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A gramática do poder: Estudo revela como as palavras definem vencedores e perdedores nas eleições do Nordeste

Pesquisa da Universidade de Pernambuco utiliza IA para analisar o discurso de candidatos a prefeito no Nordeste em 2024. O estudo revela que vencedores focam em termos concretos de gestão, enquanto derrotados apelam para conceitos abstratos e emocionais.
discurso político no Instagram

Pesquisa da Universidade de Pernambuco* utilizou inteligência artificial para dissecar o discurso no Instagram de candidatos em nove capitais; resultados expõem o abismo entre quem tem a “caneta” na mão e quem pede votos na oposição.

A batalha pelo voto não acontece apenas nas ruas, mas na tela luminosa de milhões de smartphones. No Brasil, o terceiro maior consumidor de redes sociais do planeta, o Instagram deixou de ser vitrine de fotos bonitas. A plataforma virou o ringue central da política. Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade de Pernambuco (UPE), no Campus Caruaru, mergulhou nesse universo digital. A análise focou nas eleições municipais de 2024 nas capitais do Nordeste. O objetivo? Entender o que dizem — e, principalmente, como dizem — os políticos que lideram as pesquisas.

A pesquisa utilizou técnicas avançadas de Processamento de Linguagem Natural e Mineração de Subgrupos. Os autores, Giovanna Valentina Esteves Xavier Teles de Andrade e Tarcísio Daniel Pontes Lucas, analisaram milhares de postagens. O foco recaiu sobre os candidatos que ocupavam o primeiro e o segundo lugar nas disputas. O que a inteligência artificial revelou foi um padrão de linguagem brutalmente claro. Existe um vocabulário da vitória e um vocabulário da derrota, antes mesmo de as urnas serem abertas.

O abismo entre o concreto e a promessa

O algoritmo não tem paixão política, ele apenas enxerga padrões. E o padrão identificado no Nordeste é nítido. Candidatos que saíram vitoriosos das urnas compartilham uma “cartilha” lexical específica. O discurso deles é ancorado no presente e na execução.

A análise mostra que os vencedores abusam de palavras como “trabalho”, “coligação”, “pode” e “já”. É a retórica de quem faz. Eles vendem a governabilidade em tempo real. A estratégia discursiva gira em torno de mostrar a máquina pública funcionando. Quem está no poder, ou lidera com folga, não precisa imaginar o futuro; ele vende o agora.

Por outro lado, o léxico dos candidatos derrotados transita por um terreno mais etéreo. As palavras-chave identificadas no grupo dos perdedores foram “gente”, “povo”, “fazer”, “melhor” e “esperança”.

Parece bonito, mas na prática eleitoral, isso sinaliza fragilidade. Segundo o estudo, esse vocabulário apela para a emoção e para a promessa de um futuro que ainda não existe. O derrotado tenta vender “mudança” e “esperança”, enquanto o vencedor mostra “asfalto” e “obra”. Essa diferença expõe uma vantagem competitiva gigantesca para os candidatos de situação. Eles têm o concreto para mostrar. A oposição tem apenas a palavra.

O Dicionário das Urnas

O que a inteligência artificial detectou nos discursos:

O Vencedor fala:

  • Ação: “Trabalho”, “ações”, “continuidade”.

  • Tempo: “Já”, “durante”, “agora”.

  • Poder: “Coligação”, “governabilidade”.

O Derrotado fala:

  • Emoção: “Esperança”, “medo”, “coração”.

  • Promessa: “Mudar”, “lutar”, “melhor”.

  • Sujeito: “Gente”, “povo”, “nós”.

A fé contra a sala de aula: a trincheira ideológica

Além da divisão entre quem ganha e quem perde, o estudo da UPE mapeou a geografia das ideologias. A polarização nacional contaminou o debate municipal, mas com sotaques locais.

Na direita, o discurso é, muitas vezes, uma pregação. A análise de subgrupos identificou um forte apelo religioso. Termos como “Deus” e “fé” aparecem com frequência avassaladora, misturados a palavras de ordem e crítica como “não” e “CNPJ”. Candidatos como André Fernandes, em Fortaleza, exemplificam essa linha. Seu discurso usou termos de ruptura e denúncia, como “liberal” e “coragem”, posicionando-se contra o “sistema”.

Já no campo da esquerda, a semântica muda de endereço. O foco sai do céu e vai para a base social. Palavras como “arte”, “professores”, “juventude” e “coletivo” dominam as nuvens de palavras. É um discurso de mobilização de grupos específicos. Natália Bonavides, em Natal, ilustrou bem esse perfil. Sua campanha apostou na informalidade e na identificação popular, usando termos como “simbora” e “prefeita” para criar empatia.

Asfalto, tênis e a política do detalhe

O estudo também é rico ao mostrar como essas estratégias gerais se aplicam — ou se adaptam — à realidade de cada capital. Em São Luís, o prefeito Eduardo Braide transformou sua timeline em um diário de obras. A análise detectou o uso massivo de termos técnicos como “LED”, “asfalto” e “iluminação”. Não havia espaço para abstrações; a mensagem era a entrega do serviço.

Em Aracaju, a estratégia foi diferente. A candidata Emília Corrêa apostou na personalização extrema. A IA destacou palavras curiosas em seu discurso: “calça”, “blusa” e “tênis”. Pode parecer trivial, mas indica uma construção de imagem focada no estilo pessoal e na proximidade física com o eleitor. Ela tentou se vender como uma “outsider”, alguém de fora do “sistemão”, usando uma linguagem visual e direta.

Já em Recife, a força institucional falou mais alto. O prefeito João Campos centrou seu discurso em siglas. A repetição de termos como “PSB”, “PCdoB” e “coligação” evidenciou uma campanha baseada no tamanho de seu arco de alianças. Era a demonstração de força política bruta traduzida em legendas partidárias.

O algoritmo da continuidade

A conclusão dos pesquisadores lança uma luz sobre a inércia da política brasileira. Os dados sugerem que o discurso da “situação” — daqueles que já ocupam a cadeira — é naturalmente mais robusto nas redes. Eles não precisam prometer; eles postam a foto da obra.

Para a oposição, resta o desafio de transformar sentimentos abstratos como “esperança” e “mudança” em votos concretos. O Instagram, nesse cenário, funciona como um espelho de aumento. Ele magnifica quem tem algo para mostrar e, muitas vezes, expõe a fragilidade de quem só tem algo a dizer.

*Analyzing Political Discourse on Instagram during the 2024
Municipal Elections in Northeastern Brazilian Capitals
Giovanna Valentina Esteves Xavier Teles de Andrade, Tarcísio Daniel Pontes Lucas

Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Caruaru
Caruaru, PE – Brazil 

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