Ir para o conteúdo
Pesquisar
Close this search box.

Céus tóxicos: relatório liga queimadas recorde na amazônia à pecuária e jbs

Estudo do greenpeace divulgado às vésperas da cop30 revela que porto velho teve picos de poluição 20 vezes acima do limite da OMS.

Respirar em Porto Velho (RO) e Lábrea (AM) durante a temporada de queimadas de 2024 foi perigoso. Um novo relatório do Greenpeace Internacional, “Céus Tóxicos”, mostra que a poluição do ar atingiu níveis extremos. As concentrações de partículas finas (PM2.5) ultrapassaram em mais de 20 vezes o limite de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O estudo foi divulgado nesta semana, entre 3 e 4 de novembro, e serve como um alerta crítico a poucos dias do início da COP30 em Belém (PA). A pesquisa, revisada por pares, aponta uma causa principal para a fumaça: o fogo ilegal usado para a expansão da pecuária.

 

O ar mais sujo que o de pequim

 

Os dados do relatório são alarmantes. Durante os picos da temporada de fogo de 2024, as médias diárias de PM2.5 superaram 300 microgramas por metro cúbico (µg/m³). O limite de segurança estabelecido pela OMS para um período de 24 horas é de apenas 15 µg/m³.

O problema não foi isolado. O estudo aponta que os níveis anuais de PM2.5 na capital de Rondônia, uma cidade sem indústria pesada ou tráfego massivo, superaram os de megacidades globais notoriamente poluídas, como Pequim, Santiago e São Paulo. Isso evidencia que a fonte da poluição não é urbana, mas sim resultado direto das queimadas.

Mesmo em 2025, um ano com menos focos de incêndio que o anterior, a situação continuou crítica. Nos meses de julho, agosto e setembro, o ar ainda registrou picos superiores a 100 µg/m³, mais de seis vezes o recomendado pela OMS.

Essa poluição tem um custo humano imediato. Hospitais em Porto Velho registraram um grande aumento nas internações por problemas respiratórios durante os picos de fumaça, afetando principalmente crianças e idosos. As partículas PM2.5 são tão pequenas que penetram profundamente nos pulmões e chegam à corrente sanguínea, estando ligadas a asma, bronquite e até trombose aguda.

 

2024: o ano em que a floresta queimou

 

A fumaça tóxica é o sintoma de um desastre ambiental recorde. Dados do MapBiomas, divulgados em janeiro de 2025, confirmam que 2024 foi o ano com a maior área queimada no Brasil desde 2019.

O país viu 30,8 milhões de hectares em chamas, um salto de 79% em relação a 2023. A Amazônia foi o bioma mais atingido. Sozinha, ela concentrou 15,6 milhões de hectares queimados, o que representa 52% de todo o fogo no Brasil e um recorde histórico para a região.

O relatório do Greenpeace, coordenado por Cristiane Mazzetti, destaca uma mudança perigosa no padrão do fogo. Pela primeira vez, as áreas florestais (6,7 milhões de hectares) foram mais afetadas que as pastagens (5,2 milhões de hectares). Historicamente, o fogo era mais usado para “limpar” pastos já existentes. Os dados de 2024 sugerem um avanço agressivo sobre a floresta intacta.

Embora o fenômeno El Niño tenha contribuído para secas extremas na região, o Greenpeace é categórico: as queimadas na Amazônia não ocorrem naturalmente. Elas são ateadas intencionalmente, e de forma ilegal, para limpar florestas e pastagens visando a produção de gado.

 

A sombra do frigorífico

 

O estudo “Céus Tóxicos” aponta uma forte correlação entre as queimadas e a indústria da carne. A análise espacial mostra que 75% das áreas queimadas no entorno de Porto Velho em 2024 eram usadas como pastagens.

O relatório mira no maior frigorífico do Brasil, a JBS. Entre 2019 e 2024, aproximadamente 30,5 milhões de hectares — uma área equivalente ao tamanho da Itália — foram queimados dentro de um raio de 360 km ao redor das instalações da empresa. Mais da metade de toda a área queimada na Amazônia em 2024 está localizada dentro desse raio.

A JBS, que opera 22 de seus 34 frigoríficos de bovinos do país na Amazônia, assumiu compromissos públicos desde 2009 para zerar o desmatamento ilegal em sua cadeia, com prazo final para a Amazônia em 2025. No entanto, investigações apontam falhas graves, especialmente no monitoramento dos fornecedores indiretos.

