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Estudo prova como agrotóxicos da soja estão adoecendo o povo de Mato Grosso

Um dossiê da Fiocruz e CPT aponta que agrotóxicos da soja estão contaminando a água e causando problemas de saúde na Comunidade Cumbaru, em Nossa Senhora do Livramento, MT. Análises mostram níveis de herbicidas até 32 vezes acima do limite europeu.
Estudo da Fiocruz revela como a contaminação da água por agrotóxicos da soja ameaça a saúde de comunidades tradicionais no Cerrado de Mato Grosso.

Dossiê detalha como o veneno usado em lavouras atinge as águas, eleva o risco de câncer e doenças crônicas, e revela a permissividade da lei brasileira em um cenário que pesquisadores classificam como “guerra química” no Cerrado.

Na Comunidade Cumbaru, em Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, a vida ainda pulsa em um ritmo ancestral. É um ritmo marcado pelas festas de santos, pelas danças do cururu e do siriri, e pelo sustento que brota da terra em forma de mandioca, milho e da castanha de cumbaru, o fruto que batiza o lugar. Mas sobre essa rotina, uma sombra química se espraia. Periodicamente, uma nuvem invisível desce sobre as 25 famílias que ali vivem. Traz consigo um “mau cheiro” agudo, dores de cabeça lancinantes e uma dificuldade persistente para dormir, um tormento que atinge com mais força os corpos dos mais velhos. Por muito tempo, foi apenas um sofrimento sem nome. Agora, a ciência deu-lhe uma identidade: é o veneno da soja.

Uma investigação aprofundada, a mais completa sobre o tema, intitulada “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, transformou a percepção em prova. Conduzido por pesquisadores da Fiocruz, em uma aliança com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, o estudo não mede palavras. Ele enquadra a contaminação sistêmica do bioma como um “projeto de extermínio”, no qual os agrotóxicos são as “armas químicas” de uma “guerra” contra os povos que ali vivem.

O que acontece em Mato Grosso é a linha de frente desse conflito. O município de Nossa Senhora do Livramento movimenta quase R$ 20 milhões por ano apenas com a soja, mas seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) de 0,638 revela uma riqueza que não se traduz em qualidade de vida. É nesse cenário de profunda desigualdade que a ciência mergulhou, coletando amostras da água que a comunidade usa para tudo: beber, cozinhar, lavar, viver. Os resultados são um laudo de envenenamento.

As análises confirmaram a presença de dois agrotóxicos: o glifosato, herbicida mais vendido no Brasil, e o 2,4-D. A gravidade da contaminação explode quando se compara a complacência da lei brasileira com os padrões de segurança de outras nações. A concentração de 2,4-D encontrada na água de Cumbaru era 32 vezes superior ao limite máximo tolerado pela União Europeia. No caso do glifosato, a legislação do Brasil chega ao absurdo de permitir uma contaminação 5.000 vezes maior que a europeia. O dossiê é categórico: o que é considerado “legal” aqui, seria um alarme de emergência sanitária lá fora.

Este gráfico expõe a gritante diferença entre a legislação brasileira e a europeia. Para o Glifosato, o valor máximo permitido na água potável no Brasil é 5.000 vezes maior que o da União Europeia. Para o 2,4-D, o limite brasileiro é 300 vezes maior. A visualização utiliza uma escala logarítmica para que a enorme disparidade possa ser comparada no mesmo gráfico.

O laudo científico vai além, dissecando os impactos dessas substâncias no corpo humano. O glifosato é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), da OMS, como “provável carcinógeno para humanos”, com estudos que o associam ao desenvolvimento de câncer de próstata e Linfoma não Hodgkin. Já o 2,4-D é um “possível carcinógeno”, ligado ao surgimento de Linfoma não Hodgkin e sarcomas (câncer nos ossos e partes moles), e um potente desregulador endócrino.

O estudo explica o que isso significa na prática: o 2,4-D interfere no delicado sistema hormonal, responsável por regular o corpo. Sua ação pode “alterar os níveis de gorduras no organismo”, aumentando o risco de “infarto agudo do miocárdio, obesidade e diabetes tipo 2”, e desregular hormônios essenciais, causando “problemas no ciclo menstrual, ovulação e fertilidade”. Para compostos com essa capacidade destrutiva, os pesquisadores alertam que não há dose segura. “Qualquer nível de exposição diferente de zero é suficiente para causar dano à saúde”, crava o documento.

Essa contaminação não é um acidente, mas o resultado de uma arquitetura de negligência política e econômica. O dossiê rastreia as origens do problema até a chamada “Revolução Verde”, quando o Estado brasileiro, durante a Ditadura Militar, adotou um modelo agrícola baseado na monocultura para exportação. Esse modelo, hoje hegemônico, é sustentado por uma legislação deliberadamente frouxa e por incentivos fiscais que beneficiam o mercado bilionário de agrotóxicos.

Este gráfico demonstra a escalada vertiginosa na aprovação de novos registros de agrotóxicos no país ao longo dos últimos anos. Fica evidente a aceleração a partir de 2016, com o número de novos produtos mais do que dobrando e atingindo um pico de 652 novos registros em 2022.

O estudo critica duramente o “desmonte do sistema tripartite” de registro, que antes exigia o aval dos ministérios da Saúde (Anvisa) e Meio Ambiente (MMA), além da Agricultura (Mapa), e hoje concentra o poder de liberação no Mapa, um órgão historicamente alinhado aos interesses do agronegócio. Some-se a isso o fato de que a lei brasileira ignora o “efeito coquetel”, a potencialização dos danos quando múltiplos venenos estão presentes na mesma amostra de água, uma realidade encontrada em diversas comunidades do Cerrado.

Aqui, visualizamos os “campeões de vendas”. O Glifosato lidera com um volume comercializado muito superior aos demais, seguido pelo 2,4-D. Todos os 10 ingredientes ativos listados possuem autorização de uso na cultura da soja, o que reforça o peso deste cultivo no consumo de agrotóxicos.

O que o dossiê prova, em última análise, é que o sofrimento da Comunidade Cumbaru não é um caso isolado, mas o sintoma de uma doença nacional. É a evidência de um modelo que, para garantir o lucro da soja, contamina o berço das águas do Brasil e sacrifica a saúde de seu povo. É a crônica de uma guerra silenciosa, onde as vítimas sentem o veneno no corpo muito antes de qualquer laudo poder nomeá-lo.

 

Para entender melhor:

  • Agrotóxicos: Produtos químicos usados para combater pragas na agricultura. O termo “veneno” é como as comunidades afetadas frequentemente se referem a eles.
  • Glifosato: O herbicida mais popular do país, amplamente utilizado em lavouras de soja transgênica para eliminar plantas daninhas.
  • 2,4-D: Herbicida hormonal que provoca a morte de plantas de folhas largas, também comum em cultivos de grãos.
  • Carcinógeno: Qualquer agente com capacidade de provocar câncer em humanos.
  • Desregulador endócrino: Substância que altera as funções do sistema hormonal, responsável pela regulação de processos como reprodução, desenvolvimento e metabolismo.

O caso da Comunidade Cumbaru é a materialização de um conflito brutal. O dossiê classifica o uso indiscriminado de agrotóxicos como “armas químicas” e ecoa a denúncia de um “Eco-Genocídio do Cerrado”. A água que corre em Nossa Senhora do Livramento, contaminada e perigosa, é a prova de que, para gerar milhões em commodities, o agronegócio em Mato Grosso está deixando um rastro de doença e transformando territórios de vida em zonas de sacrifício.

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