Conferência de Belém entra para a história por vitórias sociais e “drible” diplomático do Brasil, mas frustra na definição de quem paga a conta da crise climática*.
*COP30 cria movimento pelo fim dos fósseis-Observatório do Clima
Não foi uma conferência comum. A COP30, encerrada na tarde deste sábado (22/11) em Belém, ficará marcada por eventos que fugiram completamente ao script da diplomacia climática tradicional. Teve de tudo: uma cúpula de líderes antecipada, um princípio de incêndio em um dos pavilhões e, no apagar das luzes, uma jogada política arriscada da presidência brasileira.
O calor úmido da capital paraense serviu de cenário para uma batalha diplomática travada até o último minuto. O resultado é um pacote misto. De um lado, avanços históricos para populações afrodescendentes e indígenas. Do outro, uma resposta considerada pífia sobre o dinheiro necessário para a adaptação climática.
Mas o que realmente sacudiu o Hangar Convenções e Feiras da Amazônia foi o destino dos combustíveis fósseis.
O Drible diplomático
O presidente Lula chegou a Belém com uma proposta ambiciosa. Ele queria que a COP estabelecesse roteiros claros para implementar as decisões tomadas em Dubai, no ano passado: a transição para longe dos fósseis e o fim do desmatamento até 2030.
A ideia decolou politicamente. Ganhou apoio de 82 países ao longo das duas semanas. No entanto, na mesa de negociação — onde o consenso é rei e um único país pode vetar tudo —, a proposta naufragou. A oposição de algumas nações bloqueou a inclusão desses roteiros na decisão final.
Foi aí que a diplomacia brasileira improvisou. Na plenária final, o embaixador André Corrêa do Lago anunciou que estabeleceria os dois roteiros “de ofício”, usando a prerrogativa da presidência brasileira que segue ao longo do próximo ano.
Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, resume a manobra: “A presidência fez o que a COP não teve coragem: criou por declaração um processo para debater o assunto. Não temos uma decisão, mas temos algo pelo que lutar”.
A primeira parada desse novo “caminho paralelo” já tem data e local. Será em abril, na Colômbia. O país vizinho sediará uma conferência internacional inédita pelo fim dos combustíveis fósseis, com copatrocínio da Holanda. Gustavo Petro, presidente colombiano, foi uma voz ativa, chegando a tentar bloquear textos de mitigação para forçar a inserção do tema, sem sucesso formal.
Stela Herschmann, especialista em política climática do Observatório do Clima, reforça que o jogo não acabou. “O assunto mais importante dessa COP ficou fora das decisões formais. (…) Mas isso não é o fim. No ano de 2026, veremos o processo para esses mapas a partir do chamado independente da presidência da COP30”, analisa.
Financiamento:copo meio vazio
Se a estratégia política salvou a face do Brasil na questão dos fósseis, o texto final sobre dinheiro deixou um gosto amargo. O documento político apelidado de “Mutirão Global” foi o centro de uma verdadeira queda de braço entre a União Europeia e o bloco de países em desenvolvimento (incluindo Índia, China e Arábia Saudita).
O texto acabou desidratado.
A nova meta de financiamento para adaptação ficou apenas para 2035, e não 2030 como muitos esperavam. Embora haja um chamado para triplicar os recursos, não se definiu um ano base de referência claro. Para piorar, a meta ficou vinculada à NCQG (o objetivo financeiro acordado ano passado em Baku), que permite incluir empréstimos na conta.
Para países vulneráveis, isso é um problema grave. Financiar adaptação e perdas e danos com empréstimos significa endividar ainda mais nações que já sofrem com desastres que não provocaram.
A “COP da implementação” entregou ganchos frágeis. O tal “Acelerador Global de Implementação” tem um mandato vago de “apoiar os países”. Maiara Folly, diretora executiva da Plataforma CIPÓ, pondera o cenário: “A presidência brasileira da COP30 entregou o que era possível em um contexto geopolítico extremamente desafiador. A adoção do Pacote Político de Belém é uma vitória do multilateralismo. Por outro lado, sua lacuna de ambição deixa claro que o caminho pós-COP30 demandará coragem política”.
O saldo de Belém
O que avançou e o que travou na COP30
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BAM (Mecanismo de Ação de Belém): A criação de uma instituição para a transição justa foi um dos maiores acertos. Vai ser desenvolvido até a COP31.
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Afrodescendentes: Pela primeira vez na história, foram incluídos nos textos da UNFCCC. Uma vitória simbólica e prática gigantesca.
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Povos Indígenas: O texto “Mutirão” reconheceu direitos territoriais e o direito à terra.
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Oceano: O tema saiu da periferia. Marina Corrêa, do WWF-Brasil, destaca: “A COP30 marcou um avanço decisivo na integração entre oceano e clima. Os países reforçaram o papel crucial dos ecossistemas marinhos para mitigação e adaptação”.
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Comércio: Foi criado um diálogo de três anos sobre medidas unilaterais de comércio, uma reclamação antiga dos países em desenvolvimento.
O esgotamento do consenso
O desfecho de Belém acende um alerta sobre como o mundo decide seu futuro climático. O fato de a maior vitória política (os roteiros de fósseis e desmatamento) ter acontecido fora da agenda oficial diz muito sobre a saúde do processo da ONU.
Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, é cirúrgico na crítica: “Belém entregou o que era possível num mundo radicalmente transformado para a pior. Evitou a implosão do Acordo de Paris, hoje a única coisa a nos separar de um mundo 3°C mais quente. O Brasil, que foi o berço da Convenção do Clima, por pouco não se torna seu túmulo”.
Angelo completa com uma reflexão dura: “Os resultados fracos da conferência, que precisou encontrar fora da agenda sua grande vitória política, comprovam o esgotamento do modelo das decisões por consenso e impõem a necessidade de reforma da UNFCCC e das COPs”.
A força que vem de fora
Apesar das travas burocráticas, a sociedade civil sai de Belém energizada. A inclusão inédita de termos sobre populações afrodescendentes no Plano de Ação de Gênero e na decisão de capa é um marco.
Tatiana Oliveira, do WWF-Brasil, vê um novo horizonte: “A COP30 marca um divisor de águas: reconhece que a ação climática vai além das salas formais da UNFCCC. A distância entre a força social e as páginas frágeis do acordo mostra que as soluções vêm das pessoas e dos territórios”.
Ela conclui com emoção sobre as últimas duas semanas no Pará: “Muitas vitórias das que realmente importam, como a inclusão de afrodescendentes no texto e a menção aos direitos territoriais dos povos indígenas e ao CLPI (Consulta Livre, Prévio e Informado), são passos históricos que ajudam a garantir direitos”.
Agora, os olhos se voltam para 2026. Haverá um relatório a ser entregue pelas presidências das COPs 30 (Brasil) e 31 (Turquia). A “onda” criada em Belém não arrebentou aqui, mas promete crescer até chegar à Turquia. Resta saber se o clima global vai esperar a diplomacia acertar o passo.












