Estudo revela como a pedagogia da alternância na Escola Família Agrícola de Natalândia incentiva práticas sustentáveis e abre debate sobre o futuro dos jovens no campo.
Em Natalândia, no noroeste de Minas Gerais, uma semente de mudança está brotando. A Escola Família Agrícola (Efan) não apenas educa jovens do assentamento Saco do Rio Preto, mas os transforma em agentes da agroecologia, levando para casa um modelo de agricultura que desafia a lógica convencional e redesenha o futuro de suas comunidades. Um estudo detalhado, conduzido por Deleon Geraldo Pereira de Carvalho, mergulhou nessa realidade e revelou como a educação contextualizada está impactando diretamente as práticas no campo.
A pesquisa, que ouviu todos os doze alunos do ensino médio da Efan moradores do assentamento, mostra um cenário complexo: ao mesmo tempo em que a escola fortalece a agricultura sustentável, ela também expõe as dificuldades que levam os jovens a questionar sua permanência na terra.
Uma herança de luta
O Projeto de Assentamento Saco do Rio Preto não nasceu do acaso. Ele é fruto de um processo de 17 anos de ocupação e luta pela terra, marcado pela forte participação das mulheres, muitas das quais ainda vivem na comunidade. Desde o início, as famílias assentadas sonhavam com uma educação que fizesse sentido para sua realidade, uma escola que valorizasse o campo. A Efan, criada em 2003, materializou esse desejo.
Para as famílias, a escola surgiu como uma “possibilidade concreta de realizar o sonho de uma educação de qualidade, alinhada à realidade das famílias assentadas”, conforme destacam Assis, Honotório e Souza. A instituição fincou suas raízes em um solo fértil de esperança, mas também de desafios, como o desgaste da terra pelo modelo convencional e a falta de recursos financeiros.
A sala de aula que se alterna
O segredo do impacto da Efan está em sua metodologia: a pedagogia da alternância. Os alunos passam 15 dias na escola, em imersão teórica e prática, e outros 15 dias em casa, aplicando o que aprenderam junto de suas famílias. Esse ciclo contínuo de aprendizado e ação é o que torna a educação viva e transformadora.
Não por acaso, 67% dos estudantes entrevistados afirmaram que escolheram a Efan justamente por seu modelo de ensino. A maioria dos alunos é do sexo feminino (75%) e tem entre 14 e 19 anos (59%). A escola se tornou um polo de atração para jovens que, de outra forma, poderiam ter abandonado os estudos ou o campo.
O campo em transformação
Os resultados do estudo são contundentes. Nada menos que 92% dos alunos afirmaram que as práticas agropecuárias e ambientais em suas propriedades melhoraram depois que ingressaram na Efan. A teoria aprendida na escola não fica no caderno; ela vira horta, criação de animais e novas formas de manejar o solo.
Esse movimento de dentro para fora é visível: 83% dos jovens ajudam ativamente a família nas atividades agrícolas durante o período em casa. Mais do que isso, 75% utilizam os conhecimentos adquiridos para orientar os pais, promovendo uma valiosa troca de experiências entre gerações. A escola, assim, cumpre seu papel de “desenvolvimento do meio”, um de seus pilares fundamentais, onde o conhecimento popular se une à ciência moderna para fortalecer a agricultura familiar.
O desejo de mudança é palpável. Questionados sobre o que gostariam de implementar em suas propriedades, 42% dos estudantes mencionaram o sonho de criar uma agrofloresta, enquanto 25% planejam ter uma horta orgânica.
O futuro em disputa
Apesar do otimismo, um paradoxo assombra a comunidade. Mas será que o aprendizado na escola é suficiente para fixar o jovem na terra? Os dados mostram que a decisão é complexa. Enquanto 42% das famílias manifestam o desejo de que todos permaneçam na propriedade, uma parcela significativa dos jovens considera sair. Cerca de 25% relatam que os próprios pais os incentivam a buscar estudos na cidade, e outros 33% expressam o desejo de sair por iniciativa própria.
A dificuldade de gerar renda e a falta de políticas públicas de apoio são apontadas como os principais entraves. A maioria das famílias (67%) pratica uma agricultura de subsistência, produzindo apenas para o próprio consumo. “É muito difícil ganhar dinheiro morando em suas propriedades, por isso há o pensamento de sair para buscar novos caminhos”, relataram os entrevistados durante a pesquisa.
Uma ciência para o futuro?
Para os estudantes, a agroecologia é vista com esperança, mas também com realismo. A maioria (58%) a enxerga como uma “alternativa para o futuro”, enquanto 25% a consideram “difícil de colocar em prática”. Essa percepção reflete a realidade de um processo de transição que, segundo especialistas como Caporal e Costabeber, é lento e depende não apenas de técnica, mas de uma profunda “mudança de costumes”.
As famílias, por sua vez, estão cada vez mais abertas. A pesquisa mostra que 58% delas acreditam que o modelo agroecológico pode trazer resultados positivos para a comunidade. Aos poucos, a Efan, por meio de seus alunos, vai quebrando resistências e provando que é possível produzir de forma mais sustentável e integrada à natureza.
A conclusão do estudo é clara: a troca de experiências entre escola, alunos e famílias está gerando resultados positivos e transformando a realidade das propriedades no assentamento Saco do Rio Preto. A Efan não oferece respostas prontas, mas fomenta a construção de um novo caminho, onde a educação se torna a ferramenta mais poderosa para cultivar um futuro mais justo e sustentável no campo.
PARA ENTENDER MELHOR:
- Agroecologia: É uma ciência e uma prática agrícola que busca criar sistemas de produção de alimentos sustentáveis. Ela não se concentra apenas em técnicas de plantio sem agrotóxicos, mas também valoriza o conhecimento tradicional dos agricultores, a justiça social, a economia local e a preservação do meio ambiente.
- Pedagogia da Alternância: É um método de ensino desenvolvido para a educação no campo. Nele, o estudante alterna períodos de estudo na escola com períodos de trabalho e aplicação prática em sua propriedade e comunidade. O objetivo é conectar o aprendizado formal à realidade vivida pelo aluno.
- Assentamento de Reforma Agrária: É uma área de terra que foi desapropriada pelo governo por não cumprir sua função social e destinada a famílias de trabalhadores rurais sem-terra. O objetivo é democratizar o acesso à terra e promover a agricultura familiar.












