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Como a transição verde exporta seus custos para o Sul Global

Pesquisa acadêmica publicada pela Universidade Federal do Vale do São Francisco mostra que a transição para energias renováveis reproduz lógicas coloniais ao transferir custos ambientais para territórios do Sul Global. Mineração de lítio, parques eólicos e solares avançam sobre territórios de comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares por meio de arrendamentos assimétricos, licenciamentos permissivos e narrativas de greenwashing. O estudo conclui que descarbonização sem justiça energética aprofunda desigualdades históricas
colonialismo energético no Sul Global

Pesquisa* acadêmica mostra que a descarbonização do planeta está sendo paga com territórios, água e modos de vida de comunidades indígenas, quilombolas e agricultores familiares na América Latina — incluindo o Semiárido brasileiro

A narrativa dominante sobre a transição energética é sedutora: substituir combustíveis fósseis por energia solar, eólica e veículos elétricos seria o caminho para salvar o clima. O que essa narrativa omite, porém, é a pergunta mais incômoda: quem paga a conta da “energia limpa”?

Uma revisão integrativa publicada na Revista Inclusiones por pesquisadores da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) responde a essa questão de forma crua. A conclusão central: a transição energética, como está estruturada hoje, redistribui os custos ecológicos da descarbonização para territórios do Sul Global — comunidades indígenas, quilombolas, agricultores familiares e populações ribeirinhas que concentram os riscos enquanto os centros industriais capturam os benefícios.

O estudo analisou 31 referências científicas de alto impacto publicadas entre 2019 e 2026, em bases como SciELO, Scopus, Web of Science e PubMed, cobrindo conflitos em toda a América Latina — com recorrência específica ao Nordeste brasileiro e ao Triângulo do Lítio formado por Argentina, Bolívia e Chile.

Água como moeda de troca pelo clima

O caso mais documentado é o do Triângulo do Lítio — a região que abrange os salares de Argentina, Bolívia e Chile e concentra mais de 50% das reservas mundiais do mineral, insumo básico para baterias de carros elétricos e armazenamento de energia renovável.

A expansão da mineração de lítio nessa região converteu a disputa pela água em eixo central do conflito. Em ecossistemas áridos, onde comunidades andinas organizam sua agricultura, criação e vida cultural em torno do acesso a aquíferos e salares, a extração do mineral consome volumes expressivos de água e altera o equilíbrio hidrológico local.

Pesquisadores como Balcázar e Argento documentaram o que chamam de “governança da despossessão”: processos regulatórios e contratuais são mobilizados para converter conflitos de soberania territorial em problemas “técnicos” de gestão e mitigação. Em termos práticos, significa que a discussão sobre quem tem direito à água é deslocada para arenas administrativas onde a linguagem especializada e os prazos burocráticos sistematicamente favorecem os atores corporativos.

O resultado é um padrão: a “criticidade” do lítio na cadeia global de baterias reordena as prioridades dos Estados nacionais, que passam a tratar a integridade territorial e hídrica como “custo aceitável” da inserção na economia da descarbonização.

Parques eólicos no Nordeste: a “energia limpa” de quem?

No Semiárido brasileiro, o mesmo padrão se reproduz em outro setor. A expansão de grandes parques eólicos e solares em territórios rurais do Nordeste ocorre, segundo a pesquisa, predominantemente por meio de contratos de arrendamento assimétricos que deslocam custos para comunidades com menor poder de negociação.

Os estudos identificam mecanismos combinados: pressões econômicas e insegurança fundiária sobre agricultores familiares; linguagem contratual opaca; mediação por intermediários locais com promessas de benefício difuso; e baixíssima participação substantiva nas decisões. O resultado vai além da instalação dos equipamentos — a literatura registra disputas sobre circulação e acesso, fragmentação de áreas comuns, mudança nas economias locais e reconfiguração das relações comunitárias.

O pesquisador Alexander Dunlap vai além ao descrever certas implementações de renováveis como “imposição infraestrutural”, isto é, reorganização de territórios por coerção legal, securitização e produção de consentimento assimétrico.

Necropolítica ambiental: quem decide quem vive em território saudável

Para compreender a dimensão mais perturbadora desse processo, os autores recorrem ao conceito de necropolítica — formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe — e o transpõem para o campo ecológico. A pergunta que orienta a análise é direta: quando projetos de energia decidem quais territórios serão expostos à toxicidade, à escassez hídrica e ao deslocamento populacional para que outros usufruam de “energia limpa”, isso constitui uma forma de poder soberano sobre a vida e a morte?

