Estudo* do IFPB alerta que o declínio das mamangavas obriga agricultores familiares a pagar por polinização manual cara e ineficiente.
O desmatamento, o uso de agrotóxicos e as temperaturas extremas estão dizimando as populações de abelhas mamangavas na região Nordeste. A constatação é de um levantamento do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), que alerta para os riscos à produção do maracujá-amarelo, cultura que depende diretamente desse inseto para gerar frutos.
O declínio das mamangavas (gênero Xylocopa) ameaça a renda de milhares de agricultores familiares em estados como Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Sem o serviço gratuito das abelhas, os produtores recorrem à polinização manual. A técnica é considerada cara e trabalhosa, e coloca em risco a sustentabilidade econômica do Brasil, atual maior produtor mundial da fruta.
A mecânica da polinização e as ameaças
A pesquisadora Andreza Leite Alves, responsável pelo levantamento, detalha que a relação entre o maracujá-amarelo (Passiflora edulis f. flavicarpa) e as mamangavas é um caso de coadaptação evolutiva. A flor da planta tem uma estrutura complexa, e seus estigmas e anteras exigem um polinizador de grande porte.
O corpo robusto e cheio de pelos da mamangava carrega o pólen pesado com facilidade. Isso permite o contato simultâneo com as estruturas reprodivas da planta, garantindo taxas de fecundação (vingamento) que chegam a 100%. Insetos menores visitam as flores, mas não conseguem transferir o pólen com a mesma eficiência.
Apesar dessa importância biológica, as populações do inseto caem de forma acelerada. O estudo aponta a fragmentação do habitat como causa principal do desaparecimento. O avanço dos monocultivos substitui a vegetação nativa e elimina troncos ocos e madeira morta na natureza, recursos essenciais para a construção dos ninhos das mamangavas.
A exposição crônica a agrotóxicos, especialmente os da classe dos neonicotinoides, agrava o cenário. Os produtos químicos alteram o comportamento de busca por alimento e reduzem a expectativa de vida das abelhas.
O aquecimento global soma-se a esses fatores químicos e territoriais. Em áreas semiáridas, onde a água e a flora já são escassas por natureza, temperaturas acima de 42 °C derrubam a atividade de busca por alimento (forrageamento) dos insetos. O calor extremo multiplica a vulnerabilidade dos polinizadores e afeta a produção dos pomares de forma direta.
Estratégias para reverter a crise
O estudo do IFPB indica caminhos para alinhar a produtividade agrícola à conservação. A saída principal apontada é o manejo sustentável. A adoção de “ninhos racionais” — estruturas de madeira colocadas artificialmente nas lavouras — aumenta as visitas das mamangavas em até 505%. A tática eleva a taxa de frutificação dos pomares em mais de 90%.
Os especialistas também recomendam a manutenção de corredores ecológicos com vegetação nativa no entorno dos plantios. Outra medida urgente é o controle rigoroso na aplicação de defensivos agrícolas, restringindo o uso desses produtos para os horários em que as abelhas estão menos ativas.
O levantamento conclui que a proteção das mamangavas ultrapassa a questão ambiental e atinge diretamente a segurança alimentar. O futuro do maracujá brasileiro, segundo a pesquisa, depende de um modelo agrícola que trate a natureza como aliada da produção, e não como obstáculo.
* PERDA DE BIODIVERSIDADE DE ABELHAS POLINIZADORAS DO MARACUJÁ AMARELO – ANDREZA LEITE ALVES
Transparência: a imagem que ilustra esta matéria foi feito utilizando ia.
Leia também:
Filho ameaça mãe idosa de morte e acaba linchado pela população
Havan banca transmissões da Copa de 2026 na Globo por R$ 235 milhões
Brasil estagna com 36 pontos no índice de corrupção e fica abaixo da média global











