Pesquisa da Universidade de Cuiabá rastreia mudanças no perfil de defensivos agrícolas entre 2022 e 2024, incluindo banimento do carbendazim e queda expressiva do glifosato
O perfil dos agrotóxicos usados no cultivo de feijão em Mato Grosso mudou de forma consistente nos últimos três anos. Em 2022, fungicidas dominavam o campo. Em 2024, os inseticidas assumiram a liderança, respondendo por 37% do volume total de defensivos declarados ao sistema estadual de controle — resultado compatível com maior pressão de pragas, mas também com o vácuo deixado pelo banimento do carbendazim, fungicida proibido pela Anvisa em agosto de 2022. Os dados são de pesquisa desenvolvida por Léo Adriano Chig, Cristiane Ramos Vieira e Pablo Junior Hudziak Ezequiel, da Universidade de Cuiabá, publicada em 2026 na revista Peer Review.
De quase 108 mil kg a zero
O número que melhor resume a transição é o do carbendazim: 107.063 kg aplicados em 2022; 7.825 kg em 2023; zero em 2024. O fungicida foi formalmente banido pela Resolução da Diretoria Colegiada nº 739, de 9 de agosto de 2022, da Anvisa, com prazo de descontinuação que se encerrou no ciclo seguinte.
O lugar do carbendazim não ficou vago por muito tempo. O clorotalonil — outro fungicida, mas de classe química distinta — passou de 17.930 kg em 2023 para 64.867 kg em 2024, tornando-se o princípio ativo mais aplicado no feijão mato-grossense naquele ano, à frente de inseticidas e herbicidas de todo o período. A substituição não é coincidência: é o movimento esperado quando uma molécula de alta penetração de mercado deixa de existir legalmente.

O peso crescente dos inseticidas
Entre 2023 e 2024, o volume total de inseticidas declarados ao SISDEV — plataforma eletrônica mantida pelo Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT) — saltou de 111.859 kg para 200.002 kg, aumento de 78,8%.
Dois produtos concentraram grande parte desse crescimento. O acefato subiu de 12.403 kg para 58.081 kg. O clorfenapir foi de 12.610 kg para 55.134 kg. Ambos são usados no controle da mosca-branca (Bemisia tabaci), praga que afeta o feijoeiro com intensidade variável conforme a safra.
Ao mesmo tempo, o imidacloprido — inseticida que dominou o grupo em 2022, com 110.883 kg — caiu para 16.507 kg em 2024. A trajetória acompanha restrições internacionais aos neonicotinoides, grupo ao qual pertence a molécula. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (Efsa) identificou riscos a polinizadores já em 2018; no Brasil, o uso segue permitido, mas o mercado claramente está se movendo.
O diafentiuron merece menção separada: praticamente dobrou entre 2023 e 2024, de 11.100 kg para 24.115 kg, tornando-se o terceiro inseticida mais aplicado no período. Pertence a um grupo de ingredientes recomendados em rotação justamente para retardar a seleção de resistência na mosca-branca — o que sugere que parte do setor já incorpora, na prática, estratégias de manejo integrado de pragas.

Herbicidas: glifosato cai, diquate e glufosinato sobem
Entre os herbicidas, a virada mais dramática foi a do glifosato. Passou de 52.820 kg em 2023 — 41,2% do total do grupo — para apenas 6.031 kg em 2024, queda de 88,6%. Não há, nos dados disponíveis, explicação regulatória direta para essa queda no estado; o glifosato continua autorizado no Brasil. O que os números indicam é uma mudança de portfólio.
Quem ocupou o espaço foi o diquate: 52.955 kg em 2024, ou 30,3% de todos os herbicidas usados no feijão mato-grossense naquele ano. O glufosinato de amônio também cresceu, de 8.254 kg para 46.978 kg — expansão vinculada na literatura técnica à adoção de cultivares transgênicas tolerantes a esse herbicida.
O volume total de herbicidas no período subiu de 104.521 kg (2022) para 174.868 kg (2024), crescimento de 67,3% em três anos.

Agrotóxico e necessidade de monitoramento
Um ponto que o estudo destaca com cautela: a substituição de moléculas banidas ou restritas por alternativas regulatoriamente aceitas não implica, automaticamente, menor risco ambiental. Clorotalonil, acefato e clorfenapir têm seus próprios perfis toxicológicos, e o crescimento expressivo de uso em poucos anos merece atenção.
Os pesquisadores também alertam para limites metodológicos: a base SISDEV depende de autodeclarações de revendas agropecuárias credenciadas, o que a expõe a erros de nomenclatura, registros duplicados e subnotificações. Cerca de 5% dos registros precisaram de ajuste durante o tratamento dos dados.
A análise estatística (ANOVA) indicou que, ao nível de 5% de probabilidade, não houve diferenças significativas entre os anos dentro de cada categoria de uso — o que, na prática, significa que as mudanças observadas refletem substituições de moléculas específicas, não uma alteração estrutural no comportamento do setor como um todo.
O feijão como produto estratégico
Mato Grosso é o quarto maior produtor de feijão do país, segundo a Associação dos Produtores do Polo de Irrigação (Aprofir). A cultura é usada como terceira safra, viabilizada por irrigação e pelo ciclo curto da planta — de até 75 dias. A expansão da área cultivada nos últimos anos é um dos fatores que pressionam o uso de defensivos.
Segundo dados da Conab citados na pesquisa, a produção nacional de feijão na safra 2024/25 deve atingir 3,3 milhões de toneladas, crescimento de 1,5% em relação ao ciclo anterior.
Os próximos passos indicados pela pesquisa envolvem ampliar o monitoramento para além dos volumes declarados, incorporar dados de campo e avaliar resíduos em grãos — lacuna relevante, dado que pesquisa do Ministério da Agricultura divulgada em 2022 mostrou que 37% das amostras de feijão comum coletadas em 2020 apresentavam índices de agrotóxicos fora do padrão legal.
Fonte: pesquisa publicada na revista Peer Review (DOI: 10.53660/PRW-5024-2770), de autoria de Léo Adriano Chig, Cristiane Ramos Vieira e Pablo Junior Hudziak Ezequiel, todos da Universidade de Cuiabá. Os dados primários são do SISDEV/INDEA-MT, referentes ao período 2022–2024.
*A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.
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