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O paradoxo do boi: Pecuária concentra 97% das emissões de MT, enquanto Pontes e Lacerda e Colniza vivem realidades opostas

Uma análise aprofundada dos novos dados do SEEG 2023 revela que a cadeia da pecuária (emissões diretas somadas ao desmatamento para pasto) é responsável por 97% dos gases de efeito estufa de Mato Grosso.
monitoramento climático cidades MT

Nova análise dos dados do SEEG referentes a 2023 expõe a “pegada oculta” do gado no desmatamento e revela como um único município conseguiu reduzir sua poluição em 14 milhões de toneladas.

Se o mapa de Mato Grosso fosse pintado não por fronteiras políticas, mas por chaminés invisíveis de carbono, a imagem de 2023 seria um retrato de contrastes brutais. É o que revelam os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), a principal plataforma de monitoramento climático do país. De um lado, o estado celebra uma queda geral de 15% nas emissões em comparação ao ano anterior. De outro, a análise detalhada da plataforma mostra uma dependência quase absoluta de uma única atividade na balança climática: a pecuária.

Quando se somam as emissões diretas do gado (o metano da digestão) com o desmatamento realizado para abrir novos pastos, o setor responde por impressionantes 238 milhões das 244 milhões de toneladas de CO2 equivalente (CO2e) lançadas pelo estado. É uma hegemonia de 97% que coloca o “boi” — e não a soja ou a indústria — no centro nevrálgico do debate ambiental.

Mas a estatística fria esconde dramas locais. Enquanto o estado “respirou” melhor, os dados do SEEG mostram que o município de Pontes e Lacerda sufocou sob uma nuvem inédita de fumaça estatística, dobrando suas emissões de desmatamento em apenas doze meses.

A “anomalia” de Pontes e Lacerda

 

Para entender a gravidade do que aconteceu em Pontes e Lacerda, é preciso olhar para o retrovisor. Em 2021, o município vivia uma realidade oposta: o setor de uso da terra registrava um saldo negativo de emissões (-333 mil toneladas), indicando que a regeneração de florestas superava o desmate. A cidade funcionava como um “sumidouro” de carbono.

O cenário virou de cabeça para baixo em dois anos. Em 2022, as emissões do setor saltaram para 4,4 milhões de toneladas. Em 2023, dobraram novamente, atingindo 8,1 milhões. Somando-se às emissões diretas da agropecuária, a cidade ultrapassou a barreira das 10 milhões de toneladas totais, tornando-se a líder isolada do ranking estadual.

Não foi um crescimento orgânico da economia local. Foi uma explosão concentrada na conversão da terra, sugerindo uma ofensiva rápida e agressiva sobre a vegetação nativa que destoa completamente da tendência de estabilização vista em polos consolidados do agronegócio.

O “milagre” de Colniza

 

Na ponta oposta da tabela do SEEG, Colniza protagonizou o fenômeno que, sozinho, segurou os índices estaduais. Historicamente apontada como a “vilã” do desmatamento na Amazônia mato-grossense, a cidade registrou uma queda espetacular de quase 60% em suas emissões totais de um ano para o outro.

Os números são superlativos: em 2022, Colniza emitiu 23,3 milhões de toneladas de CO2e. Em 2023, esse número despencou para 9,5 milhões. A redução de 13,8 milhões de toneladas equivale a retirar de circulação, em teoria, toda a frota de veículos da cidade de São Paulo por um ano.

A queda ocorreu quase exclusivamente no setor de “Mudança de Uso da Terra”, que baixou de 21,5 milhões para 7,6 milhões de toneladas. Se Colniza tivesse mantido o ritmo de destruição do ano anterior, o estado de Mato Grosso não teria registrado queda alguma em suas emissões gerais; teria, possivelmente, ficado no zero a zero.

O rastro do gado

 

A análise detalhada da categoria “Atividade Geral” do estudo desfaz um mito comum: o de que agricultura e pecuária dividem igualmente a responsabilidade ambiental.

Em 2023, a atividade identificada como “Agricultura” (soja, milho, algodão) foi responsável por cerca de 21,7 milhões de toneladas de emissões no estado (somando manejo e uso da terra). A “Pecuária”, por sua vez, respondeu por 238,9 milhões.


Raio-X da Poluição em MT (Fonte: SEEG 2023)

  • Pecuária (Total): 238,9 milhões de tCO2e

    • Sendo desmatamento para pasto: 172,5 milhões

    • Sendo fermentação/manejo: 66,1 milhões

  • Agricultura (Total): 21,7 milhões de tCO2e

  • Transportes (Carga + Passageiros): 8,8 milhões de tCO2e


A desproporção mostra que o desafio climático de Mato Grosso é, essencialmente, um desafio de intensificação da pecuária. Enquanto a agricultura consegue expandir produção com menor abertura de novas áreas (graças à tecnologia e safrinha), a pecuária extensiva continua sendo o principal motor da supressão vegetal, seja na Amazônia ou no Cerrado.

O “arco” resiste

 

Mesmo com a queda drástica de Colniza, o mapa das emissões continua desenhando com fidelidade o chamado “Arco do Desmatamento”. Das cinco cidades que mais emitiram em 2023 — Pontes e Lacerda, Juara, Colniza, Porto Esperidião e Aripuanã —, todas têm mais de 75% de suas emissões atreladas à mudança de uso da terra.

Em Aripuanã e Porto Esperidião, esse índice supera os 80%. Isso significa que, para esses municípios, a economia de baixo carbono ainda é uma ficção distante. A riqueza gerada ali carrega um custo ambiental que, agora quantificado, expõe a urgência de políticas que vão além da fiscalização: é preciso estancar a sangria da floresta que vira pasto, ou a conta climática do estado continuará sendo paga em arrobas.

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