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“Não nos calaremos”: como mulheres negras evangélicas criaram um novo ativismo no Brasil

Nascida da inquietação e da busca por acolhimento, a Rede de Mulheres Negras Evangélicas (RMNE) usa a fé como ferramenta para denunciar o racismo e o machismo dentro e fora das igrejas, construindo uma teologia própria que desafia o conservadorismo.

Uma cena que se repete, mas nem sempre é notada. Dentro de muitas igrejas evangélicas no Brasil, mulheres negras sustentam a comunidade. Elas ensinam, cantam, organizam, cuidam. No entanto, quando as decisões são tomadas, suas vozes raramente ecoam nos espaços de poder. Essa contradição, sentida na pele e no espírito, foi o estopim para a criação de um dos mais articulados movimentos do cristianismo progressista recente: a Rede de Mulheres Negras Evangélicas (RMNE). Fundada em 2018, em Recife (PE), a organização surgiu para ser um espaço de acolhimento e luta, redefinindo o que significa ser mulher, negra e evangélica no país.

A pesquisa de mestrado de Cássia Medeiros Furtado, defendida na Unicamp, mergulha na trajetória dessas ativistas para entender como elas constroem sua identidade política a partir de suas próprias produções intelectuais. O estudo revela um movimento que, sem negar a fé, a utiliza como catalisador para denunciar as violências do racismo e do patriarcado, tanto nas instituições religiosas quanto na sociedade.

A semente em Brasília

 

Tudo começou a tomar forma em um evento que pretendia “reimaginar” o protestantismo brasileiro. O Festival Reimaginar, realizado em setembro de 2016 nos arredores de Brasília, reuniu cerca de 150 clérigos, ativistas e intelectuais do campo evangélico progressista. O encontro, que debatia desde direitos humanos até ecologia, foi um catalisador de ideias, mas também um espelho das lacunas existentes.

Foi em um grupo de trabalho sobre “Gênero e Raça” que a invisibilidade das pautas específicas das mulheres negras evangélicas se tornou gritante. As violações de direitos que sofriam eram frequentemente “espiritualizadas”, tratadas como provações da fé, ignorando as raízes históricas e sociais das desigualdades. Daquela inquietação, surgiu a necessidade de uma frente de mobilização própria.

Três mulheres, Elizabeth Guimarães (RJ), Vanessa Barboza (PE) e Nívia Dias (BA), decidiram, então, planejar um encontro que reunisse as principais lideranças femininas negras evangélicas do Brasil. O objetivo era criar um espaço de articulação que elas não encontravam em outros coletivos.

O grito do Recife

 

Após meses de articulação, o “1º Encontro de Mulheres Negras Cristãs” aconteceu em agosto de 2018, em Recife, com o tema “Resistência, Espiritualidade e Incidência Pública”. O evento, organizado pelo Comitê de Gênero do Movimento Negro Evangélico (MNE) de Pernambuco, foi o berço da RMNE.

A programação foi desenhada para construir, progressivamente, um novo espaço. Começou com “Partilhas Negras”, um momento de acolhimento, e avançou para debates sobre a Teologia Feminista Negra, práticas antirracistas e estratégias de mobilização política no contexto cristão. A escolha inicial do termo “cristãs” em vez de “evangélicas” visava um diálogo mais amplo, mas a decisão coletiva de nomear a organização como Rede de Mulheres Negras Evangélicas teve um forte caráter político: era uma forma de reivindicar e ressignificar o termo, mostrando a pluralidade de um grupo frequentemente associado apenas ao conservadorismo.

Daquele encontro, saiu um manifesto direcionado às igrejas brasileiras. O documento denunciava a invisibilidade, a violência simbólica e as omissões do Estado e das instituições religiosas, reivindicando desde o uso de linguagem inclusiva até a adoção de uma leitura afrocentrada da Bíblia nos materiais didáticos.

Vozes que não se calam

 

Um dos frutos mais potentes dessa articulação é o livro “Vozes que não se calam: cartas de um evangelho brasileiro, feminino e negro”, publicado em 2020. A obra, uma coletânea de 15 cartas escritas por mulheres de diferentes idades, formações e regiões do país, serviu como base para a análise de Furtado.

As cartas revelam experiências que atravessam a infância, a solidão, a violência e o silenciamento dentro das igrejas. Uma das autoras relata como, ainda criança, aprendeu na comunidade de fé que “não era tão boa quanto outras crianças brancas” e que seus questionamentos eram vistos como rebeldia. Outra narra a dor de ser preterida para cargos de liderança, mesmo qualificada, vendo uma mulher loira ser escolhida em seu lugar sem explicações.

Essas vivências materializam o conceito de “outsider-within” (forasteiras de dentro), da socióloga Patricia Hill Collins. Embora inseridas nas comunidades, essas mulheres são tratadas como se não pertencessem plenamente, uma marginalidade que lhes proporciona um ângulo de visão único e crítico sobre as estruturas de poder.

Para entender melhor: a Teologia Feminista Negra

Diferente da Teologia Negra, que, embora libertadora, muitas vezes se centrou na experiência masculina, e da Teologia Feminista, que por vezes ignorou as questões de raça e classe, a Teologia Feminista Negra (TFN) surge da vivência interseccional das mulheres negras. Ela parte de suas experiências concretas de opressão para reinterpretar os textos sagrados e a própria imagem de Deus, que passa a ser compreendido também como feminino e negro. Figuras bíblicas como Agar, a escrava egípcia de Sara, são ressignificadas, tornando-se símbolos de resistência e da atenção divina às marginalizadas.

Uma fé que liberta

 

Apesar das feridas abertas pelo racismo e pelo machismo no ambiente religioso, é na própria fé que essas mulheres encontram a força para a luta. O sagrado, para elas, não é o mesmo da teologia hegemônica, branca e patriarcal. É uma divindade negra e feminina, chamada por algumas de Ruah (sopro, em hebraico), que inspira a denúncia e o acolhimento.

“Compreendi que Deus não estava restrito ao templo onde eu fui ferida e que Ele era cheio de amor e justiça”, escreve uma das autoras. Essa nova compreensão transforma o corpo negro, antes alvo de ódio, em “belo, forte, político, cheio de resistência e de alegria”.
A produção intelectual da RMNE, portanto, vai além da denúncia. Ela constrói uma nova hermenêutica, uma nova forma de ler o mundo e a fé. Ao fazer isso, não apenas fortalece a identidade de suas integrantes, mas também disputa a narrativa sobre o que é ser evangélico no Brasil, abrindo caminho para uma igreja e uma sociedade mais justas e inclusivas.
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