Estudo que embasou a liberação do herbicida pela Anvisa foi anulado em dezembro de 2025 por fraude científica — 25 anos depois de publicado
O agrotóxico mais vendido do Brasil está no biscoito, no macarrão instantâneo, no nugget, no requeijão e no hambúrguer vegetal. Em três rodadas de análise laboratorial conduzidas entre 2021 e 2024, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) detectou glifosato em 31 dos 75 ultraprocessados testados na série “Tem Veneno Nesse Pacote”. O principal estudo científico usado para sustentar a permissão de uso da substância no país — citado no processo de reavaliação da Anvisa — foi invalidado em dezembro de 2025 pela revista norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology, após 25 anos em circulação, por questões éticas e falta de integridade científica.
O ghostwriting da Monsanto
O periódico Regulatory Toxicology and Pharmacology retratou formalmente, em 28 de novembro de 2025, o artigo científico que por um quarto de século funcionou como principal escudo regulatório do glifosato, herbicida ativo do Roundup. O estudo, publicado em 2000 e assinado por três cientistas sem vínculo declarado com a Monsanto, foi escrito por funcionários da própria empresa — fato conhecido desde 2017, mas ignorado pela revista até um pedido formal de retratação chegar à sua mesa em julho de 2025.
O artigo e seu peso
O texto de Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro concluía que os herbicidas à base de glifosato não representavam riscos à saúde humana: sem câncer, sem risco reprodutivo, sem efeitos adversos sobre o desenvolvimento ou o sistema endócrino. Com esse escopo e essas conclusões, tornou-se a revisão toxicológica mais citada sobre o produto: 822 referências até janeiro de 2025, segundo levantamento bibliométrico publicado em setembro do mesmo ano por Alexander Kaurov, da Victoria University of Wellington, e Naomi Oreskes, de Harvard, na revista Environmental Science & Policy. Isso o colocava no nono lugar entre os mais citados sobre glifosato — no 0,1% superior de toda a literatura acadêmica sobre o tema.
Esse peso acadêmico não foi acidental.
O e-mail que comprovou tudo
Documentos internos da Monsanto obtidos em processos judiciais a partir de 2017 mostraram que o artigo foi resultado de três anos de trabalho corporativo, parte de uma estratégia interna batizada de “Freedom to Operate” (FTO). Em maio de 2000, dias após a publicação, a funcionária de relações governamentais Lisa Drake enviou um e-mail interno parabenizando sete colegas pela “coleta de dados, redação, revisão e construção de relacionamento com os autores” — e os descreveu como os responsáveis reais pelo trabalho.
Em 2015, o cientista da Monsanto William Heydens sugeriu explicitamente a colegas que “escrevessem como ghost-writers” outro artigo, pagando pesquisadores externos para “editar e assinar seus nomes”. No mesmo e-mail, citou o artigo de 2000 como modelo: “é assim que tratamos Williams Kroes e Munro 2000.”
O aviso de retratação, assinado pelo co-editor-chefe Martin van den Berg, da Universidade de Utrecht, afirma que “a falta de clareza sobre quais partes do artigo foram redigidas por funcionários da Monsanto cria incerteza sobre a integridade das conclusões” e que “a omissão sugere que os autores podem ter deturpado seus papéis únicos e a natureza colaborativa do trabalho”.
Por que o artigo existia
Há um dado que transforma o caso de irregularidade ética em algo mais grave: o artigo foi encomendado para apagar um laudo desfavorável.
Em 1999, após o governo italiano levantar preocupações sobre genotoxicidade do Roundup, a Monsanto contratou o Dr. James Parry, especialista na área, para avaliação interna. Parry concluiu que o glifosato poderia induzir mutações genéticas e quebras cromossômicas com potencial cancerígeno, e recomendou testes adicionais. A toxicologista Donna Farmer registrou em e-mails internos que o trabalho de Parry colocou a empresa num “buraco de genotoxicidade”. A solução foi contratar Gary Williams, que chegou a conclusões exatamente opostas — e publicá-las como revisão científica independente.
