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Economia circular: Estudo da UFRN vincula futuro climático à valorização dos catadores

economia circular e catadores

Pesquisa de Silvana Amorim detalha como o fim da lógica “extrair e descartar” depende da inclusão socioprodutiva de quem vive da reciclagem

O modelo econômico tradicional atingiu seu limite físico e ético. A lógica linear de extrair recursos, produzir bens e descartar resíduos não apenas esgota o planeta, mas aprofunda abismos sociais. Esta é a premissa central do trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) por Silvana Luiza Torquato Silva Amorim. Intitulado “Economia Circular e a sua Importância para o Meio Ambiente”, o estudo de 2025 vai além da teoria acadêmica. Ele aponta a valorização dos catadores de materiais recicláveis como a única engrenagem capaz de fazer a economia circular girar de verdade no Brasil.

O diagnóstico é severo. Vivemos em uma “sociedade do desperdício”, termo recuperado de Zygmunt Bauman pela autora. A modernidade líquida nos condicionou a substituir produtos não pela falha funcional, mas pela obsolescência simbólica. O resultado é visível nas cidades brasileiras: aterros saturados, contaminação do solo e eventos climáticos extremos.

Amorim destaca um dado alarmante para quem ainda vê a reciclagem como algo menor. Cerca de 45% das emissões globais de gases de efeito estufa estão atreladas à produção, uso e descarte de materiais. A transição energética resolve apenas metade do problema. A outra metade exige mudar como lidamos com a matéria.

O mito da inesgotabilidade

A indústria operou por décadas sob a falsa premissa de que a natureza seria um almoxarifado infinito. O estudo da UFRN desmonta essa visão. A economia circular propõe um sistema regenerativo. O resíduo deixa de ser lixo. Ele vira nutriente para um novo ciclo produtivo.

Isso exige redesenhar processos. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) indica que 76,5% das empresas brasileiras já adotam alguma iniciativa circular. O número parece alto, mas esconde uma realidade incipiente. Muitas ações são isoladas. Faltam conexões sistêmicas que transformem o design do produto desde a prancheta até o seu retorno à fábrica.

A autora cita o potencial desperdiçado da biomassa no Brasil. Bagaço de cana, casca de coco e palha de milho poderiam gerar bioplásticos e energia limpa. Hoje, boa parte disso ainda vira passivo ambiental ou é subutilizada. A economia circular transforma essa “sobra” em ativo financeiro e proteção climática.

A força invisível da reciclagem

O ponto alto da pesquisa reside na análise humana. A tecnologia sozinha não fecha a conta da circularidade. Quem fecha são as mãos de milhares de catadores e catadoras. Historicamente marginalizados e associados à limpeza de “dejetos”, esses trabalhadores são, na prática, agentes ambientais não remunerados adequadamente.

Amorim argumenta que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) trouxe avanços legais, mas a realidade das ruas respira precariedade. A maioria desses profissionais enfrenta riscos sanitários diários e baixa remuneração. O estudo defende que não existe economia circular justa sem a inclusão socioprodutiva dessa categoria.

Eles realizam a triagem fina que máquina nenhuma consegue fazer com a mesma eficiência no contexto brasileiro. Reconhecer o resíduo como bem econômico significa, obrigatoriamente, reconhecer o catador como prestador de serviço público essencial. As cooperativas precisam deixar de ser refúgios de sobrevivência para se tornarem parceiros contratuais de prefeituras e indústrias.

Políticas públicas e o futuro

A legislação avança, ainda que a passos lentos. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares) estabelece a meta de recuperar 50% dos resíduos em 20 anos. Hoje, o Brasil recicla pouco mais de 2%. O abismo entre a meta e a realidade só será transposto com educação ambiental massiva e vontade política.

O trabalho de Silvana Amorim serve como um alerta qualificado. A economia circular não é uma opção estética para relatórios de sustentabilidade. É uma estratégia de sobrevivência. Ou o Brasil integra seus catadores e fecha o ciclo dos materiais, ou continuará enterrando bilhões de reais em aterros sanitários enquanto o clima cobra a fatura.

A imagem que ilustra essa matéria foi feita usando IA.

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