A pesquisa argumenta que sim. E que esse poder raramente opera por decreto — opera por procedimentos normalizados: licenciamento permissivo, consultas públicas formalistas, contratos assimétricos de arrendamento, criminalização de defensores territoriais, invisibilização estatística de danos cumulativos.

Essa dinâmica se articula com o que o teórico Rob Nixon chama de “violência lenta” — aquela que ocorre de forma gradual e fora do campo de visibilidade, dispersa no tempo e no espaço. Na transição energética, a violência lenta se manifesta como contaminações crônicas, rebaixamento de aquíferos, perda de acesso a bens comuns, erosão de economias territoriais e desestruturação cultural.

A dimensão racial dessa distribuição não é acidental. A pesquisa resgata o conceito de racismo ambiental — formulado por Robert Bullard — para mostrar que populações racializadas e pobres são sistematicamente mais expostas a riscos. No contexto da transição verde, isso significa que a “energia limpa” se constrói, em grande medida, mediante a colonização diferencial de territórios de populações indígenas, quilombolas e camponesas — que têm menor poder de veto e menor acesso a arenas decisórias.

Greenwashing: a linguagem que neutraliza conflitos

Um dos achados mais relevantes da pesquisa é o papel desempenhado pelos relatórios corporativos e pelas métricas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) na neutralização dos conflitos. Projetos são narrados como “sustentáveis” por métricas agregadas — redução de CO₂, megawatts instalados, créditos de carbono — enquanto impactos localizados como perda de água, fragmentação territorial e conflitos fundiários são minimizados, diluídos ou compensados por medidas simbólicas.

A consequência, segundo os autores, é dupla: os conflitos passam a ser tratados como “ruído antidesenvolvimentista”; e as comunidades afetadas são enquadradas como obstáculos à sustentabilidade global. Esse deslocamento moral é, precisamente, a marca dos regimes necropolíticos ambientais.

A financeirização da transição energética aprofunda esse problema. Quando projetos verdes são estruturados como ativos financeiros e carteiras de investimento, os critérios de decisão se deslocam para racionalidades de retorno e prazo de rentabilidade, que tendem a ser incompatíveis com processos robustos de consulta, reparação e participação territorial.

A geopolítica por trás da descarbonização

A pesquisa também documenta como as políticas de segurança mineral dos Estados Unidos e da União Europeia reorganizaram as cadeias de suprimento globais, convertendo países latino-americanos em “províncias extrativas da descarbonização global”. Nesse arranjo, o Sul fornece o território e os minerais estratégicos; o Norte preserva o controle sobre patentes, equipamentos, certificações e financiamento.

Essa divisão internacional do trabalho não é contingente — é estrutural. Os pesquisadores argumentam que o colonialismo energético não se manifesta apenas como extração mineral, mas como governança de cadeias, financeirização de projetos e produção discursiva que naturaliza a externalização de custos.

O que uma transição justa exigiria

Os pesquisadores não negam a necessidade da transição energética — nem a urgência da crise climática. O que questionam é o formato dominante dessa transição. E propõem três níveis de reforma estrutural.

No plano regulatório: fortalecer o licenciamento ambiental, a consulta prévia e os mecanismos de reparação, garantindo participação efetiva das comunidades afetadas — e não apenas formalidades burocráticas que legitimam projetos já decididos.

No plano econômico: políticas industriais que priorizem agregação de valor local, soberania tecnológica e economia territorial, reduzindo a dependência mineral e financeira que transforma países latinoamericanos em exportadores de matérias-primas da descarbonização.

No plano epistêmico: incorporar saberes locais e pluralidade ontológica às políticas energéticas, reconhecendo territórios como espaços de vida — e não apenas plataformas de produção. Isso implica levar a sério conceitos como Buen Vivir e autonomia territorial indígena como contrapontos à racionalidade extrativista.

A conclusão dos autores é que sem essas condições, a transição verde corre o risco de aprofundar desigualdades históricas e produzir novas formas de colonialismo energético — desta vez travestido de sustentabilidade.

*Referência do estudo: Ramos, Paulo Roberto et al. “A Face Oculta da Transição Verde: Colonialismo Energético e Necropolítica Ambiental no Sul Global”. Revista Inclusiones, v. 13, n. 2, abril-junho 2026. DOI: 10.58210/rie3775. Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Petrolina (PE).

A imagem que ilustra esta matéria foi criada utilizando IA.

 

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