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Nem os ‘saudáveis’ escapam: Idec encontra agrotóxicos em 12 dos 24 produtos analisados, inclusive infantis. Veja a lista completa.

Novo estudo do Idec detecta agrotóxicos em 50% dos alimentos ultraprocessados testados, incluindo produtos infantis e plant-based. Glifosato foi o mais encontrado. Análise aponta falha na fiscalização da Anvisa.
Estudo do Idec revela que metade dos ultraprocessados analisados, incluindo opções infantis e plant-based, contém resíduos de agrotóxicos.

Análise do Instituto de Defesa de Consumidores expõe a contaminação em alimentos à base de plantas e a omissão de órgãos como a Anvisa.

Um novo e contundente estudo revela uma realidade preocupante escondida nas embalagens de alimentos ultraprocessados que chegam à mesa dos brasileiros: a presença de agrotóxicos. A terceira edição da pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote”, conduzida pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), analisou 24 produtos de grande consumo e detectou resíduos de pesticidas em metade deles. O achado acende um alerta duplo, pois além dos malefícios já conhecidos desses alimentos — ricos em açúcar, sódio e gorduras —, eles também carregam substâncias potencialmente perigosas à saúde e ao meio ambiente.

A investigação abrangeu oito categorias, incluindo macarrão instantâneo, biscoito maisena, presunto e itens com forte apelo infantil, como bolos prontos e bebidas lácteas. Em sete dessas categorias, ao menos um produto estava contaminado. O glifosato, classificado pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) como “provavelmente cancerígeno”, foi mais uma vez o vilão mais frequente, presente em sete das amostras.

Essa constatação reforça uma tendência observada desde a primeira edição da pesquisa , em 2021 , e coloca em xeque a segurança do que é oferecido nas prateleiras dos supermercados, principalmente para as populações mais vulneráveis, como as crianças.

 

‘Plant-based’: a surpresa nada saudável

 

Uma das novidades deste volume foi a inclusão de produtos à base de plantas, os chamados: plant-based, que muitas vezes são vendidos sob uma aura de saudabilidade e sustentabilidade. A análise, no entanto, desfaz esse mito: das seis amostras de hambúrgueres e empanados vegetais testadas, cinco continham resíduos de agrotóxicos. Marcas como Sadia e Seara, que dominam tanto o mercado de carnes quanto o de alternativas vegetais, apareceram na lista de contaminados.

Isso revela uma estratégia da indústria que, segundo o Idec, apropria-se de uma nova fatia de mercado para vender variações dos mesmos ultraprocessados de sempre, produzidos com matérias-primas oriundas de um modelo agrícola dependente de veneno. A comparação com os produtos de origem animal, analisados no volume anterior do estudo, é estarrecedora. O empanado de frango da Seara, por exemplo, tinha cinco tipos de agrotóxicos em 2022, enquanto sua versão

plant-based agora apresentou três. Ou seja, a troca não representa, necessariamente, uma escolha mais segura.

 

Os campeões do veneno

 

No ranking de contaminação, os biscoitos maisena das marcas Marilan e Triunfo dividiram o primeiro lugar, cada um com resíduos de quatro agrotóxicos diferentes, além de outras substâncias como o butóxido de piperonila, um potencializador de pesticidas. A farinha de trigo, ingrediente principal em biscoitos e macarrões instantâneos, consolida-se como uma das matérias-primas com maior prevalência de contaminação, um padrão que se repete ao longo dos três anos de pesquisa.

Outro achado alarmante veio de um produto direcionado ao público infantil. A bebida láctea sabor chocolate da marca Pirakids, que no teste de 2022 não apresentou resíduos, desta vez estava contaminada com fipronilsulfona, um derivado do fipronil. Este inseticida é notoriamente associado à morte em massa de abelhas no Brasil e já foi banido em toda a União Europeia e em diversos outros países, o que torna sua presença em um produto para crianças ainda mais grave.

Resultado detalhado por produto

 

A seguir, a lista completa dos 24 produtos analisados pelo Idec, com os respectivos resultados. O butóxido de piperonila, embora não seja classificado como agrotóxico, é um potencializador de seus efeitos e também foi detectado.

Categoria do Produto

Marca

Resultado da Análise

Hambúrguer à base de plantas Sadia 3 agrotóxicos (pirimifós-metílico, glufosinato, glifosato e metabólito AMPA)

Seara Não apresentou resíduos

Fazenda do Futuro 1 agrotóxico (o-fenilfenol)

Empanado à base de plantas Sadia 2 agrotóxicos (pirimifós-metílico, glufosinato) e butóxido de piperonila

Seara 3 agrotóxicos (deltametrina, pirimifós-metílico, glufosinato) e butóxido de piperonila

Fazenda do Futuro 1 agrotóxico (glifosato)

Macarrão instantâneo Nissin 3 agrotóxicos (glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila

Adria Não apresentou resíduos

Renata 3 agrotóxicos (glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila

Biscoito maisena Vitarella Não apresentou resíduos

Marilan 4 agrotóxicos (cialotrina-lambda, glifosato, glufosinato, pirimifós-metílico) e butóxido de piperonila

Triunfo 4 agrotóxicos (bifentrina, glufosinato, pirimifós-metílico, glifosato e metabólito AMPA) e butóxido de piperonila

Presunto cozido Sadia 1 agrotóxico (glifosato e metabólito AMPA)

Seara Não apresentou resíduos

Aurora Não apresentou resíduos

Bolo pronto sabor chocolate Panco 1 agrotóxico (glifosato)

Ana Maria 3 agrotóxicos (cipermetrina, clorpirifos, malationa) e butóxido de piperonila

Seven Boys Não apresentou resíduos

Petit suisse sabor morango Nestlé Não apresentou resíduos

Danone Não apresentou resíduos

Batavo Não apresentou resíduos

Bebida láctea sabor chocolate Toddy Não apresentou resíduos

Nescau Não apresentou resíduos

Pirakids 1 agrotóxico (fipronilsulfona)

Para entender melhor:

  • Ultraprocessados: São formulações industriais feitas com muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, gorduras e aditivos alimentares. Visam criar produtos prontos para aquecer ou consumir, como refrigerantes, guloseimas e sorvetes.
  • “Plant-based”: significa, em tradução direta, “à base de plantas”. O termo se refere a um padrão alimentar ou a produtos que são feitos majoritariamente ou totalmente com ingredientes de origem vegetal.
  • Glifosato: É o agrotóxico mais vendido no mundo. A Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) o considera “provavelmente carcinogênico”.
  • Fipronil: É um inseticida usado em lavouras e para combater parasitas em animais. Seu uso indiscriminado mata polinizadores, como as abelhas, que são fundamentais para a agricultura.
  • Anvisa: A Agência Nacional de Vigilância Sanitária é o órgão do governo brasileiro responsável por regular e fiscalizar produtos que envolvem risco à saúde pública, incluindo alimentos e o controle de agrotóxicos.

Anvisa: o silêncio que ensurdece

 

O problema central, aponta o Idec, é a omissão do poder público. Desde 2021 o instituto notifica a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os resultados, mas a resposta tem sido a inércia. Não existe, até hoje, um regulamento com limites máximos de resíduos de agrotóxicos específicos para alimentos ultraprocessados no Brasil.

O programa de monitoramento da Anvisa, o PARA, analisa apenas alimentos de origem vegetal

in natura. A agência chegou a afirmar em ofício que os limites para a matéria-prima (como o trigo) deveriam valer para o produto final (como o biscoito). O Idec, no entanto, argumenta que essa lógica é falha, pois o processamento industrial pode concentrar resíduos e a falta de rastreabilidade impede saber a origem exata da contaminação.

A troca de responsabilidades entre a Anvisa e o Ministério da Agricultura (MAPA) sobre quem deve fiscalizar produtos de origem animal processados agrava o cenário. Enquanto as agências debatem competências, o consumidor permanece desprotegido, sem saber se as quantidades de veneno em seu prato são seguras.

A demanda do Idec é clara: a Anvisa precisa, com urgência, incluir os ultraprocessados em seu programa de monitoramento, estabelecer limites seguros, avaliar o efeito da combinação de múltiplos agrotóxicos e aditivos, e adotar uma postura protetiva, especialmente para as crianças. Afinal, como o próprio estudo questiona, de que adianta o Brasil ter um dos melhores guias alimentares do mundo se, na prática, as políticas públicas caminham na direção oposta, permitindo que o veneno continue chegando ao nosso pacote de comida?

 

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