Além do ghostwriting e do encobrimento do laudo Parry, o aviso de retratação cita outros problemas: os três autores “podem ter recebido compensação financeira da Monsanto” não declarada; as conclusões sobre carcinogenicidade foram baseadas exclusivamente em estudos não publicados da Monsanto, ignorando pesquisas independentes disponíveis à época.
O atraso de oito anos
As evidências do ghostwriting estavam nos autos judiciais desde 2017. A retratação só veio em 2025 — oito anos depois — porque, na prática, ninguém havia pedido formalmente. Van den Berg declarou ao Retraction Watch que o caso “nunca chegou à minha mesa, sendo inicialmente uma situação dos EUA com litigância”. Foram Kaurov e Oreskes — um astrofísico e uma historiadora da ciência, não toxicologistas — que, ao publicar sua análise bibliométrica em setembro de 2025, enviaram o primeiro pedido oficial de retratação à revista. Em cerca de um mês, a investigação editorial estava concluída.
O que muda nos EUA
O artigo estava presente em documentos internos da EPA para classificação do glifosato, incluindo o Glyphosate Issue Paper de 2016, o Draft Human Health Risk Assessment de 2017 e a Interim Registration Review Decision de 2020 — todos citando-o como suporte para a conclusão de que o produto era “improvável de ser carcinogênico para humanos”. A EPA afirmou publicamente nunca ter se baseado “neste artigo específico” para suas conclusões regulatórias. Análises independentes divergem: a agência tem até outubro de 2026 como prazo legal para concluir sua reavaliação do glifosato — e precisará fazê-lo sem esse estudo como referência.
No front judicial, as cifras são de outra ordem. A Bayer, que adquiriu a Monsanto em 2018, enfrentou mais de 192.000 ações judiciais ligadas ao Roundup. Em fevereiro de 2026, a Monsanto anunciou proposta de acordo coletivo de 7,25 bilhões de dólares para processos atuais e futuros relacionados a linfoma não-Hodgkin. As provisões totais para litigância com glifosato chegaram a 9,6 bilhões de euros. As ações da Bayer caíram mais de 70% desde a aquisição.
Em 16 de janeiro de 2026, o Supremo Tribunal dos EUA anunciou que examinará o caso Durnell — o primeiro sobre o Roundup a chegar à Corte. A questão central: se alegações estaduais de “falha em avisar” sobre riscos de câncer são bloqueadas pela lei federal, já que a EPA aprovou o rótulo sem exigir avisos de câncer. Uma decisão favorável à Bayer poderia encerrar grande parte da litigância em andamento.
O que dizem Bayer e a indústria
A Bayer declarou que o envolvimento da Monsanto “foi adequadamente citado nos agradecimentos” do artigo, onde se mencionavam “toxicologistas e outros cientistas da Monsanto que deram contribuições significativas”. A Modern Ag Alliance argumenta que a retratação foi conduzida por pesquisadores “ativistas” e seria questão procedimental de declaração de conflitos — sem alterar o consenso regulatório. O próprio aviso de retratação deixou registrado que a decisão “não implica posicionamento sobre o debate em curso a respeito da carcinogenicidade do glifosato ou do Roundup”.
Uso do estudo no Brasil
No Brasil, o artigo invalidado subsidiou o parecer técnico contratado pela Anvisa em 2016 e a Nota Técnica nº 12/2020, que culminaram na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 441, de dezembro de 2020 — a decisão que manteve o glifosato no mercado sem alteração na classificação de risco cancerígeno.
A toxicologista Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), diz que o parecer externo usado pela Anvisa durante a reavaliação cita justamente esse estudo do ano 2000, com várias falhas metodológicas, para desqualificar outros estudos que apontavam o glifosato como cancerígeno.
O que vem pela frente
Kaurov e Oreskes já submeteram pedido de retratação à Critical Reviews in Toxicology para um artigo de 2013 com perfil semelhante de não-divulgação do papel da Monsanto. Alexandra Maertens, toxicologista da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, confirmou que há outros manuscritos sobre glifosato com participação não declarada da empresa — e que “isso absolutamente deveria ter sido declarado”. A nova avaliação de risco à saúde humana da EPA, atualmente em andamento, deverá ser publicada para comentários públicos em 2026. A renovação da licença do glifosato na União Europeia, aprovada por dez anos em novembro de 2023, também deverá ser reavaliada à luz de uma base científica que agora se mostra comprometida em partes.
