandes empreendimentos (barragens, monoculturas, lixões) afetam desproporcionalmente populações vulneráveis, como ribeirinhos, quilombolas e moradores de periferias, enquanto as elites se protegem dos impactos.

A obra de Tort demonstra que, muitas vezes, o que chamamos de “desastre natural” é, na verdade, resultado de um “Capitaloceno” — uma era onde a acumulação de capital dita as regras da natureza, gerando zonas de sacrifício.

Colapso das espécies e novos futuros

Além das águas, a literatura brasileira também olha para os céus e para os insetos. Natalia Borges Polesso, em “A extinção das abelhas”, imagina um mundo monitorado por um “colapsômetro”, onde o desaparecimento desses polinizadores sinaliza o fim da segurança planetária.

Já Daniel Galera, no livro “O deus das avencas”, transita entre o caos urbano de uma São Paulo superaquecida e um futuro pós-apocalíptico onde humanos e abelhas encontram uma nova forma de coexistência através do “necromel”.

Essas narrativas dialogam com o pensamento de Donna Haraway, que propõe o fim da divisão entre natureza e cultura. Para sobrevivermos, precisamos entender que somos “naturezas-culturas”, corpos interconectados em uma relação de dependência mútua.

Um GPS para a escuridão

A literatura não tem a pretensão ingênua de salvar o mundo. Como observa a escritora Sigrid Nunez, o papel dos romancistas é “iluminar o que está acontecendo”.

Contudo, ao lançar luz sobre o extrativismo predatório e dar rosto aos refugiados climáticos — que somaram mais de 200 milhões de deslocamentos na última década segundo a ACNUR —, os livros funcionam como um alerta.

Eles nos ajudam a sair da ignorância e a perceber que a terra não é um recurso infinito, mas um corpo vivo em exaustão. Em um ano marcado por discussões globais sobre o clima, como a COP30 em Belém, essas histórias nos lembram que a sobrevivência depende de aprendermos a “viver-com” outras espécies, antes que a ficção de catástrofe se torne o nosso único documentário.

Leia também:

O nexo causal da dor: como a perícia desvendou o crime na Ferrugem

URGENTE! Câmara cassa mandatos de Eduardo Bolsonaro e Alexandre RamagemCâmara decide cassar mandatos de Eduardo Bolsonaro e Ramagem

A seletividade das águas: como a tragédia de 2024 redesenhou o mapa da desigualdade no RS

Garis param Várzea Grande e denunciam abandono em meio a troca de empresa de lixo;veja vídeo

[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA