Pesquisa internacional liderada por brasileiros revela como a desinformação climática se adapta a contextos locais e sequestra a linguagem acadêmica para fabricar incertezas.
O ano de 2023 entrou para a história como o mais quente já registrado desde o início das medições. Enquanto os termômetros subiam, as redes sociais fervilhavam com uma maré tóxica de mentiras. Um novo estudo publicado na revista científica Vivat Academia mergulhou nesse pântano digital para entender como a desinformação opera. A conclusão é alarmante: os negacionistas não apenas rejeitam a ciência; eles a sequestram.
Liderada por pesquisadores brasileiros da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, a investigação analisou os conteúdos de maior engajamento no Facebook, Twitter (X), Pinterest e Reddit. O grupo examinou publicações em inglês, espanhol e português.
O trabalho, intitulado “A crise climática e as dinâmicas glocais de desinformação”, expõe um fenômeno sofisticado. A mentira deixou de ser amadora. Agora, ela veste jaleco.
A estratégia do “cavalo de troia” científico
Esqueça a imagem do teórico da conspiração gritando sozinho na esquina. A desinformação atual busca legitimidade. Os pesquisadores, entre eles Amanda Medeiros, Luisa Massarani e Igor Waltz, identificaram que uma das táticas mais comuns é a instrumentalização da credibilidade acadêmica.
O estudo aponta que os emissores de notícias falsas “se apresentam como pretensas autoridades discursivas no tema, enquanto instrumentalizam a credibilidade de cientistas, pesquisadores e instituições acadêmicas para conferir legitimidade às narrativas desinformativas”.
Eles citam estudos fora de contexto. Dão voz a “especialistas” dissidentes. Usam termos técnicos. O objetivo não é necessariamente provar uma mentira, mas criar dúvida onde existe consenso. A categoria de desinformação mais frequente encontrada na análise foi justamente a “contribuição com a manufatura da incerteza ou para formação de controvérsias”, presente em 16,1% dos casos.
O fenômeno “glocal”: A mentira tem sotaque
A desinformação viaja o mundo, mas troca de roupa ao cruzar fronteiras. Os autores definem isso como uma dinâmica “glocal” — fluxos globais que ganham características locais específicas.
O estudo dissecou como cada idioma molda a mentira:
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Em inglês: Predomina a política. As narrativas giram em torno de uma suposta “agenda globalista” e ataques às elites, enquadrando a crise climática como uma farsa para controlar a soberania das nações.
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Em espanhol: A fé entra em jogo. Há uma mistura peculiar de pseudociência com religião. Ocorrem citações bíblicas e profecias para explicar o clima, além da deslegitimação de especialistas tratados como “falsos profetas”.
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Em português: A polarização dita o ritmo. O conteúdo é altamente politizado, muitas vezes fatalista, e chega a vincular vacinas ao clima ou alegar fraudes em investimentos ambientais.
Quem está falando?
Ao contrário do que se imagina, a desinformação não nasce apenas em porões obscuros da internet. A mídia joga um papel central.
A pesquisa revela que, somadas, a mídia alternativa (sites partidários, blogs de nicho) e a mídia tradicional (veículos estabelecidos) são responsáveis por disseminar a maior parte desse conteúdo enganoso. “Os principais achados apontam para a predominância de mídias tradicionais e alternativas na difusão de desinformação”, afirmam os autores.
No recorte em português, por exemplo, a mídia alternativa foi a origem de 58,3% dos conteúdos desinformativos analisados, enquanto a mídia tradicional respondeu por 33,3%. Isso sugere que a crise de confiança não atinge apenas a ciência, mas contamina o próprio jornalismo, que às vezes amplifica vozes negacionistas em nome de um falso “outro lado”.
Para Entender Melhor
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O que é BuzzSumo? É a ferramenta utilizada pelos cientistas para rastrear quais links tiveram mais curtidas, compartilhamentos e comentários nas redes sociais durante o ano de 2023.
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O que é IPCC? O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão da ONU cuja autoridade científica é frequentemente atacada ou distorcida pelas narrativas analisadas.
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Quem são os autores? O estudo é assinado por Amanda Medeiros, Igor Waltz, Ricardo Bolzán, Juliana Bulhões, Luisa Massarani, Carolina Moreno, Margoth Mena Young, Chico Quevedo Camargo, Luiz Felipe Fernandes Neves e Thaiane Oliveira .
A indústria da dúvida
O impacto disso é real. Quando a sociedade duvida da ciência, a ação política trava. O estudo conclui que a desinformação “afeta a percepção de urgência em torno da implementação de políticas públicas de intervenção”.
Não se trata apenas de ignorância. É um método. Ao fabricar controvérsias artificiais, esses grupos ganham tempo. Enquanto o debate gira em círculos nas redes sociais sobre se o aquecimento é “bíblico” ou uma “trama globalista”, o planeta continua a esquentar.
A pesquisa deixa um alerta claro: combater a desinformação exige mais do que checagem de fatos (fact-checking). Exige entender a cultura local, a política e, acima de tudo, como a linguagem da ciência está sendo usada contra ela mesma.
A imagem que ilustra a matéria foi feita usando IA.












