Estudo* analisa respostas de robôs e aponta que inteligência artificial adota discurso empresarial para mascarar gasto gigante de energia.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ciências da Comunicação revela que ferramentas populares de inteligência artificial, como ChatGPT e Gemini, omitem dados cruciais sobre a própria poluição. A pesquisa demonstra que os robôs usam respostas evasivas para proteger as grandes empresas de tecnologia e chegam a transferir a culpa do impacto ambiental para os cidadãos.
Essa postura corporativa esconde o verdadeiro custo ecológico da tecnologia. Enquanto os sistemas se vendem como soluções para o futuro , o treinamento de uma única ferramenta inteligente pode gerar mais fumaça tóxica do que vários automóveis , prejudicando seriamente o combate real ao aquecimento global.
O custo invisível da nuvem
O consumo de energia para fazer a máquina funcionar é alarmante. De acordo com a pesquisa, o maquinário pesado exige uso contínuo de recursos minerais e combustíveis fósseis. O impacto é tão forte que “o processamento de dados necessário para treinar um LLM é equivalente a cinco vezes o total de emissões de um carro em toda sua vida útil”, aponta o documento. Isso representa mais de 284 mil quilos de gás carbônico jogados na atmosfera por um único modelo.
Apesar dessa conta alta, obter transparência é uma missão quase impossível. Ao serem questionados diretamente, os robôs se recusam a dar números exatos. O Gemini, sistema do Google, confessou a estratégia de sigilo em uma de suas respostas: “A maioria das empresas ainda não divulga dados detalhados sobre as emissões de carbono associadas a seus modelos”. O ChatGPT justificou que revelar esses dados de impacto ambiental poderia prejudicar a imagem competitiva da empresa no mercado.
Terceirização da culpa
Em vez de assumirem o impacto gigantesco de seus donos, os robôs frequentemente apontam o dedo para o público e para os governos. Durante as interações com os pesquisadores, o ChatGPT chegou a criar um tópico de conversa chamado “responsabilidade compartilhada”. No texto gerado, o sistema argumenta que “a responsabilidade pela piora da crise climática também é compartilhada com outros atores: indústria tecnológica como um todo e usuários”.
Essa divisão tenta criar uma falsa igualdade, colocando o cidadão comum no mesmo nível de responsabilidade que os bilionários conglomerados que lucram com os sistemas. O robô aproveita a conversa para dar conselhos de comportamento, instruindo as pessoas a adotarem atitudes individuais para salvar o planeta.
A ilusão da máquina salvadora
As inteligências artificiais também adotam um tom excessivamente otimista para disfarçar o problema. Mesmo quando os pesquisadores perguntaram especificamente sobre os danos da tecnologia, os robôs mudaram de assunto para exaltar supostos benefícios. O ChatGPT afirmou que “a IA também pode desempenhar um papel importante na mitigação das mudanças climáticas”.
A pesquisa conclui que esse discurso funciona como uma “maquiagem verde” (greenwashing). As ferramentas hipervisibilizam vantagens teóricas enquanto invisibilizam os lixões eletrônicos e o gasto de energia. Sem políticas claras e educação midiática, o documento alerta que a sociedade continuará vulnerável às regras secretas das empresas de tecnologia.
Para evitar resultados viciados, os pesquisadores criaram contas novas no ChatGPT (versão GPT-4o) e no Gemini (versão 1.0 Pro) e utilizaram a navegação anônima na internet. O método consistiu em aplicar perguntas (prompts) simulando entrevistas para avaliar os temas predominantes nas respostas, sem induzir papéis ou públicos-alvo específicos aos robôs.
*IA e impacto ambiental: uma análise temática das contradições discursivas produzidas por Chatgpt e Gemini – Simone Evangelista e Renato Guimarães Furtado.
A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando ia.
Leia também:
Leilão do 700 MHz prevê 4G e 5G para 17 mil pessoas, 43 cidades em MT e beneficiará o Agro
Flávio Bolsonaro usa linguagem neutra em rede social e irrita base conservadora
Eleição em MT tem 75,4% de indecisos; cenário aponta disputa aberta para 2026












