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Ataque triplo: revista da UnB alerta para ofensiva contra ciência, democracia e sustentabilidade

Editorial de 2025 usa retirada dos EUA do Acordo de Paris como estopim para denunciar “obscurantismo científico” e “ação antiambiental estatal”

O ano de 2024 foi confirmado como o mais quente já registrado na história. Pela primeira vez, a temperatura média global ultrapassou o limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris. Mas 2025 mal começou e já trouxe um balde de água fria. Um decreto executivo em janeiro retirou os Estados Unidos do pacto climático.

Este ato é a ponta de lança de um ataque interligado à sustentabilidade, ao conhecimento e à própria democracia. O alerta é do corpo editorial da “Sustentabilidade em Debate”, revista científica do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB).

Em seu novo editorial, intitulado “Sustentabilidade, democracia e conhecimento: interdependência sob ataque” , os pesquisadores da UnB são taxativos. A nova postura americana não é mero negacionismo. É uma “ação antiambiental patrocinada pelo Estado”. A retórica do “drill, baby, drill” (perfure, baby, perfure) veio acompanhada de ações práticas: o desmantelamento da Agência de Proteção Ambiental (EPA), referência global desde 1970, e a desregulamentação acelerada do setor de petróleo e gás.

Para os editores, essa ofensiva ambiental anda de mãos dadas com um ataque ao conhecimento. Eles apontam o fortalecimento do “obscurantismo científico” , visível nos cortes de verbas para pesquisa e na perseguição a cientistas. A retirada dos EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS) é chamada de “emblemática”. Afinal, foi a colaboração científica internacional que permitiu superar a pandemia de Covid-19 , cuja gravidade, lembram, foi negada “lá e cá”.

 

Não é só nos EUA

 

O descrédito da ciência, no entanto, não é um problema exclusivo dos Estados Unidos. O editorial destaca que a hostilidade à ciência é um fenômeno global crescente. Na Alemanha, um projeto chamado KAPAZ foi lançado em 2023 especificamente para entender e combater essa hostilidade no país.

Os dados são preocupantes. O Academic Freedom Index – Update 2025, um relatório recente do Instituto V-Dem, mostra “declínios estatisticamente significativos na liberdade acadêmica” em uma década (2014-2024). A lista de países afetados é longa e surpreende por incluir democracias consolidadas: Estados Unidos, Argentina, México, Portugal, Reino Unido, Finlândia, Alemanha e Áustria estão entre os citados.

 

O mundo de Orwell em 2025

 

Se o ataque ao conhecimento ameaça a sustentabilidade, os editores argumentam que ambos exigem um assalto a um terceiro pilar: a democracia.

Restringir a ciência, dizem, é controlar o conhecimento do futuro. E para moldar uma sociedade com visões conservadoras, é preciso mirar as artes. O editorial cita uma ordem executiva de março de 2025 nos EUA, “Restaurando a Verdade e a Sanidade da História Americana”. O alvo? A Smithsonian Institution, maior rede de museus do país. O objetivo é remover obras e exposições acusadas de propagar “ideologia divisiva e centrada na raça”.

Um exemplo do que é considerado “ideologia imprópria” é a exposição “The Shape of Power: Stories of Race and American Sculpture” (A Forma do Poder: Histórias de Raça e Escultura Americana). Essa combinação de ataques à ciência e à liberdade levou a The New York Times Magazine a publicar, em 29 de janeiro de 2025, um ensaio intitulado “Estamos Todos Vivendo no Mundo de George Orwell Agora”.

As frentes do debate

 

Diante desse cenário sombrio, a revista da UnB se posiciona como um espaço de resistência. A nova edição (Vol. 16, n. 1) reúne um “mosaico rico” de pesquisas que investigam justamente os pontos de tensão da sustentabilidade.

Os artigos mergulham em temas urgentes. Um deles questiona se houve um enfraquecimento do ambientalismo no Brasil, revelando como o desengajamento público e a retórica antiecológica contribuíram para isso. Outros analisam os impactos socioambientais de atividades extrativistas, como os efeitos da mineração no mercado de aluguel em Ouro Preto (MG) e as consequências da exploração de lítio em Puno, no Peru.

A revista também aborda as alternativas. Um estudo explora nichos de inovação rural no Nordeste brasileiro como caminhos para sistemas alimentares inclusivos e de baixo carbono. Na área da saúde, os pesquisadores debatem a coexistência de sistemas de saúde hegemônicos e periféricos e analisam um problema cotidiano: o descarte incorreto de medicamentos pela população em Araçatuba (SP).

Fechando o volume, artigos investigam a mobilidade urbana em João Pessoa , as pegadas ambientais da dieta de adolescentes brasileiros – marcada por ultraprocessados – e como a inteligência artificial pode fortalecer as cadeias agroalimentares na África.

O editorial conclui que sustentar a liberdade de pesquisa exige financiamento robusto e acesso livre ao conhecimento. Num momento de ascensão do obscurantismo, a “Sustentabilidade em Debate” afirma que persevera na missão de divulgar ciência rigorosa para “o desenvolvimento de uma nova ética planetária”.

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