 

‘Esquentando’ o boi: a lavagem de gado

 

Uma investigação detalhada do Greenpeace, realizada entre setembro e outubro de 2025, documentou um esquema clássico de “lavagem de gado” no Pará, burlando os sistemas de controle da JBS.

O esquema funcionava em três etapas:

  1. A origem suja: A Fazenda Nova Orleans, uma propriedade de 10.574 hectares, está embargada pelo Ibama por crimes ambientais desde 2011.
  2. A intermediária: Entre 2018 e 2023, quase 2 mil bois saíram desta fazenda embargada e foram transferidos para a Chácara Rancho Alegre. Esta segunda propriedade é 165 vezes menor (apenas 64 hectares).
  3. A venda limpa: A Chácara Rancho Alegre, agora com os animais, vendeu 841 bois diretamente para o frigorífico da JBS em Santana do Araguaia (PA).

A produtividade aparente da pequena chácara seria de 10 animais por hectare/ano, cerca de três vezes acima do razoável. Sobrevoos do Greenpeace confirmaram que a Rancho Alegre não possui estrutura física, pasto ou cercas para suportar essa quantidade de gado.

O mecanismo é usado para “esquentar” o gado. A fazenda intermediária “limpa” emite novas Guias de Trânsito Animal (GTAs), dando uma aparência de legalidade aos animais criados em área de desmatamento ilegal, antes de vendê-los ao frigorífico.

Em resposta, a JBS alegou que uma auditoria constatou que “todas [as compras] seguiram a Política de Compra Responsável”. A empresa afirmou que o Greenpeace “falhou em demonstrar o trânsito do gado da fazenda Nova Orleans para fábricas da JBS”. Contudo, após a investigação, a JBS informou que bloqueou preventivamente a Chácara Rancho Alegre.

Este não parece ser um caso isolado. Em outubro de 2024, o Ibama flagrou a JBS comprando gado diretamente da Fazenda Bom Futuro, que também possuía área embargada por desmatamento ilegal e uso de fogo. A ação resultou no embargo da unidade da JBS em Tucumã (PA).

 

A conta chega na cop30

 

A divulgação do relatório “Céus Tóxicos” ocorre em um momento estratégico, a uma semana da COP30 em Belém, onde o Brasil tentará se posicionar como líder climático.

O Greenpeace critica o que chama de “greenwashing” do setor. “Na COP30, muitas empresas do agronegócio vão afirmar que o setor promove soluções climáticas”, afirma Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil. “Mas para isso ser verdade, é preciso endereçar de maneira definitiva os impactos que até hoje fazem parte da cadeia produtiva, isso inclui o desmatamento e o uso ilegal do fogo”.


Para entender melhor:

  • PM2.5 (Material Particulado 2.5): São partículas poluentes finíssimas, com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros (cerca de 3% do diâmetro de um fio de cabelo). Devido ao seu tamanho, penetram no sistema respiratório e na corrente sanguínea, causando graves problemas de saúde.
  • CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente): Órgão brasileiro que estabelece as regras e padrões para a qualidade ambiental, incluindo os limites de poluição do ar no país. Os padrões brasileiros atuais são muito mais permissivos que os da OMS.
  • GTA (Guia de Trânsito Animal): Documento oficial obrigatório para o transporte de animais entre propriedades rurais ou para frigoríficos. É usado para controle sanitário, mas é apontado como falho no controle de origem (rastreabilidade ambiental).
  • Lavagem de Gado (ou ‘esquentamento’): Prática ilegal onde gado criado em áreas de desmatamento ilegal (áreas “sujas” ou embargadas) é transferido para uma fazenda legalizada (“limpa”) antes de ser vendido ao frigorífico. A fazenda “limpa” emite uma nova GTA, escondendo a origem criminosa dos animais.
  • Embargo (Ibama): Sanção aplicada pelo Ibama que proíbe o uso de uma área onde ocorreu crime ambiental (como desmatamento ilegal). O objetivo é impedir a atividade econômica na área e forçar sua recuperação.
[the_ad_group id="301"]

PROPAGANDA

MAIS NOTÍCIAS

CATEGORIAS

.

SIGA-NOS

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA

PROPAGANDA