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ONGs, cientistas e TCU expõem falhas e contradições da COP 30 no Pará

A COP 30, que deveria marcar a consagração de Belém (PA) como capital global do clima, iniciou em novembro de 2025 sob o peso de um profundo paradoxo. O evento, que acontece nesta semana, está marcado por falhas estruturais, ausência de líderes mundiais e um abismo entre o discurso ambiental do governo brasileiro e suas ações práticas. Longe dos holofotes desejados, a cúpula enfrenta uma avalanche de denúncias que vão de “sabotagem” climática a suspeitas de corrupção, passando pela exclusão dos povos que são a chave para a proteção da floresta.

A realidade de Belém, com problemas de falta d’água em alojamentos e preços abusivos, expõe um contraste gritante. A oposição já apelidou o evento de “Flop-30”, mas as críticas vão muito além do caos logístico. Elas tocam no coração da política energética e social do país anfitrião.

 

O paradoxo do petróleo

 

A contradição mais flagrante surgiu a poucas semanas do evento. A licença concedida pelo Ibama à Petrobras para perfuração de petróleo no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, caiu como uma bomba entre ambientalistas e cientistas.

O Observatório do Clima, uma rede de 130 organizações, classificou a medida como uma “sabotagem à COP”. Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas da rede e ex-presidente do Ibama, foi taxativa: “É uma dupla sabotagem. Por um lado, o governo brasileiro atua contra a humanidade, apostando em mais aquecimento global. Por outro, atrapalha a própria COP30”.

A reação foi imediata. O Greenpeace, cujos ativistas protestaram em Belém, alertou que a abertura de novos poços contradiz os compromissos do país. “Às vésperas da COP 30, o Brasil se veste de verde no palco internacional, mas se mancha de óleo na própria casa”, afirmou Mariana Andrade, coordenadora da frente de Oceanos da organização.

Movimentos sociais, pescadores e lideranças comunitárias veem na decisão uma ameaça direta aos ecossistemas marinhos e à soberania alimentar. Organizações prometeram judicializar a licença, que segundo a advogada Daniela Jerez, do Greenpeace, possui “falhas graves de procedimento e conteúdo, violando a Constituição, tratados internacionais e a legislação ambiental”, apontando ainda que “não houve avaliação adequada dos impactos sobre os povos indígenas, nem a consulta livre, prévia e informada”.

 

A ciência já avisou

 

Os alertas não são novos. Em março deste ano, o prestigiado periódico Science publicou um editorial contundente assinado pelos cientistas Philip Fearnside (INPA) e Walter Leal Filho. Eles criticaram duramente os subsídios do Ministério da Agricultura destinados a “converter pastagens em plantações de soja” e alertaram que a estratégia brasileira de continuar buscando petróleo até alcançar o nível de países desenvolvidos é “uma receita para um desastre climático”. Para eles, “é imprescindível facilitar uma transição ágil para o fim do uso de combustíveis fósseis”.

A cientista Luciana Gatti, do Inpe, reforçou o senso de urgência em abril. Ela alertou que zerar o desmatamento em 2030 já não é suficiente. Segundo Gatti, o leste amazônico já tem mais árvores morrendo do que crescendo, com emissões subindo 122% em dois anos. “A gente tinha que estar determinando hoje um estado de emergência na Amazônia: é proibido desmatar e multa alta pra quem taca fogo de julho a outubro”, disse. Com a temperatura média no sudeste da floresta subindo 3,1°C em agosto e setembro, o diagnóstico foi sombrio: “O colapso climático já chegou e vai ser cada vez pior”.

 

As vozes excluídas

 

Enquanto o Brasil busca protagonismo internacional, os guardiões tradicionais da floresta denunciam exclusão. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) relatou ter recebido menos de dez credenciais para a “zona azul”, o espaço nobre das negociações oficiais.

“Sabemos que o espaço da zona verde vai ser liberado, mas a gente precisa que o nosso povo esteja também na zona azul, que é o espaço das negociações”, cobrou Biko Rodrigues, coordenador nacional da Conaq. “Esse número é baixíssimo, perante as demandas dos quilombolas e perante a nossa importância”.

Fontes ouvidas pela Agência Pública apontaram falhas de ministérios, incluindo o da Igualdade Racial, em garantir a participação quilombola. A exclusão gerou críticas de “racismo ambiental” e “invisibilidade climática” por parte de organizações como o Geledés. O próprio presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago, admitiu a falha em abril, na TV Cultura: “Lamento muito que tenha faltado. Temos que conversar com eles, inclusive para assegurar que a participação deles seja reconhecida como legítima”.

