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Ecoansiedade: o medo do futuro paralisa a juventude

Metade dos jovens brasileiros sofre com ecoansiedade. Estudo da UFSCar revela como o medo do colapso ambiental reflete falhas do sistema e aponta a ação coletiva como caminho para superar o fatalismo.
ecoansiedade jovens

Artigo na Psicologia USP aponta que 50% dos jovens brasileiros sofrem com a crise climática e propõe a ação coletiva para combater o ‘fatalismo’

Não é apenas medo de chuva forte ou calor excessivo. É uma sensação visceral de que o amanhã está quebrado. Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) analisaram o fenômeno da “ecoansiedade” em um novo artigo publicado na revista Psicologia USP. O estudo alerta: o sofrimento psíquico diante do colapso ambiental não é uma doença individual, mas uma resposta lúcida a um sistema econômico que opera contra a vida.

Ana Luiza Júdice Costa, João Marcos Leão Roldão e Douglas Verrangia assinam o trabalho que une psicologia, biologia e filosofia. Eles partem de um dado alarmante levantado pela Universidade de Bath: a crise climática impacta negativamente o funcionamento psicossocial de 45% dos jovens no mundo. No Brasil, o cenário é ainda mais grave, atingindo 50% dessa população.

Para os autores, tratar essa angústia apenas com remédios ou terapia convencional é um erro. A raiz do problema é estrutural.

O diagnóstico do desamparo

O termo “ecoansiedade” define o sentimento de desconsolo e desolação intensos associados à destruição do habitat. O estudo cita a ativista Greta Thunberg para ilustrar a urgência que gera esse pânico: “Nossa casa está em chamas”.

A pesquisa destaca que, entre as emoções negativas predominantes na juventude brasileira sobre a ecologia, lideram o medo (72,5%), a tristeza (69%) e a ansiedade (62,5%). Mais do que estatísticas, esses números revelam uma ruptura de expectativas. O artigo traz à tona afirmações pessimistas com as quais a maioria concorda, como: “A humanidade está condenada” e “O futuro é aterrorizador”.

Essa percepção se agrava com eventos extremos recentes, como as enchentes no Rio Grande do Sul. O texto recorda que situações de desequilíbrio climático se tornaram frequentes, gerando traumas reais. “A percepção de que ‘a casa está pegando fogo’ pode avivar a sensação de ecoansiedade, sobretudo diante da falta de políticas ambientais que não queiram servir unicamente ao capitalismo”, pontuam os pesquisadores.

Fatalismo e imobilismo

Por que, diante do abismo, muitos paralisam em vez de agir? O estudo recorre ao conceito de “fatalismo latino-americano”, do psicólogo Ignacio Martín-Baró, e ao “realismo capitalista”, de Mark Fisher.

Existe uma crença tácita de que o destino é trágico e inevitável. O sistema econômico atual conseguiu convencer a sociedade de que “não há alternativas”. Segundo o artigo, isso cria um “cochilo forçado”, onde as pessoas aceitam a miséria e a destruição ambiental como fatos consumados, restando apenas sobreviver.

Os autores explicam que o modelo neoliberal transformou problemas estruturais — como a emissão de gases estufa por grandes indústrias — em culpa individual. Reciclar o lixo ou tomar banhos curtos são ações vendidas como soluções, mas que, isoladas, não freiam o colapso.

Ao perceberem que essas ações individuais não mudam o curso da história, os jovens caem no desespero. “Ao dizer que todos — ou seja, cada um de nós — são responsáveis pela mudança climática […] seria melhor dizer que nenhum de nós é responsável”, cita o texto, referenciando Fisher.

A saída pela ação coletiva

Contra a paralisia, o estudo propõe o resgate da “pedagogia da libertação” de Paulo Freire. A cura para a ecoansiedade não viria da alienação, mas da “esperança ativa”. Não se trata de esperar que as coisas melhorem sozinhas, mas de construir a mudança.

Os pesquisadores defendem que a educação ambiental precisa superar o catastrofismo puro. Expor apenas a tragédia sem apontar caminhos de luta gera apatia. “O futuro não é predeterminado […] a história é dinâmica e pode ser redirecionada, especialmente por meio da luta de classes”, afirmam.

Para enfrentar a “necropolítica” — conceito de Achille Mbembe usado no artigo para descrever como o poder decide quem vive e quem morre —, a organização coletiva é vital. A saída sugerida é converter o medo paralisante em indignação política.

O estudo conclui que a transformação social exige conectar a consciência crítica da realidade com a ação concreta. Só assim a juventude poderá trocar o fatalismo pela capacidade de agir, entendendo que, embora a situação seja crítica, o fim da história ainda não foi escrito.

 

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