O chanceler dedicou mais tempo a sobrevoar a Amazônia do que a realmente vivenciá-la, transformando a COP30 em Belém num pretexto cínico para justificar em Berlim o desmantelamento dos compromissos ambientais europeus.
A diplomacia alemã, sob a batuta de Friedrich Merz, parece ter trocado a bússola moral por um manual de oportunismo político. Em uma visita-relâmpago de míseras 20 horas em solo brasileiro para a Cúpula de Líderes da COP30 – um “turismo diplomático” que o manteve mais tempo dentro do avião governamental do que engajado com a realidade amazônica – o chanceler federal arquitetou um espetáculo de duplicidade desavergonhada. Seis dias depois, em Berlim, ele não hesitou em usar essa breve passagem por Belém como munição para piadas depreciativas, expondo uma estratégia que analistas e fundações progressistas europeias já classificam como um “abandono deliberado e calculista” da responsabilidade global.
Esta não é uma falha isolada; é a manifestação de um padrão. Conforme apurado junto a instituições como o Greenpeace Alemanha e as Fundações Rosa Luxemburgo e Heinrich Böll, a postura de Merz é a ponta de um iceberg de retrocesso. O chanceler está instrumentalizando, com frieza, as fragilidades de nações emergentes para validar, junto ao seu eleitorado conservador, uma agenda de desmantelamento das metas climáticas que a Europa um dia prometeu ao mundo.
A encenação perfeita: elogio de fachada, escárnio nos bastidores
A sequência dos fatos é uma aula de cinismo diplomático. Em 7 de novembro, em encontro bilateral com o presidente Lula, Merz desfilou o protocolo com maestria. A nota oficial do Palácio do Planalto reverberou seus “parabéns à liderança de Lula”, o “elogio à organização e infraestrutura do evento” e a declaração de que “a escolha de Belém como sede foi um acerto”. Uma cortesia vazia, pensada para o consumo internacional.
A verdadeira face veio à tona em 13 de novembro. No Congresso Alemão do Comércio, em Berlim, Merz sentiu-se à vontade para despir a máscara diplomática. Diante de empresários varejistas que clamam por desoneração e lucros, o chanceler trocou o elogio por um gracejo cruel:
“Nós vivemos em um dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: ‘Quem de vocês gostaria de ficar aqui?’ Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, a noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos.”
A mídia progressista alemã reagiu com indignação. O taz.de, bastião da esquerda, sintetizou o desprezo: “A Conferência do Clima COP30: O B em Belém quer dizer Obra”. O Diário do Centro do Mundo cravou: uma “comparação descarada” (unverschämter Vergleich), vinda de um líder que, minutos antes, listava os próprios problemas da Alemanha. Uma hipocrisia calculada.
Os problemas reais de Belém: o cenário perfeito para a desfaçatez de Merz
Seria ingênuo negar as dificuldades logísticas em Belém. A ONU, em 12 de novembro – convenientemente, um dia antes da piada de Merz – detalhou falhas de segurança, inundações e banheiros interditados. Vinte e cinco nações já haviam implorado pela transferência do evento, sufocadas pela especulação hoteleira e a infraestrutura precária. Até o presidente Lula admitiu que a COP30 seria “da verdade”, não do “luxo”.
Mas aqui reside a armadilha moral explorada por Merz: os problemas de Belém não justificam a instrumentalização cínica. Reconhecer desafios é uma coisa; transformar um país anfitrião em objeto de escárnio para ganhos políticos domésticos é outra completamente diferente.
Andreas Behn, diretor da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil, não poupou críticas: “Quando você elogia alguém na face e depois critica pelas costas ao seu próprio partido, especialmente em contexto de perda de financiamento climático, isto não é observação legítima. É cinismo diplomático que enfraquece o multilateralismo ambiental”. Uma chancelaria que opera assim, simplesmente não opera.
