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Comunicação Ambiental no Brasil vive paradoxo: o tema explode, mas a teoria silencia

Levantamento inédito mostra que a "Comunicação Ambiental" no Brasil é um campo fragmentado e com pouca produção teórica específica. Estudo critica o uso instrumental da comunicação por empresas e destaca o jornalismo e os saberes indígenas como focos de resistência e crítica real.
desafios da pesquisa ambiental brasileira

Enquanto o discurso verde domina o mercado e as redes, a pesquisa acadêmica sobre o tema enfrenta fragmentação e uma visão utilitarista que freia o debate crítico.

Várzea Grande (MT) — O meio ambiente nunca esteve tão presente na boca do povo, nas manchetes e nas propagandas de empresas que juram amores pela sustentabilidade. Seria lógico imaginar, portanto, que a “Comunicação Ambiental” estivesse consolidada como um campo robusto de estudo no Brasil. Não é o que acontece. Um levantamento minucioso, publicado agora em novembro de 2025 no Journal of Science Communication – América Latina, expõe uma realidade contraditória: a teoria não acompanhou o barulho das ruas.

A pesquisadora Eloisa Beling Loose* mergulhou nos arquivos da produção científica nacional e voltou com um diagnóstico preocupante. O termo “Comunicação Ambiental” é um fantasma nas prateleiras virtuais.

Ao vasculhar o Portal de Periódicos da Capes em busca da expressão exata em títulos, o resultado foi escasso. Entre 2001 e fevereiro de 2025, apenas 18 artigos carregavam esse nome. Quando o foco mudou para teses e dissertações na Biblioteca Digital Brasileira, o cenário foi similar: somente dois doutorados e 12 mestrados foram identificados com a nomenclatura específica.

Isso não significa que o assunto não seja debatido. Ele está lá, mas disperso, fragmentado e, muitas vezes, refém de uma visão puramente instrumental.

O abismo entre a ferramenta e a reflexão

O problema central não é apenas a quantidade, mas a qualidade do enfoque. O estudo aponta que boa parte do que se produz sob esse guarda-chuva encara a comunicação apenas como uma ferramenta de transmissão. É o famoso “mandar o recado”.

Muitos trabalhos, vindos de áreas como Gestão ou Engenharia Ambiental, tratam a comunicação como um apêndice da educação ou da sensibilização. Títulos de dissertações recentes mostram propostas de cartilhas ou planos para “conscientizar turistas”. Embora válidas, essas abordagens limitam o potencial transformador da área.

Nesse contexto, a comunicação vira um braço operacional. Serve para cumprir normas, como a ISO 14001, ou para polir a reputação de corporações. É o que a pesquisadora chama de perspectiva pragmática.

Sobre esse risco de esvaziamento, o texto traz um questionamento duro feito por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ainda em 2014, que ecoa até hoje:

“[…] até que ponto a Comunicação Ambiental representaria uma viração, que ultrapassaria o nível informacional, a construção de marcas, o estímulo à compra e a descrição de atributos dos produtos, a sedução da mente e da alma, para se tornar a responsável pela transparência das empresas, dos produtos, da realidade de consumo possível na moldura da crise ambiental?”

Jornalismo: a vanguarda crítica

Curiosamente, quem segurou a barra do debate teórico mais denso no Brasil foi o jornalismo. Enquanto a “Comunicação Ambiental” genérica patinava, o “Jornalismo Ambiental” criou casca e identidade própria.

A cobertura da Eco-92, no Rio de Janeiro, foi o divisor de águas. Desde então, jornalistas e acadêmicos começaram a entender que cobrir meio ambiente exigia mais do que relatar fatos; exigia compreender sistemas complexos.

No Rio Grande do Sul, o movimento foi pioneiro. A criação do Núcleo de Ecojornalistas, em 1990, marcou uma postura de engajamento que rejeitava a neutralidade fria diante da destruição da natureza.

Eloisa Loose destaca que esse subcampo avançou porque entendeu cedo que o meio ambiente possui um saber específico. Não é apenas mais uma editoria. As bases epistemológicas desenvolvidas ali — contextualização, pluralidade de vozes e responsabilidade com a mudança de pensamento — mostram um caminho que a comunicação corporativa, muitas vezes, ignora.

O olhar do Sul Global

Outro ponto nevrálgico levantado pelo estudo é a nossa dependência de modelos estrangeiros. A área ainda é fortemente marcada por influências da Europa e dos Estados Unidos.

No entanto, o Brasil e a América Latina possuem uma riqueza única que começa a pedir passagem. Movimentos sociais, povos indígenas e comunidades tradicionais praticam uma comunicação poderosa, embora raramente usem o termo “ambiental”. Eles falam em “etnomídia”, “comunicação indígena” ou “bem viver”.

Essa comunicação não busca vender um produto verde. Ela luta pela existência. É uma visão que confronta a lógica colonial de que a natureza é um recurso a ser explorado até a exaustão.

O pesquisador Alberto Acosta resume bem essa filosofia alternativa que inspira uma comunicação mais profunda:

“[…] ao haver somado histórias de lutas, de resistência e de propostas de mudanças, e ao nutrir-se de experiências locais, às que deverão somar-se contribuições provenientes de diversas latitudes, posiciona-se como um ponto de partida para estabelecer democraticamente sociedades sustentáveis.”

Os três caminhos do ambientalismo

Para entender onde a comunicação se encaixa, é preciso olhar para como a sociedade enxerga a natureza. O estudo recupera a classificação clássica de Martínez Alier, que divide o ambientalismo em três correntes. A comunicação brasileira transita, muitas vezes de forma confusa, entre elas.

As três visões que disputam a narrativa

  • O culto ao silvestre: Foca na preservação da natureza intocada. É a visão clássica dos primeiros parques nacionais.

  • O evangelho da ecoeficiência: Acredita que a tecnologia e o mercado vão nos salvar. É aqui que reside a maior parte da comunicação corporativa e do “marketing verde”.

  • O ecologismo dos pobres: Uma visão política. Entende que o modelo de desenvolvimento atual destrói a natureza e, com ela, as populações mais vulneráveis. É a luta por justiça social e ambiental.

O desafio da identidade

A pesquisa de 2025 deixa claro: a Comunicação Ambiental no Brasil é um termo em disputa. Ou, pior, um termo evitado.

Muitos pesquisadores preferem se abrigar sob o guarda-chuva da “Educação Ambiental” ou do “Jornalismo”. Isso gera uma dispersão perigosa. Sem uma unidade teórica, fica difícil combater o greenwashing ou propor políticas públicas sérias de comunicação.

A colonialidade ainda dá as cartas. A ideia de que a natureza existe para servir ao homem (antropocentrismo) domina as narrativas, mesmo quando tentam parecer sustentáveis. O salto necessário seria para o biocentrismo — colocar a vida no centro.

O estudo conclui com um alerta. Enquanto a academia não sistematizar esses conhecimentos e abraçar uma perspectiva crítica, latino-americana e engajada, a comunicação ambiental continuará sendo, majoritariamente, uma ferramenta de gestão empresarial. E a crise climática exige muito mais do que um bom press release.

*Comunicação Ambiental no Brasil: uma área plural e diversa

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