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Fogo consumiu 44% do Cerrado em quatro décadas e estudo alerta para colapso

Pesquisa da Unitins revela que 88,5 milhões de hectares do Cerrado queimaram em 40 anos. O estudo aponta o manejo inadequado do fogo e a falta de estrutura dos bombeiros como agravantes da crise ambiental.
Incêndios no Cerrado

Pesquisa da Unitins aponta que o uso falho de queimadas controladas e a falta de bombeiros transformaram a savana brasileira no ecossistema mais afetado por incêndios recorrentes no país

O Cerrado queima em um ritmo insustentável. Quase metade de todo o território desse bioma — exatos 44% — já foi consumida pelo fogo ao menos uma vez entre 1985 e 2023. O dado alarmante integra o artigo “Vulnerabilidade e Resiliência do Bioma Cerrado Frente aos Incêndios Florestais”, publicado na Revista Humanidades & Inovação. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), disseca como a ação humana desordenada transformou uma característica natural da savana em uma ameaça de extinção em larga escala.

Maria Lohana Hexana de Moura Silva Siqueira, Álvaro Cardoso dos Santos, Joab Coqueiro Meira e Reynaldo Vilarinho assinam a análise que expõe uma “relação destrutiva” entre a vulnerabilidade do ambiente e as pressões econômicas. O grupo alerta: o fogo deixou de ser apenas um elemento ecológico de renovação para se tornar um vetor de degradação.

A ilusão do controle

A prática é antiga e cultural. Pecuaristas utilizam o fogo para limpar pastos e renovar a terra. A legislação brasileira, através do Decreto 2.661/1998, até permite o uso de “queima controlada”. No papel, a técnica consiste na aplicação do fogo em “área delimitada, com intensidade e velocidade adequadas aos objetivos do manejo”.

Na prática, a história é outra.

O estudo aponta que essa ferramenta de manejo frequentemente foge ao controle. O que deveria ser uma limpeza de pastagem vira um incêndio de grandes proporções. A pesquisa destaca que a vulnerabilidade ambiental do Cerrado é intrínseca, mas se torna “avassaladora quando associada a fatores climáticos e antrópicos”.

Acumula-se matéria seca. Vem a estiagem. Uma faísca planejada encontra o vento e a baixa umidade. O resultado é o caos. “As queimadas realizadas no período de estiagem podem ocasionar impactos mais significativos na estrutura e na composição da vegetação”, reforça o texto, citando a intensidade das chamas como fator determinante para a destruição da flora.

88 milhões de hectares em cinzas

A dimensão do estrago é continental. O levantamento do MapBiomas, citado pelos autores, revela que o Cerrado é o ecossistema brasileiro mais castigado pela recorrência das chamas. Foram 88,5 milhões de hectares queimados em menos de 40 anos.

Para se ter ideia da gravidade, Cerrado e Amazônia juntos representaram 86% de toda a área queimada no Brasil no período analisado. Mas a savana sofre desproporcionalmente. O fogo ali não consome apenas a copa das árvores em eventos rápidos e visíveis. Ele penetra o solo.

Os pesquisadores chamam a atenção para os “incêndios subterrâneos” ou “de turfa”. O fogo consome a matéria orgânica enterrada. É uma queima lenta, invisível e persistente. Pode durar “semanas, meses ou até anos”, dependendo do clima. O combate a esse tipo de incêndio é extremamente difícil e os danos ao solo são, muitas vezes, irreversíveis.

Desigualdade no combate

Enquanto o fogo avança, a estrutura de defesa recua. O estudo traz à tona a precariedade logística e humana no enfrentamento às chamas, especialmente no Tocantins. A distribuição de bombeiros militares no Brasil segue uma lógica desigual que penaliza as áreas de fronteira agrícola.

O Distrito Federal conta com 18,74 bombeiros para cada 10.000 habitantes. Já o Tocantins dispõe de apenas 3,40 profissionais para o mesmo grupo populacional.

Essa disparidade custa vidas. A média anual de mortes em incêndios florestais no estado, entre 2017 e 2019, gerou uma taxa de 3,14 óbitos por milhão de habitantes. Os bombeiros, além do risco térmico, enfrentam a intoxicação por monóxido de carbono e ozônio. “A vasta extensão do Cerrado torna o monitoramento e o controle das queimadas uma tarefa complexa”, conclui o artigo, citando a dificuldade de acesso a regiões remotas.

O futuro exige integração

Não há solução mágica, mas há caminhos. Os autores defendem que a sobrevivência do bioma — que abriga 5% de todas as espécies do planeta — depende de uma abordagem que alinhe políticas públicas às metas globais de sustentabilidade, como a Agenda 2030.

A educação ambiental surge como peça-chave. Não basta punir; é preciso engajar comunidades rurais e jovens para mudar a cultura do fogo. O estudo é taxativo ao afirmar que o enfrentamento exige uma “abordagem integrada” que una tecnologia, legislação e consciência social. Sem isso, a resiliência natural do Cerrado não será suficiente para suportar a pressão das chamas.

 

A imagem que ilustra essa matéria foi feita usando IA.

 

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