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Estudo aponta colapso hídrico e avanço desenfreado da soja no leste de Mato Grosso/MT

Estudo revela que a região de Primavera do Leste perdeu 57% da água superficial desde 1985. Paranatinga lidera a expansão nacional da soja, levantando alertas sobre o custo ambiental do modelo exportador.
expansão da soja em Mato Grosso

Levantamento inédito* revela que a região de Primavera do Leste perdeu quase 60% de sua superfície de água em três décadas; Paranatinga lidera ranking nacional de expansão agrícola.

A paisagem do leste mato-grossense mudou radicalmente. Onde antes corriam rios volumosos e o Cerrado se impunha com suas árvores retorcidas, hoje estende-se um vasto tapete verde de monoculturas. Um novo estudo, publicado neste mês de dezembro de 2025 na Revista Geoaraguaia, expõe a fatura ambiental desse crescimento econômico: a região perdeu 57,17% de sua superfície de água desde 1985.

Os dados são alarmantes e fazem parte de uma análise territorial conduzida pelo pesquisador Belarmino Ferreira dos Santos Neto e pelo professor Evandro César Clemente. Eles investigaram os impactos da expansão agropecuária nos seis municípios que compõem a Diretoria Regional de Educação de Primavera do Leste (Campo Verde, Gaúcha do Norte, Paranatinga, Poxoréu, Primavera do Leste e Santo Antônio do Leste).

O diagnóstico é claro. O avanço da fronteira agrícola cobrou um preço alto da natureza. Segundo o levantamento, a vegetação original do Cerrado recuou 28,3% no período analisado. Ao mesmo tempo, as lavouras de soja e as pastagens ocuparam esse espaço com uma velocidade impressionante.

O campeão nacional da soja

Um dos dados mais impactantes do estudo coloca a região no centro das atenções do agronegócio global. Paranatinga não é apenas mais um município agrícola; ele se tornou o líder absoluto no crescimento da soja no Brasil.

De acordo com o monitoramento de satélite citado pelos autores, Paranatinga expandiu sua área plantada em 52.016 hectares em apenas um ano (safra 2021/2022). Esse número é mais que o dobro do registrado pelo segundo colocado no ranking nacional, o município de Juara, também em Mato Grosso.

Essa corrida pelo ouro verde transformou a dinâmica local. A pesquisa aponta que, nos seis municípios analisados, a área ocupada pela soja saltou de tímidos 540 km² em 1985 para expressivos 11.319 km² em 2021. Trata-se de uma industrialização do campo que, segundo os autores, introduz o “modo de produzir da indústria” na agricultura.

A conta da água não fecha

A consequência mais visível e preocupante dessa transformação está na água. O estudo documenta uma redução de quase 230 km² na área coberta por rios e lagos na região.

Para os pesquisadores, essa “perda da disponibilidade de águas superficiais está diretamente relacionada à retirada da cobertura vegetal”. Além disso, o uso intenso de recursos hídricos para a irrigação das lavouras agrava o cenário. O ciclo natural foi rompido. Sem a vegetação nativa para proteger o solo e facilitar a infiltração da chuva, os mananciais minguam.

Uma dívida “colonial”

O artigo vai além dos números e propõe uma reflexão crítica sobre o modelo de desenvolvimento adotado. Os autores argumentam que a inserção do Cerrado na economia globalizada segue uma lógica “semicolonial”.

O Brasil, na visão apresentada no texto, continua cumprindo o papel de fornecedor de matéria-prima barata para o mercado externo. Essa dinâmica atende a uma necessidade histórica de gerar dólares para pagar a dívida externa, mas cria um passivo interno impagável.

Citando o geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves, o estudo reforça que “a dívida externa se torna numa verdadeira dívida ecológica”. O esforço para produzir commodities e exportar significa, na prática, “a ampla utilização de recursos naturais, muitos não renováveis”, e o avanço sobre áreas de rica biodiversidade.

O rastro invisível do veneno

O crescimento econômico da região trouxe riqueza, mas os benefícios não são distribuídos de forma igualitária. Enquanto o PIB dos municípios cresce, a população enfrenta os riscos da exposição química.

O estudo alerta para a poluição do solo e das águas pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. Os pesquisadores resgatam dados perturbadores de pesquisas anteriores em Mato Grosso, como a detecção de veneno no leite materno em Lucas do Rio Verde.

Eles alertam que os efeitos na saúde humana são graves. Problemas como “alterações cromossômicas, malformação congênita, infertilidade, câncer, doenças hepáticas e respiratórias” são listados como consequências diretas desse modelo de produção.

Desenvolvimento ou exploração?

Para Clemente e Santos Neto, o conceito de desenvolvimento aplicado na região é, na verdade, uma ideologia que legitima a acumulação de capital. Eles citam o sociólogo José de Souza Martins para definir o cenário atual como um modelo de “antidesenvolvimento”, onde o crescimento econômico é “bloqueado nos problemas sociais graves que gera”.

A conclusão do estudo é um convite à mudança. Os autores defendem a necessidade de uma educação ambiental crítica, capaz de formar cidadãos que questionem essa realidade. Eles sugerem que é preciso “considerar outros modelos de desenvolvimento para além do economicista”, antes que a última gota de água do Cerrado seque sob o sol das grandes plantações.

Análise territorial do crescimento econômico no Cerrado Matogrossense: impactos
ambientais da expansão da agropecuária na região da diretoria regional de
educação de Primavera do Leste
Territorial analysis of the economic development of the Cerrado of Mato Grosso:
environmental impacts arising from agriculture in the region of the regional
directorate of education of Primavera do Leste
Belarmino Ferreira dos Santos Neto1
Evandro César Clemente

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