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Bayer na COP30: patrocínio milionário acende debate sobre ‘greenwashing’ e modelo agrícola

A presença da Bayer como patrocinadora “diamante” da COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém, acendeu um alerta máximo entre ambientalistas e movimentos sociais. A participação da gigante multinacional na cúpula do clima foi recebida com uma avalanche de críticas e acusações de greenwashing. A principal queixa é a dissonância entre o discurso de sustentabilidade da empresa e seu modelo de negócios na América do Sul, que, segundo críticos, fomenta o desmatamento, a monocultura e viola direitos humanos, alvo de denúncias formais em instâncias internacionais.

 

O patrocínio da discórdia

 

O epicentro da controvérsia foi o patrocínio de ao menos R$ 1 milhão da Bayer à “Agrizone”. O espaço, uma vitrine do agronegócio dentro da COP30 e promovido pela Embrapa, foi duramente criticado por organizações socioambientais. A presença da empresa foi vista como uma tentativa de limpar sua imagem em escala global.

“A Bayer tem tentado se posicionar como sustentável, e vemos sua participação na COP em uma escala tão grande como um grande esforço para apresentar essa imagem ao mundo todo”, declarou Cristina Hernandez Hurtado, Assessora Jurídica Sênior do Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), em reportagem do projeto Unearthed. Ela resumiu o sentimento de desconfiança: “Somos céticos em relação a essa mensagem”.

 

O modelo de negócio em xeque

 

Esse ceticismo não é infundado. A Bayer enfrenta uma denúncia em andamento na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apresentada por grupos do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia. A acusação central é que a empresa promove um modelo agrícola destrutivo.

Como líder no mercado de sementes geneticamente modificadas e pesticidas, como os baseados em glifosato, a Bayer é diretamente associada à expansão da soja na região. “Essa monocultura exige o desmatamento de grandes áreas de terra em países que enfrentam enormes conflitos de posse de terras… A Bayer está realmente promovendo um modelo de agronegócio e uma fronteira da soja que impacta negativamente os direitos humanos e ambientais”, sustentou Hernandez Hurtado.

 

Vozes da sociedade civil

 

A reação no Brasil foi igualmente contundente. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) divulgou uma nota pública repudiando o patrocínio, que também incluía empresas como Nestlé e OCP.

“É impensável um espaço que se pretenda combater a fome e a crise ambiental ter entre seus financiadores a Bayer, a Nestlé e a OCP”, afirmou o movimento. Para o MST, a questão é clara: “Estas são três empresas que atuam diretamente para o aprofundamento da crise ambiental.”

A nota conclui que o espaço serviu a um propósito alheio ao clima. “[…] Na prática, o espaço servirá de palco para o agronegócio fazer negócios, promover sua imagem e ampliar seus lucros — à custa da destruição da natureza, da concentração de terras e da expulsão de comunidades camponesas e povos tradicionais.”

 

Histórico de denúncias

 

Dias antes da COP, o estudo “A COP dos Lobbies”, da FASE e De Olho nos Ruralistas, já alertava para essa tática. “O estudo mostra como empresas com histórico de danos ambientais recorrem a estratégias de marketing e a parcerias com órgãos públicos, inclusive aqueles responsáveis por sua fiscalização, para se posicionar como protagonistas da transição verde”.

Essa análise se alinha à denúncia formalizada na OCDE em abril de 2024. Seis organizações, incluindo a Terra de Direitos, protocolaram a queixa. Elas sustentam que “A Bayer promove na América do Sul um modelo agrícola que causa insegurança alimentar, escassez de água, desmatamento extremo, perda de biodiversidade, graves consequências para a saúde e conflitos por terras com comunidades indígenas e camponesas”.

Os denunciantes alegam que a multinacional falha em monitorar, prevenir ou mitigar adequadamente os impactos de seus produtos. Eles documentaram intoxicações, contaminação de rios, desaparecimento da biodiversidade e um golpe na soberania alimentar das comunidades afetadas.

 

O conflito de narrativas

 

A COP30, portanto, expôs um conflito aberto de narrativas. De um lado, a Bayer e outras corporações que buscam se posicionar como parte da solução, enfatizando a inovação e a “agricultura sustentável”. Do outro, ambientalistas e movimentos sociais que denunciam o greenwashing e a captura do debate climático. Para este segundo grupo, o modelo de negócio da empresa não é a solução, mas parte estrutural do problema, colocando em risco a legitimidade e a eficácia da resposta global à emergência climática.

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