Relatório da ONU divulgado na abertura da COP30 revela abismo: promessas cobrem só 30% das emissões e cortam 17% até 2035, longe dos 60% exigidos pela ciência.
A COP30 começa em Belém. O cenário é de alerta máximo. Um novo relatório da ONU (UNFCCC) revela um abismo profundo entre a ambição política e a necessidade científica. As novas metas climáticas (NDCs) apresentadas pelos países são dramaticamente insuficientes. Elas cobrem apenas 30% das emissões globais. Juntas, essas promessas cortam só 17% das emissões até 2035. A ciência é clara: o corte necessário é de 60%. O planeta, portanto, caminha perigosamente longe da meta de 1,5°C.
O Acordo de Paris completa 10 anos em 2025. Ele foi criado para limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Mas o próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, já admitiu a derrota nesse ponto. Em 22 de outubro, ele foi direto: “Uma coisa já está clara: não conseguiremos conter o aquecimento global abaixo de 1,5°C nos próximos anos. Ultrapassar o limite agora é inevitável.”
Guterres ressaltou que “a ciência nos diz que é necessário ter muito mais ambição”. Ele apelou por um novo plano de financiamento climático na COP30.
O que a ciência exige
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) definiu o caminho em 2022. Para manter a meta de 1,5°C viva, as emissões globais precisavam atingir o pico antes de 2025. Elas deveriam começar a cair agora.
O roteiro científico exige uma redução de 43% nas emissões até 2030, em relação aos níveis de 2019. E um corte ainda mais profundo, de 60%, até 2035. O IPCC afirma que isso envolve “reduções rápidas e profundas e, na maioria dos casos, imediatas de gases de efeito estufa em todos os setores”.
Na prática, significa eliminar progressivamente os combustíveis fósseis, eletrificar a indústria e acabar com o desmatamento.
A realidade, porém, é outra. Carlos Nobre, um dos principais especialistas em clima do Brasil, alerta: “Nós não estamos no caminho para conseguir a meta de 1,5°C. Entre 5 e 10 anos, no máximo, nós vamos passar.” Nobre projeta um futuro sombrio se a trajetória não mudar. “E se a gente atingir 1,5°C até 2035, nós vamos passar de 2°C até 2050 e podemos chegar a 2,5°C. Isso é muito grave.”
A dura realidade dos números
A matemática da ambição simplesmente não fecha. O novo relatório de síntese da UNFCCC analisou 64 novas NDCs submetidas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Elas representam apenas um terço das emissões globais.
O resultado coletivo é decepcionante. Elas projetam uma redução de apenas 17% até 2035 (em relação a 2019).
A situação piora quando olhamos o quadro geral. Até 10 de novembro, data de abertura da COP30, apenas 79 dos 195 países signatários do Acordo de Paris haviam entregue suas NDCs atualizadas. Isso é apenas 40,5% do total.
Se consideradas todas as NDCs atualmente em vigor (não apenas as 64 novas), a redução projetada é ainda mais pífia. O Observatório do Clima calcula um corte de apenas 2,9% em 2030 e 4,4% em 2035.
Estamos falando de 4,4% contra os 60% exigidos pelo IPCC.
“Gerindo a crise sem urgência”
Especialistas não poupam palavras. A análise é de “choque brutal”. Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, tem sido uma das vozes mais críticas sobre a defasagem.
“Estamos gerindo uma crise sem a urgência de uma crise. Há algo de profundamente equivocado em celebrar uma queda de 17% nas emissões quando a ciência diz que precisamos de 60%”, declarou Unterstell.
Para ela, a política climática está perigosamente atrasada em relação aos impactos já sentidos. “É um choque brutal num momento em que o planeta beira 1,5°C e a política climática insiste em ficar atrás da realidade econômica”, completou.
Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas do WWF-Brasil, concorda com o diagnóstico. “O cenário é preocupante e indica que as ações climáticas continuam sendo adiadas e empurradas para as gerações futuras”.
O centro do problema tem nome: combustíveis fósseis. Claudio Angelo, do Observatório do Clima, aponta a dificuldade central das negociações. “Fechar essa vergonhosa lacuna […] é uma condição absolutamente fundamental. Para isso, não há outra opção senão lidar com o fim dos combustíveis fósseis, que é um tema do qual ninguém quer tratar.”
Paulo Artaxo, professor da USP e membro do IPCC, é categórico. “Sem acabar com a exploração e o uso dos combustíveis fósseis, qualquer decisão que se tome na COP vai se tornar totalmente inócua”, disse, “porque as mudanças climáticas vão continuar a se agravar”.
Os grandes emissores ausentes
Onde estão os 70% de emissões que faltam no relatório da ONU? A resposta está nos grandes poluidores.
Os principais emissores globais — notavelmente China, Índia e União Europeia — não entregaram suas NDCs atualizadas no prazo. Apenas 4 dos 10 maiores emissores globais cumpriram o prazo. E apenas sete países do G20 (grupo das maiores economias) apresentaram suas metas.
A China, responsável por 30% das emissões globais, anunciou uma meta de corte de 7% a 10%. A ciência pedia no mínimo 30%. A Índia, terceiro maior emissor (8%), não apresentou qualquer atualização. A União Europeia (6% das emissões) prometeu cortes robustos, mas formalizou apenas uma “carta de intenção”.
Natalie Unterstell resumiu o impasse diplomático: “Estamos em um momento muito crítico e difícil. A COP30 vai precisar dar uma resposta a essa crise das NDCs. Estamos reféns de autoridades que não querem liderar”.
O paradoxo do anfitrião e o futuro
O próprio país anfitrião, o Brasil, vive sua contradição. O país entregou uma meta robusta (redução de 59% a 67% até 2035), que depende crucialmente do combate ao desmatamento.
No entanto, a menos de um mês da COP, o Ibama autorizou a Petrobras a explorar petróleo na Foz do Amazonas. A decisão foi duramente criticada por ambientalistas e enfraqueceu o discurso de liderança climática do governo brasileiro.
Na abertura da COP30, o chefe da UNFCCC, Simon Stiell, tentou equilibrar os pratos. Ele celebrou que “a curva de emissões foi revertida e não está aumentando”. Mas alertou com urgência: “Apesar do tom otimista, ainda há muito trabalho a fazer e é necessário avançar muito, muito rápido.”
Stiell concluiu que “os compromissos nacionais individuais, por si só, não estão reduzindo as emissões com rapidez suficiente.” A COP30, segundo ele, precisa agora mostrar que o multilateralismo funciona e entregar avanços reais em financiamento e, acima de tudo, em metas alinhadas com a sobrevivência climática.












