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Incêndio na zona nobre da COP 30 esvazia plenária e expõe falhas de segurança em Belém

Fogo no “Pavilhão dos Países” interrompe negociações climáticas cruciais a menos de 48 horas do encerramento da cúpula; 13 pessoas precisaram de atendimento médico.

 

O cheiro de queimado chegou antes do alarme. Pouco depois das 14h desta quinta-feira (20), o ar-condicionado da Zona Azul — o coração diplomático da COP 30, em Belém — parou de filtrar o calor amazônico para bombear a fumaça de um desastre anunciado. O que deveria ser o palco para o acordo final sobre o fim dos combustíveis fósseis virou cenário de correria, fuligem e uma evacuação às pressas.

Enquanto delegados de todo o mundo discutiam metas de temperatura, as chamas consumiam parte da estrutura física do evento. O fogo irrompeu no “Pavilhão dos Países”, especificamente no setor Climate Pavilion, vizinho aos estandes da China e da Itália. A ironia não passou despercebida: a conferência que debate o aquecimento global ardia, literalmente, sob o teto de um antigo aeródromo adaptado.

Vídeos gravados no momento do incidente mostram labaredas altas devorando as lonas e abrindo um buraco no teto. Samuel Rubin, responsável por um espaço cultural adjacente, viu a crise de perto. “O fogo se espalhou rapidamente para pavilhões vizinhos”, relatou ele, indicando o risco real que áreas dedicadas à África e à juventude correram.

A resposta foi uma barreira humana. Policiais e seguranças da ONU precisaram empurrar ministros e negociadores para longe da fumaça tóxica que tomou conta do ambiente.

Improviso e contradições estruturais

 

A fumaça dissipou, mas deixou no ar a fragilidade da organização. O governador do Pará, Helder Barbalho, apontou para uma causa técnica provável, sugerindo que “uma falha de gerador ou um curto-circuito em um estande pode ter iniciado o incêndio”. Testemunhas corroboram a tese de pane elétrica.

Mas o problema parece estar no material que alimentou o fogo. Há um descompasso gritante entre o discurso oficial e a realidade construtiva. O Ministro do Turismo, Celso Sabino, foi categórico ao afirmar que “o material usado para forrar os galpões é antichamas”.

Contudo, a segurança do revestimento do piso é uma incógnita. Ao ser questionado sobre os quilômetros de carpete que cobrem o evento, Sabino admitiu “não saber” se o material recebeu o mesmo tratamento preventivo.

Essa dúvida recai sobre uma estrutura montada contra o relógio. Antes mesmo das chamas, relatos de bastidores já descreviam um cenário de “obra inacabada”: vigas expostas, muito compensado de madeira e operários martelando plásticos enquanto chefes de Estado discursavam. O incêndio de hoje apenas materializou a tensão de um evento erguido no limite do prazo.


Para entender melhor: O que é a Zona Azul?

É a área restrita gerenciada pela ONU dentro da conferência do clima. Diferente da Zona Verde (aberta ao público e sociedade civil), é na Zona Azul que ocorrem as negociações oficiais entre diplomatas, ministros e chefes de Estado. É onde as decisões globais são, de fato, tomadas. O fechamento dessa área significa a paralisia total do evento.

Guerra de narrativas e vítimas “invisíveis”

 

A gestão da crise gerou um conflito imediato de versões entre o que dizem os microfones oficiais e o que se viu nos corredores.

  • Tempo de Resposta: A organização sustenta que controlou as chamas em seis minutos. O ministro Celso Sabino estendeu a margem, afirmando que a situação foi contida em cerca de “15 minutos”.

  • Vítimas: A nota oficial da organização e do governo insiste que “o incêndio não deixou feridos”.

  • A Realidade: A apuração in loco desmente a ausência de danos humanos. Ao menos 13 pessoas inalaram fumaça e precisaram de atendimento. Socorristas usaram oxigênio e uma mulher foi retirada do local em uma maca.

“Tristeza para nós”: O impacto humano

 

No meio do caos logístico, o trauma de quem construiu a COP 30 apareceu. Gabi Andrade, voluntária local que dedicou três semanas ao credenciamento, viu seu dia de folga virar pesadelo. Ela estava no pavilhão de Singapura quando a fumaça preta surgiu.

Chorando, enquanto era amparada pela segurança, ela desabafou o medo de que o incidente manche a imagem do país anfitrião: “É tão triste para nós. Nós todos trabalhamos tanto”.

Do lado das autoridades estrangeiras, o tom foi de susto controlado. Darragh O’Brien, ministro irlandês para o Clima, elogiou a evacuação, mas não minimizou a gravidade do que chamou de “incêndio substancial”.

“Espero que todos estejam bem e que não haja feridos. Os serviços de emergência estão aqui no local. Você pode sentir o cheiro de queimado, ver a fumaça. Todos foram evacuados, muito eficientemente, sem nenhum pânico de uma maneira muito ordenada”, declarou O’Brien.

O relógio parou (mas o clima não)

 

O incêndio paralisou as negociações no pior momento possível. Estamos no penúltimo dia da cúpula. Mais de 80 nações, incluindo pesos-pesados como Alemanha e Reino Unido, pressionavam por um “mapa do caminho” para eliminar os combustíveis fósseis. Países produtores de petróleo resistem. O debate estava pegando fogo — metaforicamente — quando o fogo real começou.

Horas antes do incidente, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, já alertava para a escassez de tempo: “É evidente que estamos em um momento crítico e o mundo está observando Belém. Encorajo fortemente todas as delegações a demonstrarem sua vontade e adaptabilidade.”

Agora, a adaptação exigida é física. A Zona Azul permanece fechada nesta noite de quinta-feira (20), enquanto bombeiros avaliam a integridade do que sobrou. A reabertura está prometida para após as 20h, mas o ritmo foi quebrado.

Viliami Vainga Tone, da delegação de Tonga, resumiu a frustração de quem lida com a urgência climática e agora enfrenta a burocracia do desastre: “Tempo é o recurso mais precioso na COP e estou desapontado que é ainda mais curto por causa do incêndio”.

Guterres tenta manter o moral da tropa elevado, lembrando que o prazo final é apenas uma referência em negociações que costumam varar a madrugada. “Estamos no limite e o mundo está assistindo Belém”, disse ele, completando com um otimismo cauteloso: “Continuarei otimista. Há sempre amanhã, se não o resto de hoje. Mas pelo menos temos um dia completo amanhã.”

Resta saber se 24 horas serão suficientes para limpar a fuligem e salvar o acordo mais importante da década.

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