Estudo da Revista PPC revela que apenas três de nove grandes cidades brasileiras possuem metas específicas para proteger PCDs em desastres
Imagine um alerta de evacuação emitido apenas por sirenes sonoras em um bairro com moradores surdos. Ou um mapa de rota de fuga impresso para quem não enxerga. Esse descompasso entre o planejamento urbano e a realidade humana não é um erro hipotético; é o padrão na maioria das metrópoles do país.
Um levantamento inédito publicado em janeiro de 2026 expõe uma falha crítica na gestão pública: a exclusão sistemática de pessoas com deficiência (PCDs) das estratégias de sobrevivência a eventos extremos. A pesquisa, assinada por Thaís Puga Isquierdo e Gabriela Farias Asmus no artigo “A (In)visibilidade das Pessoas com Deficiência nas Políticas Municipais de Adaptação Climática”, da Revista Políticas Públicas & Cidades, analisou os documentos oficiais de nove capitais brasileiras.
O diagnóstico é alarmante. Embora a legislação reconheça a vulnerabilidade desse grupo, o papel aceita tudo, mas a prática ignora quase tudo. Segundo o estudo, “apenas 55,5% dos planos examinados citavam PCD dentre os grupos vulneráveis”.
O risco calculado do esquecimento
A exclusão deliberada ou acidental nos planejamentos cobra um preço alto em vidas humanas. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), compilados pelas autoras, indicam que “pessoas com deficiência têm de 2 a 4 vezes mais chances de morrer em desastres e emergências que pessoas sem deficiência”.
Essa disparidade letal ocorre porque as necessidades específicas — desde a mobilidade reduzida até a compreensão de riscos cognitivos — não entram na equação dos gestores. O estudo aponta que, das nove capitais analisadas (Belém, Rio Branco, Fortaleza, Salvador, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre), somente 33,3% estabeleceram metas concretas para este público.
A maioria dessas metas, quando existem, cai na vala comum da mobilidade urbana. Trocar a frota de ônibus por veículos acessíveis é importante, mas não salva ninguém de uma enchente súbita se não houver um plano de resgate inclusivo.
Capacitismo ambiental: a discriminação oculta
As autoras introduzem um conceito duro para definir essa negligência: o capacitismo ambiental. O termo descreve a “discriminação contra as pessoas com deficiência que acontece dentro do ativismo ambiental”, onde soluções desenhadas por pessoas sem deficiência criam barreiras intransponíveis para quem tem.
O estudo detalha como essa visão limitada contamina os documentos oficiais. O plano de Fortaleza, por exemplo, replica uma meta genérica de desenvolvimento sustentável. Já Brasília cita pessoas com mobilidade reduzida, mas “não possui metas específicas, apenas diretrizes preliminares”.
Salvador na contramão (e o exemplo positivo)
Nem tudo é terra arrasada. A análise destaca o plano de Salvador como um ponto fora da curva. A capital baiana foi uma das poucas a cruzar dados de risco climático com tipos específicos de deficiência.
O documento soteropolitano reconhece que PCDs são especialmente vulneráveis a tempestades severas e inundações. Ao fazer isso, a cidade assume o compromisso de que “todas as metas e ações voltadas a apoiar o enfrentamento destes eventos climáticos levarão em consideração a população PCD”.
Em contrapartida, Porto Alegre apresentou um cenário contraditório. O plano da capital gaúcha sequer lista expressamente as pessoas com deficiência entre os grupos vulneráveis na sua meta de redução de risco, embora proponha a renovação da frota de ônibus com acessibilidade.
Nada sobre nós sem nós
A conclusão de Isquierdo e Asmus é direta: planos feitos em gabinetes fechados, sem a presença de quem vive a deficiência, nascem falhos. A invisibilidade política se traduz em insegurança física.
Para corrigir a rota, as autoras defendem que os municípios não apenas citem a vulnerabilidade no papel, mas desenhem estratégias de comunicação de risco e abrigos emergenciais que funcionem para todos.
Como sentencia o artigo, a falha atual “evidencia a invisibilidade das PCDs nas políticas públicas”. Sem a inclusão ativa desse grupo nos processos decisórios — respeitando a máxima “nada sobre nós sem nós” — a justiça climática continuará sendo um conceito abstrato, acessível apenas a quem consegue correr, ver e ouvir os alertas de perigo.
A imagem que ilustra essa matéria foi feita utilizando IA.
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