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Corpos-territórios: a luta invisível das mulheres pescadoras contra o racismo ambiental no Brasil

Estudo de Evilhis do Nascimento Silva revela como o racismo ambiental e a violência de gênero impactam mulheres pescadoras no Brasil, ameaçadas por grandes projetos. A pesquisa destaca a conexão corpo-território e as estratégias de resistência dessas comunidades.
Mulheres pescadoras de comunidades tradicionais lideram a resistência em defesa de seus territórios e modos de vida ameaçados por grandes projetos de desenvolvimento no Brasil.

Um novo estudo acadêmico revela como a violência de gênero e a exclusão racial se aprofundam com o avanço de grandes projetos de desenvolvimento, que ameaçam os modos de vida e a própria existência dessas comunidades.

Em um cenário onde o discurso do progresso muitas vezes abafa as vozes das minorias, a vida das mulheres pescadoras no Brasil se desdobra como um ato de resistência diária. Elas, que tiram do mar e dos rios o sustento e a identidade, enfrentam uma batalha dupla e silenciosa, uma guerra travada não apenas nas águas, mas em seus próprios corpos. Uma recente pesquisa acadêmica, o trabalho

“Racismo Ambiental e Violência de Gênero nas Comunidades Pesqueiras: Uma Revisão Sistemática sobre a Realidade de Mulheres Pescadoras no Brasil”, de autoria de Evilhis do Nascimento Silva, joga luz sobre essa realidade. A pesquisa, concluída em 2025 pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte , disseca como a violência de gênero e o racismo ambiental se entrelaçam para ameaçar comunidades inteiras, especialmente diante da expansão de projetos como parques eólicos e complexos portuários.

O trabalho, uma revisão sistemática de estudos publicados entre 2013 e 2024 , mostra que as adversidades enfrentadas por essas mulheres não podem ser compreendidas apenas pela lente do machismo. Elas são o resultado de uma sobreposição de opressões que envolvem raça, classe e, fundamentalmente, o território. São mulheres negras, indígenas, ribeirinhas, cujas existências estão profundamente conectadas aos espaços que habitam , uma ligação que transcende o material e se torna parte de quem são.

A dupla sentença da exclusão

A violência de gênero em contextos rurais e pesqueiros assume contornos particulares, muitas vezes agravados pelo isolamento geográfico e pela ausência de políticas públicas eficazes. Conforme aponta a análise dos estudos, essa violência é frequentemente naturalizada, tanto no ambiente doméstico quanto no comunitário, criando um ciclo de silenciamento. Contudo, a agressão não para por aí. Ela ganha uma nova dimensão quando o próprio ambiente que sustenta essas vidas é atacado.

É nesse ponto que o conceito de racismo ambiental se torna crucial. A pesquisa demonstra que os danos ecológicos não são distribuídos de forma igualitária. Sistematicamente, os impactos negativos de grandes empreendimentos — como a contaminação de recursos naturais por atividades industriais no Norte Fluminense ou a desestruturação social causada por parques eólicos no Rio Grande do Norte — recaem sobre populações historicamente marginalizadas. Trata-se de uma lógica perversa, onde o suposto desenvolvimento de alguns se assenta no sacrifício ambiental e humano de outros, um sacrifício aceito coletivamente porque atinge grupos considerados de menor valor social.

Para entender melhor:

  • Racismo Ambiental: Não se trata de um ato individual de preconceito, mas de um sistema. Ele se manifesta em políticas, práticas e decisões (ou na falta delas) que distribuem de forma desigual os prejuízos ambientais , sobrecarregando comunidades de baixa renda, negras, indígenas e tradicionais com poluição, lixões e projetos industriais perigosos, enquanto outros desfrutam de um ambiente mais limpo.
  • Corpo-Território: É um conceito desenvolvido por movimentos de mulheres latino-americanas. Ele expressa a ideia de que o corpo de uma mulher e seu território (a terra, a floresta, o rio) estão inseparavelmente ligados. Assim, uma agressão ao meio ambiente, como o desmatamento ou a contaminação de um rio, é sentida como uma violação do próprio corpo, afetando sua saúde, identidade, cultura e espiritualidade.
  • Justiça Ambiental: É a luta pelo direito a um meio ambiente seguro e saudável para todos, independentemente de raça, cor, origem ou renda. Ela busca garantir que todos os grupos sociais tenham participação justa nas decisões sobre políticas ambientais e que ninguém seja forçado a arcar com uma parcela desproporcional dos custos e impactos negativos do desenvolvimento, uma pauta impulsionada nos EUA por comunidades negras que denunciavam a instalação de indústrias poluentes em seus bairros.

O progresso que apaga existências

A chegada de grandes projetos, mesmo aqueles com um verniz de sustentabilidade como a energia eólica, frequentemente segue um roteiro de exclusão. A pesquisa destaca casos na Amazônia paraense e no litoral potiguar onde complexos portuários e eólicos avançam sem diálogo ou consentimento das comunidades locais, ameaçando a segurança alimentar e a identidade cultural. O que acontece, na prática, é um processo de “apagamento institucional”.

Esse apagamento é sutil e violento. Ele ocorre quando os saberes ancestrais das pescadoras são desconsiderados, quando suas formas de organização não são reconhecidas e quando suas próprias existências são ignoradas em registros legais e decisões administrativas. Ao serem apagadas dos mapas e dos documentos oficiais, essas mulheres e suas comunidades perdem não apenas seus direitos, mas também os laços que mantêm vivas suas identidades coletivas. A violação do território físico se torna, portanto, uma agressão à memória, à subjetividade e à história.

Resistir para re-existir

Apesar do cenário adverso, as mulheres pescadoras não são vítimas passivas. Pelo contrário, elas estão na linha de frente da resistência. A pesquisa documenta diversas estratégias coletivas de “re-existência”, um termo que une a resistência à reinvenção de modos de vida. Em Maxaranguape (RN), por exemplo, a cartografia social participativa surge como uma poderosa ferramenta. Ao mapearem coletivamente seus próprios territórios, pescadoras e pescadores reafirmam seus vínculos com a terra e o mar, construindo narrativas que se contrapõem aos interesses externos.

Essas mulheres assumem múltiplos papéis: são guardiãs dos saberes ancestrais, articuladoras políticas e cuidadoras do ambiente. Suas práticas diárias de cuidado e solidariedade mostram que a verdadeira sustentabilidade está diretamente ligada ao protagonismo feminino e ao reconhecimento de suas contribuições. A luta por justiça ambiental, como os estudos deixam claro, só será completa quando for ancorada na valorização e na escuta atenta dessas vozes que, historicamente, têm sustentado a vida em meio a tanta adversidade.

 

Quer se informar sobre meio ambiente em MT? Ouça o Pod Lupa na mata:

 

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