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Jardins de cimento e a luta por hortas escolares: os desafios sistêmicos na América Latina

desafios das hortas escolares

Análise detalhada de oficina realizada no Paraguai revela que o fracasso de projetos verdes nas escolas vai muito além da falta de água ou sementes; falta apoio estrutural e pedagógico.

Plantar uma horta na escola parece, à primeira vista, uma atividade lúdica e simples. A imagem de crianças com as mãos na terra, colhendo alimentos saudáveis, povoa o imaginário pedagógico. No entanto, a realidade enfrentada por educadores e ativistas latino-americanos é bem mais árdua. Pátios concretados, solos pobres, falta de verbas e o abandono das plantas nas férias escolares transformam o sonho verde em um desafio logístico complexo.

Essa é a conclusão central de um relato de experiência publicado recentemente, que detalha os resultados de uma oficina colaborativa ocorrida durante o X Congresso Latinoamericano de Agroecologia. O evento, sediado na Universidade Nacional de Assunção (UNA), no Paraguai, reuniu cerca de 40 participantes de diversos países, incluindo Brasil, México e Colômbia.

O estudo, assinado pelas pesquisadoras Tânia Cristina da Silva, Edonilce da Rocha Barros e Alexandre Boleira Lopo, expõe as fragilidades dessas iniciativas. O texto, veiculado nos Cadernos da Fucamp (v. 48), joga luz sobre a necessidade urgente de encarar as hortas não apenas como canteiros isolados, mas como sistemas socioecológicos que exigem estratégia.

O abismo entre a teoria e a prática

A oficina, intitulada “Estrategia de puntos de apalancamiento para el fortalecimiento sistémico de huertos educativos”, foi facilitada por especialistas da Universidade Nacional Autônoma do México e do El Colegio de la Frontera Sur. Durante duas horas, o grupo mergulhou nos problemas reais que impedem essas hortas de prosperarem.

A dinâmica revelou um cenário preocupante. Ao invés de apenas trocarem dicas de cultivo, os participantes expuseram barreiras estruturais.

Muitos relatos apontaram para a “carência de espaços adequados para o cultivo”. Em diversas instituições, o cimento impera. As escolas, segundo os relatos, muitas vezes possuem “espaços concretados ou com solo empobrecido”. Sem terra fértil, a boa vontade pedagógica esbarra na infraestrutura hostil.

Além do chão duro, falta o básico. A lista de problemas levantados incluiu a “falta de insumos e ferramentas para o cultivo da terra” e a ausência crônica de financiamento.

Um laboratório vivo abandonado nas férias

Outro ponto crítico identificado na análise é a descontinuidade. Uma horta é um organismo vivo que não respeita o calendário letivo. O estudo destaca a “dificuldade de manutenção no período de férias ou recesso escolar”. Sem alunos e professores, as plantas morrem. O projeto, muitas vezes, morre junto.

A questão pedagógica também pesa. Embora a horta deva ser um “laboratório vivo para o desenvolvimento de diferentes atividades pedagógicas”, como citam os autores, isso raramente acontece de forma plena.

Existe uma clara “carência de conhecimentos dos/das profissionais da educação e dos/das estudantes sobre práticas agrícolas ou uso pedagógico da horta”. Ou seja, mesmo quando há espaço, falta saber o que fazer com ele. A “não inclusão da prática no currículo escolar e ou projeto pedagógico da escola” torna a atividade algo “extra”, dispensável e dependente apenas do esforço individual de algum professor entusiasta.

Metodologia participativa e pontos de alavancagem

Para tentar resolver esse emaranhado de problemas, a oficina apostou em metodologias participativas. O objetivo central foi “compreender a complexidade dos problemas comuns nas hortas educativas através de processos participativos para construir coletivamente uma estratégia de fortalecimento sistêmico”.

Os facilitadores introduziram o conceito de “pontos de alavancagem”. Trata-se de uma abordagem teórica que busca identificar onde, em um sistema complexo, uma pequena mudança pode gerar grandes resultados.

A atividade foi dividida em três etapas:

  1. Diagnóstico dos problemas.

  2. Momento “Teoria”, com a explicação sobre as alavancas sistêmicas.

  3. Momento “Soluções”, focado em estratégias práticas.

Os participantes usaram papéis adesivos para categorizar os desafios em “materiais”, “práticas”, “processos”, “desenho” e “intenções”. Essa organização visual permitiu enxergar que a falta de uma enxada, por exemplo, pode estar ligada a um problema maior de intenção pedagógica ou desenho institucional.

Para entender melhor: O que é Enfoque Sistêmico?

O enfoque sistêmico, mencionado no estudo, propõe olhar para a horta escolar não como um objeto isolado, mas como parte de uma teia. Ela está conectada à direção da escola, ao currículo, à comunidade do bairro, ao clima local e às políticas públicas. Se uma dessas partes falha (como a falta de verba do governo), todo o sistema sofre. Resolver o problema exige atuar nas conexões, não apenas no sintoma.

A força da troca latino-americana

A interação entre brasileiros, paraguaios, chilenos e outros vizinhos foi fundamental. O estudo relata que a troca de experiências promoveu “um ambiente de diálogo, troca de experiências e reflexão conjunta”.

Ao perceberem que os problemas do Brasil se repetem no Equador ou no Peru, os educadores puderam pensar em soluções contextualizadas. Para cada desafio, o grupo buscou uma saída.

A conclusão do artigo é clara: não existem soluções mágicas. Os desafios são “multifatoriais”. O sucesso de uma horta educativa depende de “estratégias com enfoque sistêmico”.

É preciso engajar a comunidade para criar pertencimento. É necessário apoio governamental. Acima de tudo, é preciso que a horta deixe de ser um adorno no pátio e se torne parte essencial do projeto de educação, capaz de promover a segurança alimentar e a conexão com a natureza desde a infância.

 

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