Moradores de estados com maior índice de devastação florestal têm percepção de saúde consistentemente pior, revela análise de dados da Pesquisa Nacional de Saúde. Adultos e a população de baixa renda são os mais afetados.
Um elo direto e preocupante entre a destruição da floresta e o bem-estar da população acaba de ser traduzido em números. Um estudo aprofundado, baseado em dados do governo federal, conclui que viver em áreas de intenso desmatamento na Amazônia Legal está associado a uma pior percepção sobre o próprio estado de saúde. A pesquisa, intitulada “Uma análise da associação sobre a percepção do estado de saúde e o desmatamento na Amazônia Legal, por meio da Pesquisa Nacional de Saúde” , de autoria do pesquisador Gerson Hermes de Souza , cruza informações da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2013 com os índices de devastação florestal e revela que a conta do avanço econômico predatório pode estar sendo paga com a qualidade de vida dos habitantes da região.
A análise estatística é robusta e aponta uma realidade difícil de ignorar: a população que reside em unidades federativas com desmatamento consolidado ou em franca expansão, como Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins, tende a avaliar sua saúde como “regular”, “ruim” ou “péssima” com uma frequência significativamente maior do que a esperada. O inverso ocorre nos estados com floresta mais preservada, como Amapá, Acre, Amazonas e Roraima, onde os moradores relatam com mais frequência se sentirem “bem” ou “muito bem”.
O estudo vai além da constatação geral e mergulha em recortes sociais que tornam o cenário ainda mais nítido. A degradação ambiental não afeta a todos da mesma forma.
Adultos e os mais pobres sentem mais o impacto
Ao analisar os dados por faixa etária, a pesquisa identificou que a correlação entre devastação e má saúde é estatisticamente mais forte entre os adultos, a população com idade entre 20 e 59 anos. Neste grupo, a frequência de autoavaliações positivas da saúde (“muito bom” e “bom”) é notavelmente menor nas áreas mais desmatadas do que o esperado estatisticamente, enquanto nas áreas mais preservadas acontece o oposto. Para jovens e idosos, os testes não apontaram uma diferença tão clara, o que pode sugerir que o impacto é mais agudo na população economicamente ativa, que está na linha de frente das atividades que pressionam a floresta.
A desigualdade social também aparece como um fator determinante. Quando os dados são estratificados por classe social, a associação entre morar em uma região de alto desmatamento e sentir-se menos saudável é estatisticamente significativa apenas para a população de classe baixa. As classes média e alta não apresentaram a mesma tendência nos testes estatísticos.
Isso sugere, como aponta o estudo, que o acesso limitado a serviços de saúde, a menor quantidade de informação e a maior exposição a condições de vida e trabalho precárias tornam os mais pobres mais vulneráveis aos efeitos diretos e indiretos da degradação ambiental. Não é apenas sobre ter um hospital por perto, mas sobre a complexa rede de fatores que define a saúde, desde a qualidade do ar até a segurança alimentar, tudo isso afetado quando a floresta vem abaixo.
Para além das doenças tropicais
A pesquisa de Gerson Hermes de Souza abre uma nova frente na discussão sobre os impactos do desmatamento. Historicamente, a preocupação sanitária na Amazônia esteve focada em doenças infecciosas e transmitidas por vetores, como a malária e a febre amarela, que de fato representam um grave problema de saúde pública. No entanto, este trabalho joga luz sobre outras enfermidades.
A derrubada da floresta para extração de madeira ou para abrir pasto e lavoura frequentemente envolve o uso de fogo. As queimadas lançam uma quantidade imensa de fumaça e material particulado na atmosfera, e a retirada da cobertura vegetal diminui a umidade do ar. Esse coquetel ambiental é um gatilho para o surgimento e agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares, que impactam diretamente a qualidade de vida e, consequentemente, a percepção que as pessoas têm de sua própria saúde.
O que o estudo demonstra, em última análise, é que o dilema “economia versus meio ambiente” é uma falsa premissa. A análise dos dados sugere que o crescimento de atividades econômicas à custa da floresta não tem se traduzido em melhoria do bem-estar para a população local. Pelo contrário, o avanço desordenado sobre o bioma parece impor um custo invisível e severo à saúde, especialmente para os mais vulneráveis. O popular ditado “onde há fumaça, há fogo” ganha, na Amazônia, uma trágica continuação: há também doença e uma piora na vida de quem está mais perto da destruição.
Para entender melhor:
- Qui-quadrado: É um teste estatístico usado na pesquisa para verificar se a relação encontrada entre duas variáveis (por exemplo, viver em área de alto desmatamento e ter uma percepção de saúde ruim) é real e significativa, ou se ela poderia ter acontecido apenas por acaso.
- Percepção de saúde: Não se trata de um diagnóstico médico, mas da forma como a própria pessoa avalia sua saúde e bem-estar. É um indicador importante de qualidade de vida, pois reflete como as condições de saúde afetam o dia a dia do indivíduo.
- Vulnerabilidade socioambiental: Refere-se à condição de pessoas ou comunidades que, por sua posição social (baixa renda, pouco acesso à educação e saúde) e pelo ambiente onde vivem (áreas degradadas, poluídas), estão mais suscetíveis a sofrer com doenças e outros impactos negativos.












