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Eventos climáticos extremos empurram populações vulneráveis para o endividamento e a perda de moradia

Levantamento com moradores de sete países evidencia como a destruição causada por inundações, ciclones e secas empurra famílias sem proteção social para o endividamento e a insegurança alimentar.
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O número de desastres meteorológicos anuais quintuplicou nas últimas cinco décadas, transformando o que antes era excepcional na dura realidade do nosso tempo.No entanto, um novo e contundente estudo* do Secours Catholique – Caritas France, conduzido de forma conjunta com parceiros no Brasil, Madagascar e Tunísia, revela que os debates focados apenas na redução de gases de efeito estufa estão deixando de fora o elemento mais crítico da crise: o fator humano.
Como resume o presidente da organização, Didier Duriez, ecoando a encíclica Laudato si’: “Não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socio-ambiental”.
A partir da escuta atenta de 152 pessoas em 14 territórios distintos, a pesquisa desvenda como as mudanças climáticas operam em uma engrenagem perversa: elas atingem implacavelmente aqueles que já vivem em vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, arrastam novos públicos para a pobreza.

O efeito cascata da precariedade climática

O aquecimento global afeta a saúde física, a saúde mental, o mercado de trabalho e as relações familiares.
Bernard, líder associativo na Ilha da Reunião (França), descreve perfeitamente o efeito dominó invisível provocado pelos extremos climáticos no cotidiano das classes menos abastadas: “Quando não se tem os meios de [se proteger das secas e das inundações], isso significa que quando faz calor, dorme-se muito mal. Isso significa que no dia seguinte, acordamos e estamos cansados. […] Portanto, vemos claramente que há todo um sistema de eventos que se encadeiam por causa do aquecimento global”.
Nas regiões rurais, ricas em biodiversidade mas desprovidas de infraestrutura estatal robusta, as mudanças climáticas estão dizimando a segurança alimentar.
Na Guiana Francesa, Pamela, moradora e conselheira municipal em Camopi, atesta a escalada das catástrofes: “A inundação, a seca, nestes tempos, é mais grave do que antes. […] As pessoas sofreram muito, principalmente com as pesadas perdas de alimentos básicos”.
A agricultura de subsistência e de pequenos produtores é a mais golpeada pelas intempéries, resultando na perda da capacidade de negociação.
Em Madagascar, o agricultor Soalehy relata a assimetria que se forma no mercado pós-desastre: “Houve uma grande mudança por causa das inundações: as colheitas tornaram-se irregulares e os compradores não aceitam mais negociar os preços. Eles impõem suas tarifas e os camponeses, por falta de meios, são obrigados a aceitar”.
A urgência por políticas públicas participativas, que respeitem as particularidades territoriais, é ecoada por Terezinha, líder indígena da comunidade Sateré-Mawé (Gavião) no Amazonas, Brasil, território severamente afetado pela seca recente: “É necessário consultar a população, porque cada braço de rio é diferente, cada comunidade tem sua própria forma de pensar e agir”.

Sobrevivência, seguros e o abandono sistêmico

Em contextos de secas extremas, o instinto de proteger os meios de subsistência sobrepõe-se às necessidades básicas das próprias vítimas.
Na Tunísia, Zahra B., viúva e criadora de gado, narra o duro dilema enfrentado por mulheres que carregam sozinhas o sustento familiar: “Muitas vezes tivemos que abrir mão de algumas de nossas próprias necessidades para alimentar o gado, especialmente com o aumento dos preços da forragem e a persistência da seca. O gado não pode ficar sem comida, senão nós não comemos”.
Quando o desastre passa, surge o colapso financeiro. A pesquisa documenta que, globalmente, os mais pobres não têm acesso a seguros ou indenizações justas. Aqueles que possuem apólices frequentemente encontram uma burocracia intransigente e valores insuficientes, baseados na “vetsutez” dos bens.
Éric, um agricultor do sul da França que viu o trabalho de gerações ruir sob as inundações, relata a desesperança diante dos altos custos de reconstrução: “Aos 44 anos, não vamos colocar um crédito enorme nas costas. […] Faz vinte anos que nos matamos de trabalhar e, em quatro horas, perder tudo, é duro”.
Para famílias de baixa renda, a matemática das seguradoras é excludente. Marie, moradora afetada por inundações sucessivas no norte da França, sintetiza o abismo entre o mercado financeiro e a realidade social: “Para os seguros, 500 euros é uma quantia pequena. Para nós, é enorme”.

A Interseccionalidade do Trauma

A reportagem evidencia, por fim, os profundos impactos na saúde mental e as desigualdades interseccionais dessa crise. A precariedade não é neutra; ela recai de forma desproporcional sobre as mulheres, mães solteiras e os idoso.
Marie-France, moradora afetada pela tempestade Alex na França, descreve não apenas a dificuldade logística, mas a sensação de exclusão social e a inadequação do apoio governamental: “As mulheres sozinhas, as solteiras ou as pessoas aposentadas são muito mais vulneráveis do que os jovens que se recuperam mais rápido. […] É como se não fizéssemos parte da sociedade”.

Um chamado à justiça social

A conclusão do relatório é categórica: as estratégias globais falharão enquanto não integrarem as dimensões humana e social no centro das políticas públicas.
A verdadeira adaptação exige mais do que diques e alertas meteorológicos; ela demanda guichês únicos de apoio às vítimas, acesso incondicional aos direitos básicos (água, alimentação, abrigo) e um financiamento climático direto que alcance quem está na linha de frente.
Para erradicar a vulnerabilidade climática, devemos começar pela erradicação da precariedade sistêmica. Se as vozes de Terezinha, Zahra, Éric e Soalehy não forem ouvidas nos centros de decisão, a transição ecológica será apenas o privilégio de poucos, e não a salvação de todos.

 

Transparência: a imagem que ilustra essa matéria foi criada utilizando IA.

*La crise climatique vue par les personnes qui la vivent. Kahina Le Louvier, Émilie Johann, Daphné Chamard Teirlinck.

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