A série “Tem Veneno Nesse Pacote”
Trigo como vetor
O glifosato foi o agrotóxico mais recorrente nos três volumes da pesquisa e o único presente nas três edições como substância predominante. No volume 1, de 2021, apareceu em sete dos 27 produtos analisados. No volume 2, de 2022, foi detectado em nove dos 24 ultraprocessados de origem animal. No volume 3, de 2024, voltou a aparecer em sete das 24 amostras.
Um dado se repete nos três volumes: todos os alimentos com farinha de trigo na composição apresentaram resíduos de algum agrotóxico. A farinha é a rota mais direta — está na crosta dos empanados, no biscoito maisena, no macarrão instantâneo. Nos produtos de origem animal, o caminho é indireto: pesquisas indicam que 63% dos agrotóxicos usados no Brasil vão para a lavoura de soja e que 77% da produção do grão se torna ração para animais, o que explica como o herbicida chega a salsichas, hambúrgueres e laticínios sem que esses produtos tenham sido pulverizados diretamente.
Uma das descobertas mais inesperadas da terceira edição foi nos plant-based: duas das três marcas de hambúrgueres vegetais continham resíduos de agrotóxicos, e todas as três marcas de empanado vegetal com sabor de frango apresentaram contaminação. O rótulo “alternativa saudável” não garantiu isenção.

Alimentos com veneno:

Mais de 1.200 toneladas desde a decisão da Anvisa
Desde que a RDC nº 441/2020 confirmou a liberação do herbicida, mais de 1.200 toneladas foram comercializadas no país. Os dados do Ibama para 2024 registram 231,9 mil toneladas de glifosato vendidas naquele ano — volume que o mantém como o ingrediente ativo mais comercializado em solo nacional.
A escala histórica é ainda mais expressiva: entre 2012 e 2017, mais de 1 milhão de toneladas do princípio ativo circularam pelo mercado brasileiro, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz).
Nos Estados Unidos, o preço já foi pago em juízo. A Bayer desembolsou mais de 11 bilhões de dólares para encerrar cerca de 100 mil processos movidos por vítimas do Roundup — o produto comercial à base de glifosato. No Brasil, esse capítulo ainda não começou.
Ausência de limites e silêncio regulatório
A Anvisa reconhece a metodologia do Idec e a relevância dos resultados — mas não inclui ultraprocessados no monitoramento do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). A justificativa oficial é que não existe metodologia científica internacional para fixar limites de resíduos nessa categoria de alimentos e que, mesmo que existisse, definir parâmetros produto a produto “seria inviável na prática”.
O efeito concreto desta posição é que não há como afirmar se as quantidades detectadas nos testes do Idec estão acima ou abaixo do permitido — porque os parâmetros simplesmente não existem para ultraprocessados. A conformidade com a legislação brasileira, invocada por fabricantes como Seara e BRF em resposta às notificações do Idec, não responde a essa lacuna: ela confirma apenas que o produto respeita regras que não foram escritas para ele.
Entidades pedem suspensão
Após a retratação do estudo de 2000, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a Fiocruz e o Idec protocolaram ofício conjunto na Anvisa pedindo reavaliação urgente e suspensão temporária dos registros do glifosato, da atrazina e do alacloro. O pedido se apoia na RDC nº 221/2018, que permite reavaliação de ingredientes ativos com novos indícios de risco a qualquer tempo.
A Anvisa respondeu que as evidências científicas disponíveis até o momento não justificam a proibição do registro no Brasil. A agência afirmou ainda que o artigo invalidado “não foi o único dado utilizado” e que o processo de reavaliação “analisa um conjunto extenso de estudos”.
A nova reavaliação do glifosato, determinada por ação judicial movida por organizações ambientalistas e de segurança alimentar, está prevista para este ano. Será o primeiro teste regulatório sério após a anulação do principal estudo que sustentou a última decisão da Anvisa sobre a substância.
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