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Aquecimento global coloca trabalhadores na linha de fogo do estresse térmico

Relatório da OMS/OMM revela que o estresse térmico no trabalho, agravado pelo aquecimento global, já afeta 2,4 bilhões de pessoas, causando 22,8 milhões de acidentes e 19 mil mortes por ano.
Relatório da OMS/OMM revela que o estresse térmico no trabalho, agravado pelo aquecimento global, já afeta 2,4 bilhões de pessoas, causando 22,8 milhões de acidentes e 19 mil mortes por ano.

Texto: Sofia Santos e Rogério Florentino

Relatório da ONU revela que 71% da força de trabalho mundial, ou 2,4 bilhões de pessoas, já sofrem com o calor extremo, resultando em milhões de acidentes e milhares de mortes anuais.

Um calor que não dá trégua. Sob o sol escaldante ou em ambientes abafados, milhões de trabalhadores ao redor do mundo enfrentam um inimigo invisível e cada vez mais potente: o estresse térmico. Um novo e contundente relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado nesta sexta-feira, soa o alarme sobre uma crise de saúde pública e econômica que se agrava a cada recorde de temperatura quebrado. A realidade é dura, o ano de 2024 foi cravado como o mais quente da história, e a fatura dessa emergência climática já está sendo paga com a saúde, a segurança e a produtividade de quem move a economia.

Mais de dois terços da força de trabalho global, o equivalente a 2,4 bilhões de pessoas, já estão expostos aos perigos do calor excessivo em suas atividades profissionais. Fonte: Relatório OMS/OMM, agosto de 2025.

A ameaça não é mais uma projeção distante. O documento, intitulado “Mudanças Climáticas e Estresse Térmico no Local de Trabalho”, detalha como a exposição ao calor excessivo está diretamente ligada a mais de 22,85 milhões de acidentes de trabalho por ano em todo o mundo. O número de vidas perdidas é igualmente chocante: aproximadamente 19 mil mortes anuais são atribuídas a essa causa, um dado que expõe a vulnerabilidade de setores essenciais como a agricultura, a construção civil e a pesca.

 

O corpo como termômetro da crise

 

Quando a temperatura sobe, o desempenho cai. A pesquisa das agências da ONU é categórica ao afirmar que a cada grau Celsius acima dos 20°C, a capacidade laboral de um trabalhador diminui entre 2% e 3%. O impacto vai muito além do cansaço ou do desconforto. Estamos falando de um leque de consequências graves que incluem desidratação severa, insolação, exaustão e o desenvolvimento de doenças crônicas, como lesões renais, problemas cardiovasculares e até distúrbios neurológicos.

A exposição ao calor extremo é responsável por quase 23 milhões de acidentes de trabalho e 19 mil mortes todos os anos, revelando uma crise de segurança ocupacional em escala global.

O cenário climático pinta um quadro sombrio. Com 2024 registrando uma temperatura média global 1,55°C acima dos níveis pré-industriais, superando o recorde anterior, e a década de 2015-2024 sendo a mais quente já medida, a exposição ao calor extremo deixou de ser uma exceção para se tornar a nova e perigosa normalidade. As projeções indicam que, sem ações de mitigação robustas, o número de pessoas vivendo em regiões com alto estresse térmico pode saltar para assustadores 1,44 bilhão até o final do século.

A década de 2015 a 2024 foi a mais quente já registrada. O aquecimento acelerado culminou em 2024, quando a temperatura média do planeta atingiu 1,55°C acima dos níveis pré-industriais.

 

Brasil: um gigante sob o sol

 

No Brasil, a situação é particularmente crítica e expõe um paradoxo doloroso. Embora as normas regulamentadoras reconheçam o calor como um risco ocupacional, uma mudança na legislação em 2019 excluiu explicitamente a exposição à luz solar direta, deixando desprotegidos justamente os trabalhadores rurais e da construção, que estão na linha de frente do problema. Essa lacuna na lei joga na informalidade milhões de pessoas, como vendedores ambulantes, entregadores e catadores de recicláveis, que não contam com qualquer amparo.

Os dados locais refletem essa urgência. Em março de 2023, a cidade do Rio de Janeiro registrou uma sensação térmica de 62,3°C. Pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostram que 38 milhões de brasileiros já são afetados por calor extremo por quase 25 dias ao ano, uma realidade que se traduz em um aumento de denúncias nos sindicatos e perdas significativas de produtividade, especialmente no agronegócio, onde se projeta uma perda de até 60% das horas trabalhadas até 2030.

 

Projeções indicam que o setor agrícola brasileiro pode perder até 60% das horas trabalhadas até 2030 devido ao estresse térmico, um dos impactos econômicos mais severos do aquecimento global no país.

 

Para entender melhor:

  • Estresse Térmico: Ocorre quando o corpo não consegue se resfriar adequadamente, absorvendo mais calor do que é capaz de dissipar. Isso pode levar a uma série de problemas de saúde, de leves a fatais.
  • DALYs (Anos de Vida Ajustados por Incapacidade): Uma medida da carga global de doenças. Representa a soma dos anos de vida perdidos devido à morte prematura e os anos vividos com incapacidade ou saúde precária.
  • RCPs (Representative Concentration Pathways): Cenários desenvolvidos pelo IPCC para modelar diferentes futuros climáticos com base em quanto gases de efeito estufa serão emitidos. Vão do mais otimista (RCP2.6) ao mais pessimista (RCP8.5).

 

Um chamado à ação

 

Diante do cenário, a OMS e a OMM defendem a implementação urgente de Planos de Ação Ocupacionais contra o Calor (OHAPs, na sigla em inglês). A proposta não é apenas uma formalidade, mas uma estratégia de sobrevivência que deve ser construída com a participação ativa de trabalhadores, sindicatos, empresas e autoridades.

As recomendações são claras e pragmáticas. É preciso garantir hidratação adequada, com a oferta de ao menos um litro de água fresca por hora; criar áreas de descanso climatizadas; instituir pausas remuneradas e adaptar as escalas de trabalho, evitando os horários de pico de calor. Além disso, investir em controles de engenharia, como sombreamento e ventilação, e no treinamento para que todos saibam reconhecer os primeiros sintomas do estresse térmico pode salvar vidas.

Proteger os trabalhadores do calor extremo não é apenas uma questão de saúde, mas uma necessidade econômica e um imperativo de justiça social. A interligação entre clima, saúde e trabalho decente mostra que a inação tem um custo alto demais, medido em vidas perdidas, famílias desamparadas e economias fragilizadas. A adaptação a este novo mundo mais quente precisa começar, para ontem, no chão de fábrica e no campo.

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