Proposta une mapa de deslizamentos da UFRGS e dados soberanos, permitindo que professores criem aulas alinhadas à BNCC
A catástrofe climática de maio de 2024 no Rio Grande do Sul deixou cicatrizes profundas no estado . Agora, uma nova proposta acadêmica quer transformar esses dados trágicos em uma ferramenta pedagógica. Pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo uma plataforma de Inteligência Artificial (IA) focada em Educação Climática . O sistema usa informações reais, como o mapa de deslizamentos da UFRGS, para gerar planos de aula práticos para o ensino básico, fundamental e médio .
A proposta visa responder a dois desafios urgentes: a necessidade de preparar novas gerações para a crise climática e a ascensão da própria IA no ambiente escolar .
O problema da IA “caixa-preta”
A ascensão da IA na educação preocupa especialistas . Muitos sistemas operam como “caixas-pretas”, usando dados dos alunos sem transparência. O novo projeto ataca exatamente esse ponto. Ele se baseia na “curadoria de dados soberanos” .
Isso significa que os dados vêm de fontes controladas, como centros de pesquisa e os próprios professores . O controle local garante a privacidade e a autonomia docente . A plataforma evita, assim, que informações sensíveis sejam exploradas por corporações externas .
Para entender melhor: O que são Dados Soberanos?
No contexto deste projeto, “dados soberanos” referem-se a informações controladas pela própria instituição educacional ou pelos professores . Em vez de alimentar uma IA de uma grande empresa (Big Tech) com dados dos alunos, a plataforma usa dados locais e científicos, como mapas de desastres ou relatórios . Isso garante que os dados sirvam à pedagogia, e não ao lucro corporativo , além de proteger a privacidade .
O WebMapa como estudo de caso
O coração do projeto é a aplicação prática. O estudo de caso usa o “WebMapa de Movimentos de Massa” . Esta ferramenta foi desenvolvida pelo Laboratório Latitude (CEPSRM/UFRGS) .
Ela mapeou inundações e deslizamentos no RS, com validações feitas em campo logo após o desastre de maio de 2024 . A plataforma de IA “bebe” dessa fonte. Ela analisa os dados geoespaciais reais e sugere planos de aula completos . As sugestões incluem objetivos, atividades e avaliações sobre eventos extremos, tudo alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) .
Da teoria à prática: a aula de 9º ano
Os pesquisadores detalham uma metodologia de aplicação . O público-alvo são alunos do 9º ano do Ensino Fundamental em regiões afetadas do RS , jovens que vivenciaram o desastre de perto.
A aula proposta é dividida em etapas. Primeiro, o professor explora o WebMapa . A IA, então, gera um plano de aula e uma trilha de aprendizagem personalizada .
A etapa final é a mais importante: a “rotação por estações” . Os alunos são divididos em grupos:
- Grupo 1: Analisa o WebMapa para identificar áreas de risco .
- Grupo 2: Debate os impactos sociais do desastre de maio .
- Grupo 3: Simula planos de prevenção e contingência .
- Grupo 4: Produz materiais digitais (infográficos, relatórios) usando os dados reais .
Alinhamento nacional e internacional
Esta abordagem não surge do vácuo. Ela responde a demandas urgentes. A partir de 2025, a Lei $n^{\circ}$ 14.926/2024 torna obrigatório o ensino sobre mudanças climáticas nas escolas brasileiras .
Além disso, a proposta segue o Marco Referencial de Competências em IA para Professores, publicado pela UNESCO em 2025 . O projeto busca capacitar professores e alunos para enfrentar a crise climática. A meta é usar a tecnologia como aliada, promovendo o letramento científico e a autonomia .
O único trecho citado diretamente no estudo reforça essa visão: “Os professores devem ser capazes de avaliar, com pensamento crítico, o impacto da IA no ensino e planejar cenários de aprendizagem que alavanquem dados para inovação pedagógica” (UNESCO, 2025, OA4.3.1, p. 47) .
Um ecossistema em construção
A plataforma é parte de um esforço maior. Ela se conecta ao Projeto CLIMATE-AI-SBN . Esta iniciativa foi reconhecida pela FAPERGS e Fundação Araucária para apoio à Resiliência Climática no RS .
Coordenado pela UFRGS, o projeto envolve também a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) . O objetivo é construir um “ecossistema educacional resiliente” .
A integração do WebMapa com a IA da plataforma, portanto, é um passo decisivo. A conclusão dos autores é que a ferramenta transforma dados complexos em educação prática . Eles defendem que professores e estudantes tornam-se agentes ativos na construção de territórios mais resilientes .
Matéria baseada em artigo acadêmico publicado no v.17, n.10 da revista Cuadernos de Educación y Desarrollo, 2025 .












