Ir para o conteúdo
Pesquisar
Close this search box.

Novo índice mede conexão ecológica em fazendas

Guia lançado em dezembro de 2025 pela Javeriana e CGIAR estabelece a Estructura Agroecológica Principal (EAP) como métrica para avaliar a resiliência e conectividade de fazendas.
Estructura Agroecológica Principal

Ferramenta desenvolvida na Colômbia avalia sustentabilidade unindo dados biológicos e culturais no combate à crise climática

A agricultura moderna enfrenta um dilema silencioso. Enquanto produtores adotam discursos verdes, suas terras muitas vezes permanecem ilhas isoladas de biodiversidade. Para romper esse isolamento, um novo relatório técnico, lançado em dezembro de 2025, propõe uma métrica rigorosa: a Estructura Agroecológica Principal (EAP). O estudo*, conduzido pela Pontificia Universidad Javeriana em parceria com a Alianza Bioversity & CIAT, oferece um raio-x detalhado sobre como fazendas de cacau e gado interagem — ou falham em interagir — com a floresta ao redor.

A aplicação da EAP, testada nos municípios de Belén de los Andaquíes e La Montañita, no departamento de Caquetá, revelou um cenário de contrastes. O índice não olha apenas para o solo ou para as plantas. Ele cruza a geografia com a sociologia. A metodologia baseia-se na premissa de que uma fazenda não opera no vácuo. “A fazenda não é um sistema fechado, mas, pelo contrário, está em constante interação com seu entorno”, destaca o documento técnico do Climate Action Science Program.

O abismo entre consciência e prática

Os pesquisadores avaliaram 13 propriedades rurais. O resultado expôs uma fratura na realidade do campo. Os critérios culturais — que medem o conhecimento e a consciência ambiental do produtor — obtiveram notas altas. No entanto, os critérios ecossistêmicos, como a presença de cercas vivas e corredores de vegetação, ficaram aquém do necessário.

Em muitas propriedades, a intenção de preservar existe, mas a infraestrutura verde não acompanha essa vontade. A análise das fazendas mostrou que a maioria apresenta “baixo percentual de cercas vivas tanto internas quanto externas”. Isso afeta diretamente a conectividade. Sem esses corredores, polinizadores e inimigos naturais de pragas não circulam. A fazenda torna-se, assim, mais vulnerável a doenças e menos resiliente às mudanças climáticas.

Como funciona a métrica

A EAP opera como uma auditoria ambiental e social. Ela atribui uma nota final de 0 a 100 para a propriedade. O cálculo depende de dez variáveis distintas, divididas em dois blocos de peso igual. O primeiro bloco foca na estrutura física. Ele mede, por exemplo, a distância entre a lavoura e os fragmentos de mata nativa. Também avalia a extensão e a diversidade das cercas vivas que delimitam o terreno.

O segundo bloco analisa o fator humano. Ele investiga o uso do solo, as práticas de manejo agrícola e a “capacidade para a ação” do produtor. Este último ponto é crucial. Ele verifica se o agricultor tem recursos financeiros e logísticos para manter a biodiversidade. Não adianta desenhar uma paisagem ideal se não houver dinheiro ou mão de obra para mantê-la.

Um diagnóstico de Caquetá

O estudo de caso na Amazônia colombiana serve de alerta para outras regiões tropicais. As fazendas de cacau, em geral, saíram-se melhor que as de pecuária. O sistema agroflorestal do cacau, por natureza, exige sombreamento e variedade de espécies. Já a pecuária, mesmo em transição, ainda luta contra a herança do pasto limpo.

Na “Finca 2”, uma produtora de cacau em Belén de los Andaquíes, a EAP atingiu 74 pontos. O relatório classifica essa propriedade como “fortemente desenvolvida”. Lá, a diversidade de conectores externos recebeu nota máxima. Por outro lado, a “Finca 4”, dedicada à pecuária, somou apenas 44 pontos. A ausência total de cercas vivas zerou três dos cinco critérios ecossistêmicos, apesar de o produtor ter demonstrado alto grau de consciência ambiental.

A importância do entorno

A metodologia enfatiza o conceito de “Estrutura Ecológica Principal” da paisagem. O guia instrui o avaliador a desenhar um círculo de influência ao redor da fazenda. O objetivo é ver o que existe fora da porteira. “Quanto mais próxima estiver de florestas e áreas com grande vegetação, mais os cultivos podem se beneficiar”, aponta o texto.

Essa visão integrada combate a ideia de produtividade a qualquer custo. O guia sugere que áreas de vegetação natural, como arbustais e herbazais, não são “mato sujo”. Elas oferecem habitat para organismos que controlam pragas. O documento alerta que monocultivos extensos, ao contrário, “apresentam menos oportunidades para albergar inimigos naturais”.

Ferramenta para o futuro

A publicação deste guia em dezembro de 2025 não é um evento acadêmico isolado. Ele responde a uma demanda por ferramentas práticas de adaptação climática. O índice permite que técnicos e agricultores identifiquem onde investir. Se a consciência é alta, mas a conexão é baixa, o investimento deve ir para o plantio de árvores nas bordas.

Para o produtor, a EAP funciona como um mapa de navegação. “É uma ferramenta útil para um desenho e um planejamento muito mais resiliente dos prédios”, afirmam os autores. A meta é transformar propriedades vulneráveis em sistemas robustos. Em um cenário de clima instável, saber exatamente onde a fazenda falha em sua ecologia pode ser a diferença entre o lucro e a perda da safra.

Entenda os 10 Critérios da EAP

O índice soma as notas (0 a 10) de cada item abaixo. A soma total (0 a 100) define o grau de desenvolvimento agroecológico.

Critérios Ecossistêmicos (A estrutura física):

  • Conexão com a paisagem (CEEP): Quão perto a fazenda está de matas nativas e água.

  • Conectores Externos (ECE): Porcentagem do perímetro da fazenda coberto por cercas vivas.

  • Conectores Internos (ECI): Porcentagem das divisões internas (entre pastos/cultivos) com cercas vivas.

  • Diversidade Externa (DCE): Riqueza de espécies e alturas (estratos) nas cercas do perímetro.

  • Diversidade Interna (DCI): Riqueza de espécies nas cercas internas.

Critérios Culturais (O fator humano):

  • Uso do Solo (US): Porcentagem da área dedicada a policultivos ou conservação.

  • Práticas de Manejo (PMa/PMg): Uso de técnicas ecológicas na agricultura ou pecuária.

  • Conservação (PRC): Ações para proteger solo, água e biodiversidade.

  • Consciência (CON): Entendimento do produtor sobre os benefícios da biodiversidade.

  • Capacidade de Ação (CA): Recursos financeiros, logísticos e políticos para melhorar a fazenda.

*Guía metodológica para la aplicación de la Estructura Agroecológica Principal en el estudio de agroecosistemas.

Neidy Lorena Clavijo Ponce, Amaranta Ruiz Martínez, Luz
Angela Rodriguez, Martha Vanegas-Cubillos.

Leia também:

PF intercepta 391 kg de drogas do CV em carga da Conab

Fechamento surpresa de russa abala agro em MT

Mercosul-UE: carnes de MT têm porta aberta, mas exigências pesam

Esposa de ex-vereador denuncia calúnia em rede social

Educação ambiental climática ganha força no brasil sob pressão de extremos

[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA