Análise do Instituto de Defesa de Consumidores expõe a contaminação em alimentos à base de plantas e a omissão de órgãos como a Anvisa.
Um novo e contundente estudo revela uma realidade preocupante escondida nas embalagens de alimentos ultraprocessados que chegam à mesa dos brasileiros: a presença de agrotóxicos. A terceira edição da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, conduzida pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), analisou 24 produtos de grande consumo e detectou resíduos de pesticidas em metade deles. O achado acende um alerta duplo, pois além dos malefícios já conhecidos desses alimentos — ricos em açúcar, sódio e gorduras —, eles também carregam substâncias potencialmente perigosas à saúde e ao meio ambiente.
A investigação abrangeu oito categorias, incluindo macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto e itens com forte apelo infantil, como bolos prontos e bebidas lácteas. Em sete dessas categorias, ao menos um produto estava contaminado. O glifosato, classificado pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) como “provavelmente cancerígeno”, foi mais uma vez o vilão mais frequente, presente em sete das amostras.
Essa constatação reforça uma tendência observada desde a primeira edição da pesquisa , em 2021 , e coloca em xeque a segurança do que é oferecido nas prateleiras dos supermercados, principalmente para as populações mais vulneráveis, como as crianças.
‘Plant-based’: a surpresa nada saudável
Uma das novidades deste volume foi a inclusão de produtos à base de plantas, os chamados: plant-based, que muitas vezes são vendidos sob uma aura de saudabilidade e sustentabilidade. A análise, no entanto, desfaz esse mito: das seis amostras de hambúrgueres e empanados vegetais testadas, cinco continham resíduos de agrotóxicos. Marcas como Sadia e Seara, que dominam tanto o mercado de carnes quanto o de alternativas vegetais, apareceram na lista de contaminados.
Isso revela uma estratégia da indústria que, segundo o Idec, apropria-se de uma nova fatia de mercado para vender variações dos mesmos ultraprocessados de sempre, produzidos com matérias-primas oriundas de um modelo agrícola dependente de veneno. A comparação com os produtos de origem animal, analisados no volume anterior do estudo, é estarrecedora. O empanado de frango da Seara, por exemplo, tinha cinco tipos de agrotóxicos em 2022, enquanto sua versão
plant-based agora apresentou três. Ou seja, a troca não representa, necessariamente, uma escolha mais segura.
Os campeões do veneno
No ranking de contaminação, os biscoitos maisena das marcas Marilan e Triunfo dividiram o primeiro lugar, cada um com resíduos de quatro agrotóxicos diferentes, além de outras substâncias como o butóxido de piperonila, um potencializador de pesticidas. A farinha de trigo, ingrediente principal em biscoitos e macarrões instantâneos, consolida-se como uma das matérias-primas com maior prevalência de contaminação, um padrão que se repete ao longo dos três anos de pesquisa.
Outro achado alarmante veio de um produto direcionado ao público infantil. A bebida láctea sabor chocolate da marca Pirakids, que no teste de 2022 não apresentou resíduos, desta vez estava contaminada com fipronilsulfona, um derivado do fipronil. Este inseticida é notoriamente associado à morte em massa de abelhas no Brasil e já foi banido em toda a União Europeia e em diversos outros países, o que torna sua presença em um produto para crianças ainda mais grave.
Resultado detalhado por produto
A seguir, a lista completa dos 24 produtos analisados pelo Idec, com os respectivos resultados. O butóxido de piperonila, embora não seja classificado como agrotóxico, é um potencializador de seus efeitos e também foi detectado.