O não-compromisso financeiro: a vergonha alemã no financiamento climático
A retórica de desprezo serviu para camuflar uma escandalosa inação financeira. Enquanto a Noruega prometeu US$ 3 bilhões para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a Indonésia, US$ 1 bilhão, a Alemanha de Merz ofereceu apenas promessas etéreas.
O chanceler garantiu a Lula uma “quantia considerável”, mas se recusou a comprometer-se com um único euro, alegando burocracia. Treze organizações humanitárias europeias exigiram um mínimo de US$ 2,5 bilhões; Merz as ignorou.
“Com sua promessa vaga, Friedrich Merz deixa o anfitrião Brasil na mão”, martelou Martin Kaiser, do Greenpeace Alemanha, à rádio Deutschlandfunk. Sabine Minninger, da Brot für die Welt, foi ainda mais explícita: “Merz deixou deliberadamente em aberto se a Alemanha realmente cumprirá sua promessa”.
A WWF Alemanha não mediu palavras: “É enfraquecedor que a Alemanha não tenha mencionado valor concreto. Não é um começo bem-sucedido do novo governo alemão no cenário climático internacional”. Mais do que isso, a organização lembrou que as tecnologias para a descarbonização já existem; falta, sim, “vontade política atual”.
Raio-X do Retrocesso: O Desmanche Climático de Merz O relatório “Cem Dias de Merz: Presentes Eleitorais para Poucos” da Fundação Heinrich Böll revela o padrão do desmonte:
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Nuclear: Merz reverteu a política pós-Fukushima de Angela Merkel, suspendendo o desmantelamento de usinas.
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Carvão e Fósseis: Manutenção de subsídios a combustíveis fósseis e desvio de 3,4 bilhões de euros do Fundo de Transformação Climática para subsidiar gás.
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Veículos: Plano para minar a proibição de motores a combustão na UE a partir de 2035.
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Metas: Pressão por metas de redução de emissões “menos rigorosas” para 2040 na UE, diluindo a ambição climática do bloco.
A recessão como cortina de fumaça, a xenofobia como bumerangue
A ofensiva de Merz não é gratuita. A Alemanha, maior economia da Europa, está em recessão histórica, com seu PIB em contração há três anos, a indústria automotiva em declínio e o desemprego em alta. Merz precisa de um bode expiatório. Ao ridicularizar Belém, ele envia uma mensagem clara à sua base conservadora: “Não sacrificaremos nossa prosperidade por caprichos de nações distantes e ‘daquele tipo'”.
Essa tática se alinha a um padrão de comportamento xenófobo. Merz já havia gerado controvérsia ao apoiar a “guerra suja” de Israel e ao vincular imigrantes a um “problema da paisagem urbana” alemã. Ao ser interpelado sobre a “cor da pele” por uma líder Verde, ele invocou clichês machistas sobre a segurança de “suas filhas”, validando discursos da extrema-direita.
O silêncio cúmplice da coalizão: o preço da sobrevivência política
O mais alarmante é o silêncio complacente em Berlim. O SPD e os Verdes, parceiros de coalizão de Merz, submetem-se a uma governabilidade frágil, chancelando concessões históricas: 400 bilhões de euros para militarização, manutenção do carvão, recuo nas metas climáticas e endurecimento migratório. Protestar publicamente contra o desprezo ao Brasil seria um luxo político que não podem se dar.
Martin Kaiser, do Greenpeace, é enfático: “Friedrich Merz não apenas fracassou em delinear um rumo claro. Ele contribuiu ativamente para a incerteza. A mensagem que envia ao mundo é: a Alemanha não cumprirá promessas climáticas”.
O chanceler veio, cumpriu a formalidade em 20 horas e partiu, levando consigo a certeza de que a Amazônia e o Sul Global não são mais uma prioridade, mas um mero palco para seu jogo político interno. O Brasil foi apenas o pretexto; o alvo, a própria liderança climática da Europa. Uma estratégia deliberada de abandono, como definem os pesquisadores da Fundação Rosa Luxemburgo.











