Estudo acadêmico* apresentado em seminário internacional revela como as ordens do “Padim” anteciparam em décadas as bases da Agroecologia moderna para a sobrevivência no Semiárido.
No imaginário popular nordestino, Padre Cícero Romão Batista é o santo milagreiro, o padrinho dos pobres e o conselheiro espiritual. Mas, sob a batina e o breviário, o patriarca de Juazeiro do Norte escondia uma mente científica pragmática. Um novo estudo, debatido no V Seminário Internacional de História e Educação, em 2025, joga luz sobre uma faceta pouco explorada do sacerdote: a de precursor da Agroecologia.
Pesquisadores analisaram os famosos conselhos do padre e cruzaram com teorias científicas modernas. A conclusão surpreende. As ordens que pareciam penitência religiosa eram, na verdade, manuais técnicos avançados de conservação do solo e convivência com a seca.
Tayronne de Almeida Rodrigues e João Leandro Neto, autores da pesquisa, mergulharam em documentos históricos e revisões bibliográficas. Eles descobriram que o “Padim” não apenas pregava a fé. Ele ensinava o sertanejo a não morrer de fome destruindo a terra que o sustentava.
O fogo e a terra ferida
Uma das práticas mais combatidas por Padre Cícero era a queimada. Tradicionalmente, o agricultor colocava fogo no mato para “limpar” o terreno rápido. O padre proibia terminantemente. A ciência hoje confirma o perigo que ele via intuitivamente.
O fogo mata os microrganismos do solo. Ele deixa a terra estéril e exposta à erosão. O estudo aponta que a insistência do sacerdote em abolir o fogo protegia a “pele” da terra.
“A proibição do uso do fogo em áreas de roçado e em terrenos de caatinga apresenta implicações diretas sobre a estabilidade ecológica dos agroecossistemas”, destacam os autores na análise.
Ao impedir a queima, Padre Cícero garantia que a matéria orgânica permanecesse no solo. Isso mantinha a umidade por mais tempo. Em uma região onde a chuva é luxo, essa técnica significava a diferença entre colher feijão ou passar fome.
A engenharia da água
A escassez hídrica molda o caráter do sertanejo. Padre Cícero sabia que rezar por chuva não bastava; era preciso segurá-la quando ela caísse. A ordem para construir cisternas no oitão de cada casa foi revolucionária.
Essa prática descentralizou o acesso à água. As famílias ganharam autonomia e deixaram de depender tanto dos coronéis ou do governo. Mas a visão dele ia além do consumo humano.
Ele orientava a construção de pequenas barreiras de pedra nos riachos. A ideia era simples e genial: frear a velocidade da água.
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Infiltração: A água parada infiltrava na terra e recarregava os lençóis freáticos.
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Sedimentação: A terra rica que a chuva lavava ficava retida nas barreiras, criando microterraços férteis.
Essas estruturas rudimentares funcionavam como um sistema de “freio” ecológico. Elas impediam que a enxurrada levasse embora a pouca riqueza mineral do solo frágil da Caatinga.
Plantar para não morrer
A visão do sacerdote sobre a vegetação nativa era de respeito absoluto. Ele não via o mato como inimigo, mas como escudo. Uma de suas ordens mais específicas tratava do plantio em áreas inclinadas, um problema crônico na região serrana.
“Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.”
Essa frase, resgatada pelos pesquisadores, descreve com precisão o que a agronomia chama hoje de conservação do solo contra a erosão laminar. Ao manter a vegetação, o agricultor protege a terra do impacto direto da chuva e do sol escaldante.
Além de proteger, era preciso repor. O padre impunha uma meta diária de reflorestamento aos seus fiéis.
“Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou de outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.”
Não era apenas plantar por plantar. Ele indicava espécies resistentes e úteis: o caju para alimento, a algaroba para forragem, o sabiá para madeira. Ele desenhava, sem saber o termo técnico, sistemas agroflorestais complexos.
Fauna e equilíbrio
A caça predatória também entrou na mira do clérigo. A ordem “não cace mais e deixe os bichos viverem” ia contra a cultura de subsistência imediata da caça, mas visava o longo prazo.
Sem os animais nativos, o equilíbrio ecológico ruía. Pássaros não espalhavam sementes. Predadores não controlavam pragas. O estudo mostra que a visão de Padre Cícero era sistêmica. Ele entendia que a roça, o mato e o bicho formavam uma teia única. Se um fio se partisse, a teia inteira caía.
Os pesquisadores concluem que esses ensinamentos formam um “repertório técnico e ético”. Eles permitiram que a agricultura familiar resistisse em uma das regiões mais hostis do Brasil. A Agroecologia, ciência que ganha força no século XXI, encontra nas palavras do velho padre do século XX seus fundamentos mais puros, testados na dureza do chão batido.
*PRECEITOS AGROECOLÓGICOS E PERMANÊNCIA NO SEMIÁRIDO: UMA
LEITURA DOS ENSINAMENTOS DE PADRE CÍCERO À LUZ DA
AGROECOLOGIA
Tayronne de Almeida Rodrigues1
João Leandro Neto2