Categoria do Produto |
Marca |
Resultado da Análise |
| Hambúrguer à base de plantas | Sadia | 3 agrotóxicos (pirimifós-metílico, glufosinato, glifosato e metabólito AMPA) |
| Seara | Não apresentou resíduos | |
| Fazenda do Futuro | 1 agrotóxico (o-fenilfenol) | |
| Empanado à base de plantas | Sadia | 2 agrotóxicos (pirimifós-metílico, glufosinato) e butóxido de piperonila |
| Seara | 3 agrotóxicos (deltametrina, pirimifós-metílico, glufosinato) e butóxido de piperonila | |
| Fazenda do Futuro | 1 agrotóxico (glifosato) | |
| Macarrão instantâneo | Nissin | 3 agrotóxicos (glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila |
| Adria | Não apresentou resíduos | |
| Renata | 3 agrotóxicos (glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila | |
| Biscoito maisena | Vitarella | Não apresentou resíduos |
| Marilan | 4 agrotóxicos (cialotrina-lambda, glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila | |
| Triunfo | 4 agrotóxicos (bifentrina, glufosinato, pirimifós-metílico, glifosato e metabólito AMPA) e butóxido de piperonila | |
| Presunto cozido | Sadia | 1 agrotóxico (glifosato e metabólito AMPA) |
| Seara | Não apresentou resíduos | |
| Aurora | Não apresentou resíduos | |
| Bolo pronto sabor chocolate | Panco | 1 agrotóxico (glifosato) |
| Ana Maria | 3 agrotóxicos (cipermetrina, clorpirifos, malationa) e butóxido de piperonila | |
| Seven Boys | Não apresentou resíduos | |
| Petit suisse sabor morango | Nestlé | Não apresentou resíduos |
| Danone | Não apresentou resíduos | |
| Batavo | Não apresentou resíduos | |
| Bebida láctea sabor chocolate | Toddy | Não apresentou resíduos |
| Nescau | Não apresentou resíduos | |
| Pirakids | 1 agrotóxico (fipronilsulfona) |
Para entender melhor:
- Ultraprocessados: São formulações industriais feitas com muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, gorduras e aditivos alimentares. Visam criar produtos prontos para aquecer ou consumir, como refrigerantes, guloseimas e sorvetes.
- “Plant-based”: significa, em tradução direta, “à base de plantas”. O termo se refere a um padrão alimentar ou a produtos que são feitos majoritariamente ou totalmente com ingredientes de origem vegetal.
- Glifosato: É o agrotóxico mais vendido no mundo. A Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) o considera “provavelmente carcinogênico”.
- Fipronil: É um inseticida usado em lavouras e para combater parasitas em animais. Seu uso indiscriminado mata polinizadores, como as abelhas, que são fundamentais para a agricultura.
- Anvisa: A Agência Nacional de Vigilância Sanitária é o órgão do governo brasileiro responsável por regular e fiscalizar produtos que envolvem risco à saúde pública, incluindo alimentos e o controle de agrotóxicos.
Anvisa: o silêncio que ensurdece
O problema central, aponta o Idec, é a omissão do poder público. Desde 2021 o instituto notifica a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os resultados, mas a resposta tem sido a inércia. Não existe, até hoje, um regulamento com limites máximos de resíduos de agrotóxicos específicos para alimentos ultraprocessados no Brasil.
O programa de monitoramento da Anvisa, o PARA, analisa apenas alimentos de origem vegetal
in natura. A agência chegou a afirmar em ofício que os limites para a matéria-prima (como o trigo) deveriam valer para o produto final (como o biscoito). O Idec, no entanto, argumenta que essa lógica é falha, pois o processamento industrial pode concentrar resíduos e a falta de rastreabilidade impede saber a origem exata da contaminação.
A troca de responsabilidades entre a Anvisa e o Ministério da Agricultura (MAPA) sobre quem deve fiscalizar produtos de origem animal processados agrava o cenário. Enquanto as agências debatem competências, o consumidor permanece desprotegido, sem saber se as quantidades de veneno em seu prato são seguras.
A demanda do Idec é clara: a Anvisa precisa, com urgência, incluir os ultraprocessados em seu programa de monitoramento, estabelecer limites seguros, avaliar o efeito da combinação de múltiplos agrotóxicos e aditivos, e adotar uma postura protetiva, especialmente para as crianças. Afinal, como o próprio estudo questiona, de que adianta o Brasil ter um dos melhores guias alimentares do mundo se, na prática, as políticas públicas caminham na direção oposta, permitindo que o veneno continue chegando ao nosso pacote de comida?













