Estudo publicado em março de 2026 articula agroecologia, tecnologias sociais e economia solidária como saída para a crise do modelo agroindustrial no Brasil
Um grupo de seis pesquisadores de universidades e institutos federais de Alagoas e Rio Grande do Sul publicou, em março de 2026, na Revista DCS, uma análise sobre alternativas ao modelo agroindustrial hegemônico no Brasil. A pesquisa, de abordagem qualitativa e base documental, examinou produções científicas e relatos de experiência publicados entre 2020 e 2025. A conclusão é direta: a combinação entre práticas agroecológicas, tecnologias sociais e formas solidárias de organização econômica constitui um caminho viável — e já em curso — para transformar a agricultura familiar no Semiárido brasileiro.
Crise do modelo convencional como ponto de partida
A Revolução Verde deixou um rastro conhecido: padronização produtiva, dependência de insumos químicos e subordinação dos agricultores às grandes cadeias industriais. O resultado foi o aprofundamento das desigualdades no campo e a ampliação da degradação socioambiental — especialmente em regiões como o Nordeste, historicamente marcado por concentração fundiária, dependência climática e fragilidade das políticas públicas.
Esse modelo não opera apenas como setor econômico. Ele reorganiza territórios segundo a lógica da mercantilização extrema, transformando ecologias, territorialidades e modos de vida em ativos de mercado. Há também uma dimensão epistemológica: a racionalidade técnico-economicista dominante define quais saberes são válidos e quais são descartáveis — tornando invisíveis povos e comunidades cujos modos de vida escapam ao padrão agroindustrial.
Uma camada adicional de pressão vem da plataformização da agricultura. O capitalismo de plataforma produz novas formas de dependência tecnológica e vigilância, concentrando ainda mais poder no agronegócio e reduzindo a autonomia dos pequenos produtores — o que complexifica a crise e adiciona ao pacote tecnológico tradicional um controle informacional que reforça desigualdades históricas.
Agroecologia como ciência e projeto político
A agroecologia vai além de um conjunto de técnicas ambientalmente adequadas. É um campo multidimensional que integra dimensões ecológicas, econômicas, culturais e políticas — e que, no plano político, funciona como movimento de resistência, articulando movimentos sociais, povos tradicionais e agricultores familiares em torno de lutas por terra, água e autonomia produtiva.
Ao incorporar valores éticos, pluralidade epistemológica e participação social como componentes da produção de conhecimento, ela se diferencia da racionalidade reducionista do agronegócio. Para Miguel Altieri, uma das referências centrais do campo, a agroecologia reconhece os agroecossistemas como produtos de interações sociais, culturais, econômicas e políticas — deslocando o foco da produtividade isolada para uma perspectiva sistêmica de sustentabilidade e resiliência.
Há ainda uma dimensão decolonial. A agroecologia afirma práticas, saberes e identidades historicamente deslegitimadas pela modernidade colonial — o que a consolida não apenas como ciência, mas como paradigma capaz de integrar epistemologia, política e técnica.
Cisternas, hortas e biofábricas: as tecnologias do Semiárido
As tecnologias sociais (TS) são definidas como produtos, técnicas e metodologias desenvolvidas de forma compartilhada, com elevado potencial de transformação social, a partir do protagonismo das comunidades. Essa concepção rompe com o modelo tecnocrático: soluções mais eficazes emergem de processos participativos e do diálogo entre saberes acadêmicos e populares.
No Semiárido, isso se traduz em objetos concretos: cisternas de placas, barragens subterrâneas, barreiros, quintais produtivos, hortas comunitárias e biofábricas de insumos naturais. Essas iniciativas fortalecem vínculos comunitários, ampliam a capacidade de enfrentamento da insegurança alimentar e redesenham sistemas produtivos em bases sustentáveis — sem depender de insumos externos.
A diferença em relação às tecnologias convencionais é de origem: enquanto estas seguem a lógica do mercado, as TS partem da realidade territorial, reconhecem saberes locais como legítimos e incorporam dimensões culturais e ambientais no desenvolvimento das soluções.
Economia solidária como eixo organizativo
Autogestão, cooperação e redistribuição são os princípios que estruturam a economia solidária — e é exatamente isso que a torna um eixo organizativo da transição agroecológica. Cooperativas, redes comunitárias e empreendimentos solidários consolidam mercados territorializados, ampliam a renda das famílias agricultoras e favorecem cadeias curtas de produção e consumo.
No Semiárido, cooperativas agroecológicas desempenharam papel estratégico no acesso a programas públicos como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), conforme o Manual de Operações do PAA publicado pelo Ministério da Cidadania em 2020. Esses programas criaram ambientes institucionais favoráveis para agricultores familiares, aproximando produtores de consumidores e reduzindo intermediações.
A economia solidária também cumpre papel educativo e político. Redes solidárias funcionam como espaços formativos que ampliam a participação social e desenvolvem novas competências organizacionais — tornando os empreendimentos mais do que unidades produtivas: ambientes de fortalecimento comunitário e expansão da cidadania.
Mulheres e decolonialidade como dimensões estruturantes
As mulheres camponesas vivenciam simultaneamente a opressão de gênero e de classe — mas desenvolvem práticas de resistência que reconfiguram relações comunitárias e fortalecem sua autonomia nos territórios rurais. Hortas comunitárias, produção de plantas medicinais, feiras agroecológicas e empreendimentos femininos são territórios concretos dessa resistência.
A educação popular, inspirada em Paulo Freire, atravessa essas práticas. A emancipação depende de diálogo, protagonismo e participação ativa dos sujeitos na construção do conhecimento — elementos presentes nas feiras solidárias, nas redes de economia solidária e nas iniciativas de tecnologia social que promovem espaços horizontais de debate e aprendizagem.
A intersecção entre decolonialidade, educação popular e protagonismo feminino revela que a transformação territorial depende da valorização de múltiplas epistemologias e da construção de práticas solidárias que respeitem diversidade, equidade de gênero e justiça social.
Desdobramentos
A articulação entre tecnologias sociais, agroecologia e economia solidária já está em curso nos territórios do Semiárido — esse é o ponto de partida, não a promessa. A continuidade dependerá de políticas públicas estruturantes, fortalecimento da extensão rural e ampliação dos programas de compras institucionais da agricultura familiar, cujo futuro permanece sujeito às definições orçamentárias e às prioridades do governo federal nos próximos ciclos.
Fonte: SILVA, João Manoel da; SARMENTO, Yan Patric Santiago; SILVA, Clayton dos Santos; BALBINO, Rafael dos Santos; CRISTO, Crísea Cristina Nascimento de; COSTA, Jakes Halan de Queiroz. Tecnologias sociais e cooperação solidária na construção de um paradigma agroecológico. Revista DCS, v. 23, n. 88, p. 01-18, 2026. DOI: 10.54899/dcs.v23i88.4748. Recebido: 25/02/2026. Aceito: 26/02/2026. Publicado online: 11/03/2026.
Obs.: a imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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