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A herança tóxica do agronegócio: estudo relaciona disparo no consumo de agrotóxicos a casos de câncer feminino em Goiás

Um estudo da UniEVANGÉLICA cruzou dados oficiais do INCA, IBAMA e DATASUS e revelou uma correlação alarmante: a alta comercialização de agrotóxicos está diretamente associada às taxas elevadas de câncer de mama e colo do útero no Sudoeste de Goiás.
agrotóxicos e câncer feminino

Um novo levantamento* científico joga luz sobre uma grave crise de saúde pública que avança de forma silenciosa nas vastas lavouras brasileiras: a estreita relação entre o alto consumo de agrotóxicos e a disparada na incidência de câncer de mama e de colo do útero em municípios do Sudoeste Goiano.

Baseado no cruzamento inédito de dados oficiais do DATASUS, do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), o estudo revela que o preço do modelo agrícola intensivo pode estar sendo cobrado diretamente da saúde de milhares de mulheres que habitam as zonas rurais e urbanas dessas regiões.
O contexto por trás desses números alarmantes reflete um modelo de desenvolvimento voltado para a exportação de monoculturas. Como destaca a pesquisa conduzida na Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA): “O uso de agrotóxicos no Brasil tem crescido de forma acentuada nas últimas décadas, consolidando o país como um dos maiores consumidores mundiais desses produtos químicos”.
Para a população local, a lavoura não precisa estar no quintal de casa para representar um perigo iminente. O estudo alerta que o contato com os pesticidas rompe as barreiras do trabalho no campo: “Evidências sugerem que moradores de áreas agrícolas, mesmo sem contato ocupacional direto, podem sofrer contaminação por meio da água, do solo e da alimentação”. Os impactos dessa contaminação ambiental, segundo os pesquisadores, são múltiplos e severos, pois “esse fenômeno tem sido associado não apenas ao aumento de cânceres, mas também a distúrbios neurológicos, respiratórios, reprodutivos e imunológicos”.

O peso dos dados e o alerta das instituições

Apenas no ano de 2023, os relatórios do IBAMA apontaram a comercialização de impressionantes 56.857 toneladas de ingredientes ativos de pesticidas no estado de Goiás, com predomínio de substâncias como o glifosato e a atrazina — esta última associada a tumores mamários em estudos experimentais.
O impacto desse volume massivo é corroborado por autoridades federais, conforme o estudo cita categoricamente: “Instituições de referência em saúde, como o Instituto Nacional de Câncer (INCA), destacam que a exposição prolongada a determinados tipos de agrotóxicos aumenta os riscos de desenvolvimento de cânceres, devido à presença de substâncias com propriedades mutagênicas e carcinogênicas”.
Ao analisar as estatísticas vitais fornecidas pelas bases do INCA e do DATASUS (como SIM e SINAN), o diagnóstico regional torna-se incontestável. Municípios de forte vocação agrícola, a exemplo de Castelândia e Porteirão, apresentaram índices alarmantes. Em Porteirão, por exemplo, a taxa de câncer de colo de útero chegou a ser três vezes maior que a média do estado.
Os pesquisadores concluem que: “Em Goiás, especialmente nas regiões Sudoeste I e II, observam-se taxas de incidência e mortalidade superiores à média nacional, evidenciando desigualdades regionais”.
Para dimensionar a gravidade desta constatação, a pesquisa estratificou as estatísticas extraídas das bases oficiais em três abrangências geográficas: Cenário Nacional (Brasil); Estado de Goiás e Regiões Sudoeste I e II. 
Cenário Nacional (Brasil)
 Entre 2023 e 2025, o câncer de mama segue como o mais incidente no país, com média de 73.610 novos casos anuais, o que representa uma taxa bruta de incidência de 66,5 para cada 100 mil mulheres. O levantamento aponta que a mortalidade em 2022 atingiu 19.103 óbitos (concentrados na faixa etária de 50 a 69 anos).
O câncer do colo do útero também preocupa, ocupando a terceira posição com estimativa de 17.010 casos novos por ano.
Estado de Goiás
 Os indicadores estaduais acendem um alerta crítico. A estimativa (2023–2025) aponta 1.970 novos casos anuais de câncer de mama, revelando uma taxa ajustada de 45,6/100 mil mulheres — número que se posiciona acima da média nacional. Foram registrados 568 óbitos em 2022 (taxa ajustada de 12,2/100 mil, semelhante ao restante do país).
Para o câncer de colo do útero, projeta-se 660 novos casos por ano em Goiás; contudo, a taxa de mortalidade bate a marca de 6,04/100 mil mulheres, indicador também superior à média do Brasil.
Regiões Sudoeste I e II
O aprofundamento local consolida o cenário de crise na zona agrícola. Na Região de Saúde Sudoeste I, a mortalidade por câncer de mama em Castelândia chegou a alarmantes 27,34 mortes por 100 mil mulheres, contrastando bruscamente com municípios vizinhos como Lagoa Santa, que registrou taxa nula. Na Sudoeste II, Portelândia apresentou 23,41/100 mil.
No que diz respeito ao câncer de colo do útero, as disparidades revelam graves falhas de rastreamento e prevenção: Porteirão lidera com 15,86 mortes por 100 mil mulheres e Portelândia marca 9,41/100 mil — índices estatísticos até três vezes maiores do que as próprias médias estaduais

A geografia da doença

A investigação ambiental conduzida por meio do mapeamento de dados cria uma imagem perturbadora da sobreposição entre o veneno agrícola e a doença. O texto é claro sobre o achado: “Esses dados revelam a coincidência entre regiões de maior comercialização e maiores taxas de neoplasias femininas”.
Ainda que o desenho ecológico do estudo demande análises futuras para determinar causalidade isolada de outros fatores socioeconômicos, o alerta à saúde pública e ambiental é irrefutável. “Quando cruzados os dados, observa-se correlação espacial sugestiva entre municípios com maior intensidade agrícola e maior incidência/mortalidade por cânceres de mama e colo do útero”.
O recado final da ciência exige ação imediata de regulação e políticas de proteção à vida. Como assevera a conclusão da pesquisa: “A exposição a agrotóxicos é um importante fator de risco ambiental relacionado ao aumento da incidência de câncer de mama e, possivelmente, colo do útero, sobretudo em áreas agrícolas do Brasil”.
Fica evidente que a vigilância em saúde ambiental precisa urgentemente se integrar à regulação do agronegócio, sob o risco de continuarmos colhendo, junto aos grãos de exportação, o adoecimento crônico e silencioso de populações inteiras.

 

 

*REGIÃO, AGROQUÍMICOS E PROCESSO SAÚDE-DOENÇA: ESTUDO DO USO DE AGROTÓXICOS NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA E CASOS DE NEOPLASIAS NA POPULAÇÃO RESIDENTE NOS MUNICÍPIOS DAS REGIÕES DE SAÚDE SUDOESTE I E SUDOESTE II, GOIÁS (2010 –2025). Luciano Andrade Machado e Giovana Galvão Tavares.

 

Transparência: a imagem gerada para ilustrar esta matéria foi criada utilizando ia.

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