Pesquisa científica publicada em 2026 conclui que ação humana, especialmente o desmatamento massivo, catalisa secas severas e calor atípico na região, aumentando risco de colapso irreversível do bioma.
O Verão Amazônico — período de menor pluviosidade entre junho e novembro — tem registrado secas cada vez mais intensas, temperaturas recordes e aumento alarmante de incêndios florestais. Um estudo científico publicado em 2026 na Revista Caderno Pedagógico revela que a responsabilidade por essa discrepância climática recai majoritariamente sobre fatores antropogênicos, com destaque para o desmatamento massivo. A pesquisa, assinada por oito especialistas brasileiros ligados à UFAM, UFPA e ao Centro Universitário Nilton Lins, analisou dados climatológicos das últimas duas décadas e concluiu que, embora fenômenos naturais como o El Niño contribuam para secas, a ação humana é o catalisador que intensifica e prolonga os extremos.
O Verão Amazônico, tradicionalmente um período de equilíbrio ecológico previsível, tem dado lugar a eventos cada vez mais extremos. De acordo com o artigo, nas últimas décadas esse período seco revelou “crescente irregularidade climática”, com secas mais intensas e prolongadas, registros de temperaturas superiores à média histórica e aumento tanto na frequência quanto na gravidade dos incêndios florestais. Essas alterações afetam negativamente a biodiversidade e a resiliência da floresta, além de impactar diretamente as comunidades locais e a economia regional.
O papel decisivo do desmatamento
Os pesquisadores utilizaram uma revisão bibliográfica sistemática, compilando estudos climatológicos recentes, relatórios do IPCC e trabalhos de autores como Marengo, Nobre e Gatti. A análise focou na correlação entre dados históricos de precipitação, temperatura, desmatamento e a influência de fenômenos naturais. Os resultados apontam para uma responsabilidade multifatorial, mas hierárquica: enquanto a variabilidade natural — representada pelo fenômeno ENSO (El Niño-Oscilação Sul) — atua como agente de seca cíclica, ela opera em sinergia com o fator antropogênico, que se revela o catalisador da discrepância.
O desmatamento emerge como a causa mais significativa da crise climática regional. Conforme o estudo, a remoção da floresta interrompe drasticamente o ciclo hidrológico local, pois a floresta é essencial para o processo de evapotranspiração, responsável por reciclar grande parte da água da chuva de volta para a atmosfera. A substituição da floresta por pastagem ou agricultura resulta em redução significativa da umidade atmosférica, o que se traduz em menor precipitação. Além disso, áreas desflorestadas absorvem e irradiam mais calor do que a floresta densa, que utiliza a energia solar na evapotranspiração, mantendo-se mais fria. Isso leva a um aumento nas temperaturas regionais, intensificando a seca e o calor percebidos no Verão Amazônico.
Uma das evidências mais alarmantes citadas no artigo é a de que “o sudeste da Amazônia, uma das regiões mais desmatadas, já não atua mais como um sumidouro de carbono, mas sim como uma fonte líquida de carbono”. Essa inversão, demonstrada pela pesquisadora Luciana Gatti em 2021, é considerada pelos autores “um sintoma claro da degradação do bioma e da sua perda de funcionalidade ecológica”.
Sinergia de fatores e a amplificação do aquecimento global
O artigo também destaca o papel do aquecimento global como multiplicador de ameaças. De acordo com o IPCC, citado pelos autores, a influência humana — através das emissões de gases de efeito estufa e do uso da terra — é a causa primária do aquecimento global, que amplifica a magnitude de todos os eventos climáticos extremos. No caso amazônico, o aumento da temperatura média global intensifica a energia na atmosfera, tornando as secas naturais (induzidas por El Niño) mais longas e quentes. Assim, a culpa é atribuída não apenas às ações regionais (desmatamento), mas também à inação e às políticas globais de emissões.
A variabilidade natural, representada pelo ENSO, continua a ser um agente causador de secas na Amazônia. Contudo, o consenso dos resultados aponta que esses eventos naturais, em um sistema florestal intacto, seriam menos severos e a recuperação seria mais rápida. A discrepância observada hoje — como as secas de 2015 e 2016 — é resultado da amplificação do El Niño em um ambiente já degradado e mais quente. Os pesquisadores concluem que o fator natural não é o culpado principal pela discrepância, “mas sim o gatilho que revela a fragilidade induzida pelo homem”.
Risco de colapso irreversível
O estudo reforça o alerta feito por Lovejoy e Nobre em 2018 sobre o iminente Ponto de Não Retorno, ou Tipping Point. Esse conceito refere-se a um limiar crítico, após o qual uma pequena perturbação pode levar a uma grande e, muitas vezes, irreversível mudança no estado do sistema. No contexto amazônico, essa transição implica o risco de a floresta tropical secar e se converter em um ecossistema de savana, com implicações catastróficas para o clima global e a biodiversidade. De acordo com os autores, “a degradação e a discrepância observadas no Verão Amazônico estão perigosamente aproximando o bioma desse ponto de inflexão”.
A principal implicação do estudo é a urgência em reorientar as políticas públicas de uso da terra na Amazônia. A integridade florestal deve ser reconhecida não apenas como uma questão ambiental, mas como um imperativo climático e de segurança hídrica regional e global. Os pesquisadores concluem que “a preservação imediata da Amazônia é a única solução viável para mitigar a intensificação dos extremos climáticos e proteger o futuro do seu papel regulador no clima Sul-Americano”.
*Verão Amazônico: uma discrepância climática; de quem é a culpa? – O artigo científico completo está publicado na Revista Caderno Pedagógico, v.23, n.3, p. 01–16, 2026, com DOI: 10.54033/cadpedv23n3-007. O estudo foi recebido em fevereiro de 2026 e aceito para publicação em 23 de fevereiro do mesmo ano.
Francisco dos Santos Nogueira
Mestre em Educação
Instituição: Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Endereço: Manaus, Amazonas, Brasil
E-mail: francisnogueira2013@gmail.com
Maria Perpétua Socorro Jacques Wadick
Mestra em Letras – Linguística
Instituição: Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Endereço: Manaus, Amazonas, Brasil
E-mail: jaquesatn@gmail.com
Coema Praia Gato
Mestranda em Organização e Gestão de Centro Educacionais
Instituição: Centro Universitário Nilton Lins
Endereço: Manaus, Amazonas, Brasil
E-mail: coemapraia1081@outlook.com
Sebastião Rocha de Souza
Doutor em Sociedade e Cultura Amazônicas
Instituição: Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Endereço: Manaus, Amazonas, Brasil
E-mail: sebastian_sousa@yahoo.com.br
João Benilson Gatinho
Doutor em Ciência da Educação e Linguística Aplicada
Instituição: Universidade Federal do Pará (UFPA)
Endereço: Belém, Pará, Brasil
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