Ainda em 2024, na Colômbia, oito organizações indígenas, incluindo a APIB, exigiram do governo brasileiro a co-presidência da COP 30 e o fim da exploração de petróleo na Amazônia, mas não foram atendidas.

 

‘Flop-30’: caos logístico e suspeitas de corrupção

 

Paralelamente às questões políticas, a organização do evento em Belém tem sido um desastre logístico. Relatos de falta d’água em alojamentos, quedas de energia, internet instável e preços exorbitantes — como um brigadeiro a R$ 20 — dominaram as redes sociais. Parlamentares de oposição aproveitaram o caos para criticar o governo. “Enquanto vendem o discurso de sustentabilidade, a realidade em Belém é de desorganização e desperdício de dinheiro público”, declarou o senador Jorge Seif (PL-SC).

Mas os problemas podem ser mais profundos que a desorganização. Auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) identificaram “fortes indícios de superfaturamento e irregularidades graves” nos contratos para a comercialização dos espaços das Zonas Verde e Azul.

Um documento do TCU, revelado pelo site Ver-o-Fato, apontou “a gravidade das irregularidades identificadas” em um acordo de R$ 478,3 milhões firmado sem licitação entre a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e o Consórcio Pronto RG. Os auditores criticaram a falta de controle sobre os preços, que deu exclusividade total à empresa contratada.

 

O legado: especulação, remoções e ‘maquiagem verde’

 

Para os moradores de Belém, o “legado” da COP 30 já se mostra amargo. A cidade vive uma corrida imobiliária, com diárias de hospedagem chegando a R$ 20 mil. “Os proprietários calculam os preços em dólar, e os valores ficam às vezes fora da realidade”, disse o corretor Genardo de Oliveira em fevereiro. Alessandra, moradora local, teme que os aluguéis permaneçam altos, como ocorreu no Rio de Janeiro pós-Olimpíadas.

Para dar lugar às obras de infraestrutura, centenas de famílias estão sendo removidas. Rosângela da Silva, 49 anos, moradora do Guamá, é uma delas. Em troca do imóvel onde criou seus três filhos por duas décadas, recebeu R$ 41 mil. “Não teve reunião nenhuma do governo, só chegaram, nos notificaram, olharam as nossas casas e deram o preço que eles quiseram. Foi muito pouco, porque não dá para” [frase interrompida no original]. O InfoAmazônia estima que até 500 famílias tenham sido desalojadas, muitas recebendo valores insuficientes para uma nova moradia digna.

As próprias obras são questionadas. Pesquisadores como Olga Castreghini de Freitas alertam para projetos pouco sustentáveis, como novas avenidas que avançam sobre áreas verdes. “São obras viárias baseadas no ideal do rodoviarismo, incrementando aquilo que a própria COP discute como potencializar das mudanças climáticas”, criticou, mencionando também as polêmicas “eco árvores” artificiais. Para a deputada Carol De Toni (PL-SC), “A COP30… virou um palco de negociatas. Primeiro desmataram para erguer estruturas… e agora cadeiras e água a preço de luxo”.

 

Tribunal dos Povos e a ‘captura corporativa’

 

Enquanto a COP oficial enfrenta o caos, a “COP do Povo” articula um contraponto: o Tribunal dos Povos contra o Ecogenocídio, sediado no Ministério Público Federal. O evento reunirá 21 casos de expulsões, racismo ambiental e trabalho escravo, incluindo os impactos da Usina de Belo Monte.

Claudelice Santos, do Instituto Zé Cláudio e Maria, destacou a gravidade das denúncias. “Tem alguns casos que são internacionais… Um deles, inclusive, pediram pra serem retirados, porque o governo do país descobriu, foi na casa dos defensores e proibiu eles de sair do país… Ou seja, os casos realmente são absurdos”.

Críticos apontam que, enquanto os povos são barrados, as corporações tomaram conta do evento. A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) denunciou a “captura corporativa” da Agrizone, onde a Syngenta — empresa ligada ao assassinato do militante Keno, do MST, em 2015 — coordena painéis sobre restauração.

Um relatório da Changing Markets, divulgado pelo Intercept, afirma que o agro usará a COP 30 para “sabotar ações reais”. O NetLab da UFRJ também detectou um aumento do negacionismo climático e do greenwashing. “A exemplo da Petrobras, muitas empresas investem pesado para parecerem mais sustentáveis do que realmente são”, disse a coordenadora Debora Salles.

Para João Pedro Stédile, líder do MST, a COP 30 será uma “grande farsa” controlada pelo capital. “Qual é a empresa mineradora mais agressora do meio ambiente que mata pessoas no Brasil? A Vale. E a Vale será uma das protagonistas em Belém”.

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