Estudo revela como professoras da educação infantil quebram o silêncio sobre desastres ambientais, mas desafio de lidar com o trauma e a desinformação ainda é gigante.
Uma década depois da tragédia que redesenhou a geografia e a alma de Mariana, o debate mais crucial sobre o futuro da região acontece em voz baixa, nas salas de aula da educação infantil. Longe dos tribunais e dos acordos corporativos, são professoras que assumem a tarefa de traduzir o horror do rompimento da barragem de Fundão para crianças que, em muitos casos, carregam o trauma no próprio sobrenome. Um estudo acadêmico inédito, concluído em 2025 pela pedagoga Ariane Janaína Rocha, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), mergulhou nessa realidade e expôs o tamanho do desafio: romper um histórico “silêncio pedagógico” sobre os riscos da mineração, no seu estudo realizado para conclusão de curso em Pedagogia da Universidade Federal de Ouro
Presto: “EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INFÂNCIA A PARTIR DOS IMPACTOS AMBIENTAIS DA MINERAÇÃO E ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS”.
A pesquisa analisou os Planos Pedagógicos Experimentais (PPE) de doze professoras de Mariana que participam do Programa Escola da Bacia do Rio Doce (PEBRID), uma iniciativa de formação continuada para educadores dos 36 municípios atingidos. O que emergiu foi um retrato de criatividade e coragem, mas também das profundas lacunas que persistem.
O tabu da mineração no currículo
Falar sobre mineração em cidades que dependem dela é um desafio. Antes do colapso em 2015, e mesmo após a repetição da tragédia em Brumadinho em 2019, o tema era um tabu nas escolas. A atividade era vista como sinônimo de progresso, e o risco, uma ideia distante, quase impensável. A pesquisa de Rocha confirma essa percepção, citando um estudo anterior de Hunzicker (2019) com docentes de Bento Rodrigues. Uma professora entrevistada na época admitiu: “[…] Eu achei que era uma barragenzinha lá…, eu nunca tinha ido lá […] para mim, era uma coisinha à toa, era uma barragenzinha simples.”
Esse desconhecimento se refletia nos documentos oficiais das escolas. A análise dos Projetos Políticos Pedagógicos (PPPs) das 616 unidades de ensino na bacia do Rio Doce revelou uma ausência gritante de discussões sobre os impactos da mineração ou planos de formação ambiental. Era um silêncio institucional que, na prática, deixava comunidades inteiras vulneráveis, não apenas à lama, mas à desinformação. O PEBRID nasceu justamente para preencher essa lacuna, incentivando os educadores a encarar a realidade de frente.
Marcados pela lama
Para as crianças, especialmente as atingidas diretamente, o rompimento não foi um evento, mas uma fratura na própria identidade. O estudo resgata o conceito de “desterritorialização”, a perda abrupta de um lar, de referências, de um chão conhecido. Esse processo, marcado por dor e sofrimento, ecoou dentro da escola.
A professora Bruna, em entrevista citada no trabalho, descreve a mudança no comportamento dos alunos: “eles ficaram muito agressivos […] o interesse pelo estudo diminuiu, o valor das coisas meio que se perdeu, ‘eu não preciso cuidar da escola, porque não cuidaram das minhas coisas, tiraram a minha casa'”. A agressividade era um grito de socorro, uma forma de externalizar a frustração por uma perda que mal conseguiam nomear.
Como se não bastasse, a dor foi amplificada pelo preconceito. Crianças e famílias atingidas passaram a ser hostilizadas, recebendo apelidos pejorativos como “da lama”. Eram culpabilizadas pela crise econômica do município, uma cruel inversão de responsabilidade que isentava as verdadeiras causadoras do desastre. A escola, que deveria ser um porto seguro, tornou-se, por vezes, mais um espaço de exclusão.
Para entender melhor:
- PEBRID: Sigla para Programa Escola da Bacia do Rio Doce. É um projeto de formação continuada para educadores dos municípios afetados pelo rompimento da barragem de Fundão, envolvendo universidades como UFMG e UFOP.
- PPE (Plano Pedagógico Experimental): São sequências didáticas e projetos desenvolvidos pelos professores cursistas do PEBRID para levar os temas da mineração, do rompimento e da revitalização para a sala de aula de forma prática.
- Desterritorialização: Um conceito que descreve mais do que a perda física de um lugar. Refere-se à destruição de laços sociais, culturais e de identidade que estavam ligados a um território.
Pequenos projetos, grandes lições
Como, então, romper esse ciclo de silêncio e dor? A análise dos planos pedagógicos das professoras de Mariana mostra caminhos possíveis, mesmo com os alunos mais novos. Dos 12 projetos investigados, sete abordaram diretamente a mineração, o rompimento ou a revitalização. As estratégias foram diversas e sensíveis.
Livros infantis como “Que o tempo nos traga um novo Bento” e a coleção “Bento, Passado, Presente e Futuro” serviram de ponto de partida. Rodas de conversa, maquetes que simulavam o desastre com um balão cheio de “lama”, entrevistas com as famílias e até um “mapa dos sonhos” para o novo distrito de Bento Rodrigues foram ferramentas usadas para processar o ocorrido. O objetivo não era apenas informar, mas permitir que as crianças expressassem seus sentimentos e reconstruíssem seu sentido de pertencimento.
Curiosamente, as professoras de turmas de berçário (Berçário I e II) focaram em temas mais amplos de preservação ambiental, como a importância dos animais e o contato com a natureza. A hipótese é que, ao cultivar desde cedo o apreço pelo meio ambiente, se constrói a base para uma futura consciência crítica sobre os impactos da ação humana.
Apesar do sucesso das iniciativas, a pesquisa aponta que a avaliação do aprendizado ainda é um ponto frágil, muitas vezes baseada apenas na observação contínua, sem um registro mais aprofundado das descobertas e da evolução das crianças.
Um futuro em construção
O estudo de Ariane Rocha é um lembrete poderoso de que a educação ambiental crítica não é um luxo, mas uma ferramenta de sobrevivência e de justiça social. Em terras rasgadas pela mineração, ensinar sobre a causa e as consequências de desastres como o de Fundão é fundamental para que as novas gerações não repitam os mesmos erros.
As vozes dos atingidos, cheias de dor mas também de uma força resiliente, precisam ecoar nos corredores das escolas. Transformar o luto em luta e a tragédia em aprendizado é, talvez, a lição mais importante que Mariana pode ensinar ao Brasil. E ela está sendo ensinada, todos os dias, por professoras que se atrevem a romper o silêncio.












