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Do “desmatamento criminoso” à torneira seca: Procuradoria enquadra gestão municipal por colapso na Aldeia Kurerê no Xingu

Procuradoria federal converte denúncia inicial em procedimento formal, aponta falhas na gestão da crise hídrica na Aldeia Kurerê e coloca sob suspeita a demora na licitação de poço artesiano.

O tempo da burocracia não mata a sede. Enquanto papéis tramitam nos gabinetes, a comunidade indígena Ikpeng, localizada na Aldeia Kurerê, em Feliz Natal, enfrenta uma rotina de torneiras secas e incertezas. A situação, que se arrasta sem solução definitiva, esgotou a paciência do Ministério Público Federal (MPF). O órgão decidiu elevar o tom da cobrança.

A Procuradoria da República em Mato Grosso, por meio de sua unidade em Sinop, transformou a investigação preliminar — tecnicamente chamada de Notícia de Fato — em um Procedimento Administrativo oficial. A mudança não é apenas uma troca de etiquetas em pastas de arquivo.

Na prática, a decisão assinada pelo procurador Guilherme Fernandes Ferreira Tavares sinaliza que as respostas dadas até agora pela Prefeitura de Feliz Natal foram insuficientes, vagas ou lentas demais para a gravidade do problema. O município agora está sob fiscalização direta e tem prazos rígidos para explicar por que a obra de um poço tubular profundo ainda não saiu do papel.

A lupa sobre a licitação

 

A portaria nº 35/2° OPICT, publicada oficialmente em 18 de novembro de 2025, deixa claro que a confiança na agilidade do executivo municipal foi abalada. O texto ordena explicitamente que é necessário vigiar de perto as “tratativas inerentes ao respectivo processo de contratação” da obra.

Há um temor, nas entrelinhas do documento, de que o processo licitatório esteja travado ou sendo conduzido com displicência. O MPF não quer apenas saber se o poço será perfurado — obra essencial também para a sustentabilidade da aldeia Moygu, principal núcleo populacional dos Ikpeng na região. O órgão quer saber quando, como e sob qual contrato isso vai acontecer.

A morosidade administrativa em casos assim flerta perigosamente com a violação de direitos humanos. A Constituição, citada na fundamentação da medida, garante aos povos originários a proteção de seus interesses vitais. A falta de água potável fere o princípio mais básico dessa proteção: a dignidade.

Solução para ontem

 

O MPF estabeleceu duas frentes de batalha. A primeira é a infraestrutura definitiva (o poço). A segunda, e talvez mais urgente, é a sobrevivência imediata da comunidade.

O procurador determinou que o município deve assegurar “medidas capazes de mitigar, de forma imediata e eficaz” a falta de abastecimento. Isso significa que a Prefeitura não pode esperar a conclusão da obra — que pode levar meses — para agir.

Seja via caminhão-pipa, reservatórios temporários ou outro meio logístico, a água precisa chegar à Aldeia Kurerê agora. O documento reforça que o objetivo é “acompanhar e fiscalizar as ações do município de Feliz Natal/MT voltadas à implementação de infraestrutura para fornecimento de água potável”.

O peso da caneta

 

A conversão para Procedimento Administrativo, baseada na resolução do Conselho Nacional do Ministério Público, dá ao procurador poderes ampliados para requisitar documentos, realizar vistorias e, se necessário, ajuizar ações mais pesadas contra os gestores públicos.

O prazo inicial para a conclusão deste acompanhamento é de um ano. Contudo, dado o caráter vital do recurso em disputa — água —, espera-se que a pressão jurídica acelere o ritmo das máquinas em Feliz Natal.

O despacho interno, que acompanha a portaria, já ordenou diligências imediatas. A mensagem enviada pelo MPF ao converter o processo é cristalina: a fase de apenas “observar” acabou; agora, a cobrança é por execução.

O colapso sistêmico do Xingu

 

A negligência municipal em Feliz Natal não ocorre no vácuo; ela é agravada por um cenário de devastação ambiental sem precedentes que castiga todo o território Ikpeng, incluindo a aldeia Moygu. Em 30 de setembro de 2024, a Agência Nacional de Águas (ANA) emitiu a Resolução nº 214, declarando oficialmente a “Situação Crítica de Escassez Quantitativa” no Rio Xingu.

Os dados são alarmantes: em 15 de outubro de 2024, o rio atingiu a marca histórica de 237 centímetros na estação de Altamira, o menor nível já registrado. Essa seca extrema é impulsionada por uma combinação letal: a operação da hidrelétrica de Belo Monte, que reduziu em até 80% a vazão na Volta Grande, e o desmatamento desenfreado — cerca de 60 mil quilômetros quadrados de floresta foram derrubados no entorno do parque nas últimas quatro décadas.

Cacique Tapi Yawalapiti, uma das principais lideranças da região, denuncia a origem humana do desastre: “Há um desmatamento criminoso e desenfreado ocorrendo no entorno do parque, bem onde se encontram as nascentes dos rios”. Segundo ele, a situação chegou ao ponto de a fumaça das queimadas transformar o dia em noite nas aldeias. “O rio Xingu que vem descendo de lá tá muito sujo a gente não pode beber com água suja”, alerta o líder.

Além da escassez, a contaminação química ameaça a sobrevivência física e cultural dos indígenas. Um estudo da Fiocruz identificou 28 tipos de agrotóxicos em terras vizinhas, incluindo substâncias cancerígenas proibidas no Brasil. A pajé Mapulu Kamayurá resume a tragédia alimentar: “Você viu, o pessoal não pegou nada de peixe. Foi pouco. Esse ano é muito pouco peixe, né? Época do meu pai era muito peixe. Porque o pessoal não fez ainda, não chegou ainda veneno. Hoje está jogando muito veneno”.

Enquanto o MPF pressiona por um poço, iniciativas pontuais tentam mitigar o caos. Em agosto de 2025, um acordo judicial destinou R$ 15 mil ao projeto “Água para o Futuro – Feliz Natal e Vera”. Embora válido, o valor parece irrisório diante de um sistema hídrico que, segundo especialistas, pode levar um século para recuperar sua vazão normal.

Para entender melhor:

 

  • Notícia de Fato: É a primeira fase de uma apuração no Ministério Público, geralmente aberta após uma denúncia. Tem prazo curto para ser resolvida.

  • Procedimento Administrativo: É uma investigação mais robusta e formal. Ocorre quando o problema não foi resolvido na fase inicial e exige acompanhamento de longo prazo ou fiscalização de políticas públicas.

  • Ikpeng: Povo indígena de língua Karib, conhecido por sua tradição guerreira e forte coesão social. A maioria da população reside na aldeia Moygu, às margens do rio Xingu, embora núcleos menores como Kurerê também demandem infraestrutura.

  • Resolução ANA Nº 214: Documento federal de outubro de 2024 que reconheceu oficialmente que a bacia do Xingu não tem água suficiente para atender a todas as demandas, exigindo racionamento e gestão de crise.

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