Relatório internacional baseado em 350 estudos científicos aponta liberações de até 16,2 milhões de partículas por litro em mamadeiras e inclui creches, escolas e unidades neonatais na lista de rotas “negligenciadas” e “emergentes” de exposição
Um relatório publicado em 2026 pela química analítica holandesa Heather A. Leslie reúne 350 estudos revisados por pares e identifica os produtos infantis como rota central de exposição humana a microplásticos. O documento registra que uma mamadeira de polipropileno pode liberar até 16,2 milhões de partículas por litro de fórmula preparada, e relaciona ainda chupetas, mordedores, tapetes de atividade, peças de encaixe, canetas, borrachas e circuitos de nutrição parenteral entre as fontes pouco monitoradas. O trabalho foi encomendado pela Plastic Soup Foundation, com apoio da Flotilla Charitable Foundation, e classifica parte dessas fontes como “negligenciadas” e “emergentes”.

Fórmulas e ingestão diária
“Exploring Everyday Microplastic Exposures” estima que a ingestão de microplástico de um bebê alimentado com fórmula fique entre 23 e 104 partículas por dia, conforme o produto, o que corresponde a uma média de 6,9 partículas por quilo de peso corporal ao dia, ou cerca de 58 partículas diárias. Em 18 marcas de fórmulas de seguimento (para crianças de 6 a 12 meses), analisadas por Kadac-Czapska e colegas, todas as amostras apresentaram microplásticos, com mediana de 17,3 partículas por grama.
Os polímeros mais frequentes nessas fórmulas foram a poliamida (28,9% das partículas identificadas), o polietileno (27,9%), o polipropileno (27,2%) e o PET (13,8%). Uma pesquisa chinesa com 13 marcas, referenciada por Leslie, calculou que bebês que bebem fórmulas em caixas de leite revestidas com polietileno ingerem, no primeiro ano de vida, cerca de 580 partículas por ano, contra 305 partículas por ano entre os alimentados com fórmulas em latas metálicas.
Mamadeiras e esterilização
A higienização das mamadeiras com água quente está entre os fatores apontados pelo relatório como aceleradores da liberação de partículas. Em um experimento de 21 dias com mamadeiras de polipropileno, as paredes internas se degradaram e liberaram entre 14,6 mil e 4,55 milhões de partículas por bebê por dia, segundo estudo de Li et al. (2020) referenciado no documento. Em outra análise, a abertura e o fechamento 100 vezes de mamadeiras de alimentação e de água soltaram de 53 a 393 partículas por mililitro (Song et al., 2021).
Outro estudo, assinado por Zhao et al. (2025), mediu concentração mediana de 1.465 a 5.893 partículas por litro de leite em três marcas de mamadeiras e três marcas de sacos de armazenamento de leite materno. A 80°C, a liberação de polietileno e PET dobrou em relação ao teste em temperatura ambiente. Somando mamadeiras e sacos de leite materno, a estimativa de ingestão fica entre 2.080 e 5.910 partículas diárias por bebê.

Chupetas, mordedores e brinquedos
Chupetas, mordedores e bicos de silicone sofrem processo de degradação semelhante quando esterilizados a vapor. O relatório cita pesquisa de Su e colegas que estimou em mais de 660 mil o número acumulado de micropartículas derivadas de elastômeros que um bebê pode engolir até completar um ano, considerando a lavagem dos bicos a vapor. A degradação do silicone foi registrada por espectroscopia infravermelha fototérmica óptica e microscopia eletrônica de varredura.
Tapetes de atividade de PET liberaram 27 partículas por metro quadrado por dia em condições controladas, mais que o dobro após exposição à radiação ultravioleta. Peças de encaixe fabricadas em ABS, policarbonato e poliamida, submetidas a dez ciclos simulados de montagem e desmontagem, soltaram de milhares a centenas de milhares de partículas por milímetro quadrado. A maior parte tem menos de 20 micrômetros.
O relatório também inclui o material escolar. Borrachas escolares liberam, por contato com a pele, entre 0,6 e 1,2 bilhão de partículas submicrométricas de PVC e borracha sintética, e ponteiras de caneta somam outros 20 a 160 milhões, conforme dado atribuído a Wu et al. (2023).

Escolas, creches e parques
O ambiente escolar também é listado pelo documento como rota de exposição fora de casa. Um estudo conduzido por Torres-Agullo e colaboradores no noroeste de Portugal, citado no relatório, mediu exposição mediana diária de 1,57 nanograma de microplástico por quilo de peso corporal em estudantes, via inalação. A concentração dentro das salas (21,8 nanogramas por metro cúbico) ficou acima da registrada no pátio externo (13,4 ng/m³). Em uma creche australiana, a concentração chegou a 2,25 partículas por metro cúbico, maior que a verificada em escritórios e escolas da mesma amostra.
O documento ainda registra impressoras 3D em escolas da educação básica como fonte adicional. Até 5.000 partículas ultrafinas por centímetro cúbico foram registradas em uma escola chinesa durante o uso do equipamento, com polímeros de ABS ou ácido polilático. Em um parque infantil australiano, a areia analisada continha 72 partículas por grama, concentração superior à registrada no perímetro do playground e nas áreas vizinhas do parque urbano.
UTI neonatal e nutrição intravenosa
O relatório também registra contaminação na nutrição parenteral neonatal, rota pouco discutida fora do meio científico. Em circuitos de alimentação intravenosa testados por Vercauteren et al. (2024), os polímeros mais abundantes foram PET e polietileno. Um recém-nascido de 1 kg pode receber entre 1 e 115 microplásticos a cada 72 horas pela via intravenosa, segundo o cálculo dos pesquisadores referenciados no documento.

O que vem a seguir
Leslie publicou em 2022 o primeiro estudo a detectar microplásticos no sangue humano, no Departamento de Química Ambiental e Toxicologia da Universidade VU de Amsterdã. Em “Exploring Everyday Microplastic Exposures”, a pesquisadora defende o princípio da precaução como base para medidas de redução imediata da exposição, enquanto as avaliações de risco à saúde seguem em curso. A próxima etapa prevista pelo grupo de Amsterdã é o monitoramento sistemático das rotas de exposição em bebês e crianças, tratados pelo relatório como população vulnerável.
Fonte: Relatório “Exploring Everyday Microplastic Exposures: Recent evidence of products delivering microplastic to humans”. Full Report, 70 pp. Heather A. Leslie, PhD. Encomendado pela Plastic Soup Foundation com apoio da Flotilla Charitable Foundation. Amsterdã, 2026. Revisão não sistemática de 350 artigos peer-reviewed e literatura cinzenta sobre liberação de microplástico em produtos de consumo e exposição humana, publicações de 2014 a 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.19360361. Licença: © 2026 Heather A. Leslie, todos os direitos reservados.
-A imagem que ilustra a matéria foi criada utilizando IA.
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