Estudo revela que, apesar dos esforços, falta de foco em professores e na região que mais gera resíduos compromete avanços reais na gestão do lixo no país
Até 2050, o mundo pode gerar assustadores 4 bilhões de toneladas de lixo por ano se os padrões de consumo não mudarem, um alerta feito pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). No Brasil, onde a urbanização avança de forma frenética e mais da metade da população já vive em grandes centros, a gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) é mais que um desafio; é uma emergência. É nesse cenário, quase apocalíptico, que uma criteriosa revisão de estudos brasileiros, publicada recentemente na revista Caderno Pedagógico por Ellaine Christina Mofati Andrade de Oliveira, Katia Eliane Santos Avelar e Riudo De Paiva Ferreira, joga luz sobre o papel da Educação Ambiental como ferramenta de transformação, mas, ao mesmo tempo, expõe as profundas contradições que impedem o país de avançar.
O estudo, que analisou 12 pesquisas publicadas entre 2018 e 2024 , reafirma o que muitos intuem: educar é o caminho para mudar paradigmas e posturas. Contudo, os dados revelam que as estratégias atuais podem estar mirando nos alvos errados, com uma eficiência bem abaixo da necessária para conter a crise.
O mapa do descaso
A análise geográfica dos estudos sobre educação e resíduos revela uma desconexão preocupante. A região Sudeste, motor econômico do país, é responsável por quase metade (49,7%) de todos os resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil, segundo dados de 2022 da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). Apesar disso, o levantamento mostra que a região é sub-representada nas pesquisas acadêmicas sobre o tema, que se concentram majoritariamente no Nordeste (com 34% dos trabalhos analisados).
Essa discrepância é gritante e sugere que o foco da produção científica, que deveria guiar as políticas públicas, não está alinhado com a área mais crítica do problema. Para piorar, nenhuma pesquisa da região Centro-Oeste foi encontrada no escopo da análise, deixando um vácuo de conhecimento sobre uma área que ainda assim gera 7,5% do lixo nacional. Como podemos formular soluções eficazes se não estamos estudando o problema onde ele é maior? A pergunta fica no ar, ecoando a necessidade de direcionar os esforços de pesquisa de forma mais estratégica.
Na sala de aula, quem ensina?
Quando a lupa da pesquisa se volta para o público-alvo das ações de Educação Ambiental, outra questão fundamental emerge. A esmagadora maioria das iniciativas foca nos alunos: cerca de 42% dos estudos encontrados tinham os discentes, do ensino fundamental ao superior, como foco principal de suas ações. A ideia é transformar o estudante em um protagonista da mudança, que leva o conhecimento para casa e impacta sua comunidade.
A estratégia é válida, mas tropeça em um obstáculo silencioso e decisivo: a carência de professores devidamente capacitados para a missão. Apenas 17% dos trabalhos analisados tinham os docentes como público-alvo. Esse dado, embora pareça apenas um número, representa o elo mais fraco da corrente. De que adianta ter alunos engajados se os professores não recebem formação contínua e ferramentas adequadas para conduzir um debate tão complexo, que vai da compostagem à economia circular? O investimento na formação de educadores, como aponta o estudo, é um investimento direto na melhoria da sociedade e do meio ambiente.
Para entender melhor: Os ODS em jogo
O estudo se alinha a dois Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU:
- ODS 4 (Educação de Qualidade): Visa garantir uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade para todos, promovendo a aprendizagem ao longo da vida.
- ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis): Propõe garantir padrões de produção e de consumo sustentáveis, buscando reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso.
Do discurso à lixeira
As práticas mais recomendadas nos estudos analisados são a compostagem e a reciclagem, que juntas somam mais de 60% das soluções apontadas. O potencial é imenso. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR), mais da metade do lixo que produzimos em casa é orgânico. A compostagem, uma técnica simples e de fácil manejo, poderia transformar esse volume em adubo natural, gerando valor e reduzindo o impacto nos aterros.
Contudo, a realidade é um balde de água fria. Menos de 2% de todo resíduo sólido urbano produzido no Brasil é efetivamente encaminhado para reutilização ou reciclagem. O desperdício é monumental. A existência de um marco legal robusto, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), parece não ser suficiente para garantir sua aplicabilidade. Para que a coleta seletiva e a reciclagem funcionem, é preciso o envolvimento efetivo da população e o engajamento de gestores públicos e privados , que representaram 33% do público-alvo dos estudos.
A pesquisa das autoras Ellaine Christina Mofati Andrade de Oliveira e colegas deixa um recado claro: sem um plano que mire nos gargalos corretos, que capacite professores e direcione recursos e pesquisas para as áreas mais críticas, a Educação Ambiental corre o risco de se tornar apenas um eco de boas intenções. A união de esforços entre escolas, gestores e comunidade não é uma opção, mas a única saída para que o Brasil consiga, de fato, alcançar as metas da Agenda 2030 e transformar sua montanha de lixo em um ciclo de sustentabilidade.
Leia também: A rota milionária da cultura: os elos de uma associação com capital zero e um deputado generoso
Leia também: Senado aprova controverso PL 2.159 sob forte oposição de especialistas
Quer se informar sobre meio ambiente em MT? Ouça o Pod Lupa na mata:












