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Horta escolar transforma hábitos de adolescentes e combate “pandemia” de sedentarismo e má nutrição

Projeto em escola da Colômbia utiliza horta agroecológica para transformar a visão de adolescentes sobre saúde, combatendo sedentarismo e má alimentação através de aprendizagem significativa.
horta escolar hábitos saudáveis

Projeto em Valledupar vai além do plantio e ensina que saúde envolve sono, hidratação e menos telas; estudantes do 9º ano mudam percepção sobre qualidade de vida.

Em um cenário onde o cheiro de terra molhada compete com o brilho das telas de smartphones, uma iniciativa na Instituição Educativa Alfonso Araujo Cotes, em Valledupar (Colômbia)*, prova que é possível reconectar adolescentes com a realidade biológica de seus próprios corpos. Não se trata apenas de plantar tomates ou espinafre. O projeto, liderado pelas pesquisadoras Nurys Herrera Rubio, Yenifer Karina Suárez Bolaño e Yuranis Esther Iglesias Granados, utilizou uma horta escolar agroecológica para desmontar a visão reducionista que jovens têm sobre saúde.

O diagnóstico inicial da turma 902 foi alarmante, embora não surpreendente. Para a maioria dos estudantes, “vida saudável” resumia-se a uma equação simplista: comer salada e fazer algum exercício. Elementos vitais como sono reparador, hidratação adequada e saúde mental eram ignorados.

Essa cegueira seletiva reflete uma crise global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 80% dos adolescentes não cumprem os níveis recomendados de atividade física. Na escola de Valledupar, a realidade não era diferente. O sedentarismo imperava, alimentado por horas excessivas de uso de celular e uma dieta recheada de ultraprocessados, muitas vezes consumidos no próprio recreio escolar.

A sala de aula a céu aberto

A intervenção começou com a transformação física do espaço. Um terreno baldio, cheio de mato e pedras, converteu-se em sala de aula viva. Os estudantes tiveram que, literalmente, “botar a mão na massa”. Limparam a área, nivelaram o solo e construíram bancais para o cultivo.

Mas o trabalho braçal foi apenas o veículo para a mudança cognitiva. A estratégia didática integrou atividades lúdicas que forçavam a reflexão. Em uma dinâmica chamada “Raízes de aprendizagem”, os alunos não apenas aprenderam sobre tipos de cultivo, mas conectaram o esforço físico do plantio com a necessidade de um corpo ativo.

A virada de chave ocorreu quando o conceito de saúde deixou de ser abstrato. Ao cuidarem de um organismo vivo — a planta —, os jovens começaram a entender as necessidades do seu próprio organismo. A horta agroecológica, que dispensa químicos e respeita os ciclos naturais, serviu de espelho para o que deveria ser a alimentação humana: limpa, nutritiva e consciente.

O despertar para o “invisível”

Antes do projeto, o descanso era visto como perda de tempo. “Não sabia quais eram as consequências de não levar hábitos saudáveis”, admitiu um estudante na fase inicial das entrevistas. O sono era sacrificado em prol das redes sociais, e a água era substituída por bebidas açucaradas sem muito questionamento.

Após a implementação das atividades — que incluíram o “Semáforo dos Hábitos Saudáveis” e a “Pirâmide Alimentar” —, o discurso mudou radicalmente. Os estudantes passaram a reconhecer que dormir bem é crucial para o rendimento acadêmico e físico.

Um dos alunos, ao final do processo, sintetizou a nova consciência adquirida: “É importante porque amanhecemos ativos e, pelo normal, devemos dormir muito bem”. Outro estudante reforçou a mudança de atitude em relação aos exercícios: “[Agora] faço treinamentos de futebol, quase diários”.

A desconexão família-escola

O projeto também lançou luz sobre uma falha estrutural: a desarticulação entre o que se ensina na escola e o que se pratica em casa. A teoria ecológica de Bronfenbrenner, citada no estudo, alerta que esses “microssistemas” precisam dialogar.

Muitos alunos relataram que, em casa, a oferta de alimentos depende do que os pais compram, e muitas vezes a conveniência vence a nutrição. “A família influi nas conversas e nas atitudes”, observou um aluno, indicando que o ambiente doméstico pode tanto sabotar quanto reforçar os hábitos saudáveis.

A escola, portanto, assumiu um papel de resistência e reeducação. Ao levarem para casa o conhecimento prático — e, simbolicamente, a “salada de frutas” preparada na atividade de encerramento “Da horta à mesa” —, os estudantes tornaram-se agentes de mudança em seus lares.

Resultados concretos

A eficácia da estratégia foi medida não pela quantidade de hortaliças colhidas, mas pela qualidade das respostas dos alunos. Se antes eles davam respostas vagas como “comer bem para não adoecer”, ao final do projeto demonstravam um vocabulário crítico. Passaram a citar riscos de doenças crônicas, a importância da higiene e a necessidade de reduzir o tempo de tela.

Um aluno destacou a influência direta das aulas: “Sim, recebi esse tipo de informação de forma boa e consciente”. Outro foi mais específico sobre o impacto pessoal: “[Ajudou] a aprender a importância de cuidar de nós”.

A horta escolar provou ser mais do que um recurso agrícola; funcionou como um laboratório de cidadania e autocuidado. Em um mundo onde a saúde adolescente é frequentemente negligenciada em prol do consumo rápido, sujar as mãos de terra serviu para limpar a mente de hábitos nocivos.

Atividades didáticas

Para engajar os adolescentes, a equipe pedagógica desenvolveu cinco atividades chave:

  • Raízes de Aprendizagem: Introdução aos tipos de horta (vertical, hidropônica, agroecológica) com atividade física integrada.

  • O Semáforo dos Hábitos: Dinâmica visual onde os alunos classificaram suas rotinas diárias em “pare” (nocivas), “atenção” e “siga” (saudáveis).

  • Classificação dos Alimentos: Jogo prático para entender a função nutricional de cada grupo alimentar, combatendo a ideia de que “tudo que enche a barriga alimenta”.

  • A Pirâmide Alimentar: Construção coletiva do “prato ideal”, visualizando proporções e necessidades calóricas.

  • Da Horta à Mesa: Atividade de encerramento com preparo e consumo de alimentos, fechando o ciclo do plantio à nutrição.

* Huerta escolar como estrategia didáctica para el aprendizaje significativo de hábitos de vida
saludable – Herrera Rubio Nurys; Suárez Bolaño Yenifer Karina; Iglesias Granados Yuranis Esther

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