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Brasil na COP30: espelho quebrado reflete um país rachado pela crise climática e pela desigualdade

Boletim especial do Ipea, lançado às vésperas da conferência em Belém, revela a complexa teia de problemas que vão do desmatamento na Amazônia à vulnerabilidade climática nas cidades, expondo as profundas desigualdades territoriais e sociais do Brasil.

Com a 30ª Conferência das Partes (COP30) prestes a acontecer em Belém (PA), o Brasil se prepara para ocupar o centro do debate climático global. Contudo, um olhar para dentro do próprio território revela um cenário complexo e cheio de contradições. Uma edição especial do Boletim Regional, Urbano e Ambiental, publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), funciona como um diagnóstico aprofundado dos desafios que o país anfitrião enfrenta, dissecando desde as dinâmicas de desmatamento em cada bioma até as feridas abertas da segregação urbana, que tornam os mais pobres as principais vítimas da crise climática.

A publicação, que reúne a análise de 25 pesquisadores, chega em um momento simbólico. Trinta anos após a primeira COP e 33 anos depois da histórica Rio-92, o Brasil volta a sediar um evento climático de magnitude global, um gesto que reafirma seu compromisso com a agenda ambiental após um período de enfraquecimento das políticas nacionais. Realizar a conferência no coração da Amazônia, segundo os editores do boletim, é uma oportunidade única para discutir um novo modelo de desenvolvimento para a região e para o país.

 

Sete Brasis, múltiplos desafios

 

Um dos artigos centrais da publicação propõe uma leitura do país a partir de seus “sete Brasis”: os seis biomas terrestres (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa) e o Sistema Costeiro-Marinho. A análise mostra que, embora interligados, cada um desses territórios possui dinâmicas próprias de ocupação e vulnerabilidade, exigindo políticas de mitigação e adaptação específicas.

Entre 2000 e 2018, todos os biomas sofreram perdas significativas de vegetação nativa para a expansão de pastagens e áreas agrícolas. A Amazônia, por exemplo, perdeu quase 270 mil km² de floresta no período, enquanto o Cerrado viu desaparecer mais de 152 mil km² de sua vegetação. Esses números ajudam a explicar por que o setor de “uso da terra, mudança do uso da terra e florestas” se tornou a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa (GEEs) do Brasil, respondendo por 39,5% do total em 2022. A agropecuária vem logo em seguida, com 30,5% das emissões.

Os pesquisadores do Ipea alertam para um futuro preocupante. Estudos citados no boletim projetam um cenário de “savanização” para a Amazônia e a Mata Atlântica, expansão da Caatinga e secas extremas no Pantanal. Diante disso, a publicação defende estratégias territorializadas, como a criação de refúgios climáticos transfronteiriços na Amazônia, o manejo integrado do fogo no Cerrado e a restauração em larga escala na Mata Atlântica.


PARA ENTENDER MELHOR:

  • Biomas: Grandes áreas de vida, formadas por um conjunto de ecossistemas com características semelhantes de vegetação, fauna e clima. O Brasil possui seis biomas terrestres.
  • COP (Conferência das Partes): Reunião anual dos países que assinaram a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). É o principal fórum global para negociação de acordos climáticos.
  • Interseccionalidade: Conceito que analisa como diferentes formas de opressão (como racismo, machismo e classismo) se cruzam e se sobrepõem, criando vulnerabilidades específicas para determinados grupos, como mulheres negras e pobres.
  • Bioeconomia: Modelo de produção baseado no uso sustentável de recursos biológicos renováveis, como a biodiversidade da floresta, para gerar produtos de alto valor agregado, promovendo desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

A Amazônia no centro do furacão

 

A realização da COP30 em Belém lança um holofote sobre a Amazônia, uma região que, segundo o boletim, precisa urgentemente de um novo modelo de desenvolvimento. Os pesquisadores criticam a persistência de projetos exógenos que, historicamente, geraram concentração de renda e exploração predatória dos recursos naturais. Como alternativa, defendem um modelo baseado na bioeconomia, que valorize os conhecimentos tradicionais e a sociobiodiversidade, fortalecendo as cadeias produtivas locais, como as do açaí, da castanha e do pirarucu manejado.

No entanto, o caminho não é simples. O artigo “A COP30 e a construção de um novo modelo de desenvolvimento regional sustentável para a Amazônia” aponta que a bioeconomia ainda enfrenta disputas conceituais e desafios práticos, como o risco de apropriação de conhecimentos tradicionais sem a justa repartição de benefícios e a exclusão das comunidades locais dos processos decisórios.

A conferência, nesse contexto, é vista como um catalisador para a construção de um grande pacto regional, uma “missão”, nos termos da economista Mariana Mazzucato, que una governos, setor privado e sociedade civil em torno de um objetivo comum: um futuro sustentável para a maior floresta tropical do planeta.

A crise climática tem cor e classe social

 

O boletim do Ipea avança ao conectar a crise climática às desigualdades estruturais do Brasil, mostrando como a segregação urbana, racial e de classe amplifica a vulnerabilidade de certas populações. Um dos ensaios mais contundentes, “Direito à moradia e crise climática”, utiliza a ótica da interseccionalidade para demonstrar que mulheres negras e pobres são as mais afetadas pela precariedade habitacional e pelos riscos ambientais.

A lógica histórica de ocupação do território brasileiro, marcada pela concentração de terras e pela marginalização de grande parte da população, empurrou os mais pobres para áreas ambientalmente frágeis, como encostas de morros e margens de rios. “A exclusão de povos originários, comunidades negras e populações empobrecidas é fruto não apenas de um modelo de desenvolvimento desigual, mas também de um padrão sistemático e contemporâneo de racismo, injustiça social e, desde sempre, de injustiça ambiental”, afirmam os autores.

Dados apresentados no estudo revelam essa dura realidade: seis em cada dez moradores de locais com baixa arborização são pessoas negras. A análise do Cadastro Único (CadÚnico) de 2024 mostra que, do total de famílias que vivem em moradias inadequadas no Brasil, quase 60% são chefiadas por mulheres negras. Essa vulnerabilidade se sobrepõe diretamente às áreas de maior risco de desastres geo-hidrológicos, concentradas nas regiões Norte e Nordeste.

Como resposta, os pesquisadores propõem que as melhorias habitacionais sejam vistas como um instrumento-chave para uma política climática justa, capaz de promover cidades mais resilientes e sustentáveis, partindo da realidade dos grupos mais vulnerabilizados.

Ao reunir um conjunto tão diverso e profundo de análises, o boletim especial do Ipea para a COP30 envia uma mensagem clara: enfrentar a crise climática no Brasil exige mais do que acordos internacionais e metas de redução de emissões. Exige, fundamentalmente, um enfrentamento direto das desigualdades históricas que moldaram o território e a sociedade brasileira.

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