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Bioeconomia indígena: um grito por território e a recusa de uma ciência de laboratório

Novo dossiê "Vozes das Gerações" reúne relatos de lideranças indígenas femininas de nove estados da Amazônia. O documento critica a visão puramente mercantil da bioeconomia, exigindo a demarcação de terras como pré-requisito econômico e denunciando os impactos do garimpo, da logística precária e das mudanças climáticas na produção tradicional.
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Dossiê inédito reúne vozes de lideranças femininas de nove estados da Amazônia para confrontar a visão de mercado sobre sustentabilidade. Para elas, sem demarcação, a “economia da floresta” é apenas um mito de marketing.

A floresta não é apenas uma fábrica de insumos para a indústria cosmética ou farmacêutica. Para quem vive no “chão da aldeia”, o conceito de bioeconomia — termo da moda em conferências climáticas e gabinetes governamentais — carrega um peso diferente, muitas vezes ignorado pelas planilhas de excel. Um novo documento, lançado pela iniciativa “Uma Concertação pela Amazônia”, joga luz sobre essa dissonância. O volume 11 dos Cadernos da Concertação, intitulado “Bioeconomia Indígena Feminina da Amazônia: Vozes das Gerações”*, não traz apenas dados; ele traz um ultimato.

Organizado pela cientista indígena Braulina Baniwa, o dossiê disseca como a lógica de mercado tenta ditar o ritmo da natureza, atropelando ciclos milenares e ignorando que a primeira premissa para qualquer economia sustentável é a terra garantida.

O recado é direto e sem rodeios. “A demarcação é a primeira política da bioeconomia. Sem território garantido, não há floresta, não há ciência, não há futuro”, destaca o documento logo em suas mensagens principais.

O abismo entre o conceito e a prática

Enquanto o governo federal e organismos internacionais definem bioeconomia focados na substituição de recursos fósseis e biotecnologia, as mulheres indígenas propõem uma ruptura. Elas não querem ser meras fornecedoras de matéria-prima. Elas exigem o reconhecimento de suas “tecnologias sociais”.

Braulina Baniwa, organizadora da publicação, pontua essa distinção crucial. Para ela, o mercado ignora a pluralidade de saberes. “Não falamos de uma economia, mas de muitas economias. Cada povo, cada mulher, carrega sua própria forma de gerar vida, valor e equilíbrio”.

A crítica se aprofunda na questão do tempo. A pressa da indústria não casa com o tempo de maturação de um tucumã ou com o ciclo de aprendizado de uma artesã. “A pressa do mercado não pode ditar o ritmo das florestas nem o tempo das nossas mãos”.

Rondônia: A logística que devora o lucro

Marciely Tupari, liderança jovem de Rondônia e coordenadora-secretária da COIAB, expõe uma ferida aberta na comercialização dos produtos da floresta: o custo de existir longe dos centros urbanos. A logística na Amazônia é brutal e cara.

Muitas vezes, o esforço para escoar a produção inviabiliza o negócio antes mesmo dele começar. Marciely relata que financiadores externos raramente compreendem essa realidade. “Essa falta de entendimento sobre a realidade logística da Amazônia faz com que parceiros desistam de fazer encomendas, porque às vezes, só na logística, você já gastou o recurso que era para estar dando retorno para as mulheres”.

Além disso, há o desafio da precificação. O mercado vê um colar; a mulher indígena vê dias de coleta, tratamento e tecelagem manual. Leonice Tupari, da coordenação da AGIR (Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia), reforça que o valor agregado é histórico, não apenas estético. “Os produtos indígenas são duradouros, e o desafio que enfrentamos hoje é conseguir um mercado justo, que valorize nossa ciência e a narrativa da história de cada mulher presente em cada peça de nossas artes”.

O Fundo Podáali

Diante da burocracia estatal e da dificuldade de acesso a créditos convencionais, o movimento indígena criou seus próprios mecanismos. O Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira opera sob o lema “Por indígena, para indígena e com gestão indígena”.

  • Autonomia: Apoia projetos diretamente nos territórios, sem intermediários.

  • Foco: Prioriza mulheres, medicina ancestral e soberania alimentar.

Impacto: O edital “Amazônia Indígena Resiste” já apoiou dezenas de projetos, incluindo a rede de artesãs TECÊ.

O garimpo que mata a economia no Pará

Se em Rondônia o desafio é logístico, no Pará o inimigo é a contaminação. O povo Munduruku vive sob o cerco do garimpo ilegal, que envenena rios e destrói as roças, base da segurança alimentar e da economia local.

Beka Munduruku, jovem comunicadora e ativista, descreve um cenário de guerra econômica. O garimpo não apenas polui; ele coopta a mão de obra e desvaloriza o trabalho tradicional. “Além da contaminação, além da destruição, além da manipulação, o garimpo traz essa outra questão, de não querer que os indígenas produzam, porque eles querem que os indígenas trabalhem no garimpo”.

Alessandra Munduruku, referência internacional na defesa do território, é categórica ao afirmar que não existe bioeconomia em terra arrasada. Para ela, a floresta precisa estar viva, não apenas “em pé” mas morta por dentro. “Não adianta falar de floresta em pé se muita floresta foi queimada. […] A gente quer a floresta viva”. Ela complementa com uma visão crítica sobre as soluções mágicas do capitalismo verde: “Muitos daqui, quando a gente fala de valorização, acham que valorização é só falar do artesanato. Mas precisamos falar da valorização da demarcação de terra”.

A medicina ameaçada pelo fogo no Maranhão

No estado do Maranhão, as mulheres Guajajara enfrentam o fogo. As mudanças climáticas e os incêndios criminosos estão dizimando as plantas medicinais, base da saúde e da espiritualidade do povo.

Marcilene Guajajara, coordenadora da COAPIMA, alerta que a “farmácia viva” está desaparecendo. “Tivemos muitas perdas por conta do calor e da falta de chuva, mas a ciência da oralidade permanece viva e continuará sendo repassada até a última Tenetehara”. Ela denuncia também o racismo institucional que deslegitima o saber tradicional. “Nesses momentos, vemos que nossa medicina não é valorizada; esse preconceito que enfrentamos é um silêncio”.

Moda, espírito e mercado

Apesar dos obstáculos, há exemplos de parcerias que tentam equilibrar esses pratos. No Acre, o povo Yawanawá desenvolveu uma relação com a marca de moda FARM. Maria Júlia Yawanawá relata que a aceitação do trabalho artesanal feminino foi, inicialmente, uma batalha interna contra o machismo nas aldeias.

Os desenhos, chamados de Irautes, são proteções espirituais, não apenas estampas. “Os Irautes trazem o sentido de proteção, de você vestir sua melhor roupa para atrair coisas boas”. O fortalecimento econômico das mulheres mudou a dinâmica social. “Hoje, os homens valorizam a atividade artesanal das mulheres, cooperam, engajam-se mais no cuidado das crianças”.

O veredito das guardiãs

O documento encerra com uma mensagem clara: a bioeconomia não pode ser um monólogo do mercado financeiro. Ela precisa ser um diálogo intercultural que respeite o tempo da terra e a autonomia dos povos. Braulina Baniwa resume o sentimento coletivo de que a floresta é uma entidade viva, e não um almoxarifado.

“A floresta é uma mulher que alimenta, ela forma e nos permite crescer como pessoas. É ela que nos sustenta e salva o ar que respiramos”.

*BIOECONOMIA INDÍGENA FEMININA DA AMAZÔNIA

Autoria
Braulina Baniwa
Marciely Tupari
Maria Leonice Tupari
Sandiely Sateré Mawé
Regina Sateré Mawé
Ayla Tapajós
Marcilene Guajajara
Beka Munduruku
Alessandra Munduruku
Maria Julia Yawanawá

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