Publicação do Sesc São Paulo reúne especialistas para decifrar os caminhos da sustentabilidade para além do discurso, apontando a urgência de aliar justiça social, saberes ancestrais e novos modelos econômicos.
O planeta Terra já ultrapassou seis dos nove limites que garantem sua estabilidade, e a ciência adverte: o atual nível de transgressão nos empurrou para além da zona segura. Este não é o trailer de um filme apocalíptico, mas o diagnóstico factual apresentado por pesquisadores em um momento em que a emergência climática deixa de ser uma previsão para se tornar uma realidade cotidiana, sentida em ondas de calor recordes, secas severas e inundações devastadoras. Enquanto o mundo se prepara para a 30ª Conferência do Clima (COP30), em Belém, uma nova publicação do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, intitulada “Desafios e Soluções para um Futuro Sustentável”, surge como um mapa crítico para navegar neste presente complexo. A obra reúne uma dezena de artigos e uma entrevista contundente com o físico Paulo Artaxo, desconstruindo a noção desgastada de sustentabilidade para propor uma reinvenção radical dos nossos modos de vida, baseada em justiça, diversidade e, sobretudo, na escuta de vozes há muito silenciadas.
O “desenvolvimento” em xeque
Por décadas, o conceito de “desenvolvimento sustentável” foi a bússola que guiou políticas públicas e estratégias corporativas. No entanto, como aponta a publicação, a ideia corre o risco de se tornar um “conceito protocolar”, esvaziado de sua complexidade e adaptado aos mesmos imperativos que nos trouxeram à beira do colapso. A lógica da economia linear — extrair, produzir, usar e descartar — se mostra insustentável, ancorada na fantasia irrealista de recursos infinitos e na promoção de um consumismo que gera um imenso déficit ecológico. A humanidade, por exemplo, superou a capacidade de regeneração do planeta para o ano de 2024 já no dia 1º de agosto.
A resposta, defendem os autores, não está em ajustes pontuais, mas em uma mudança de paradigma. A economia circular surge como uma alternativa robusta, propondo repensar o ciclo de vida dos produtos desde o seu design, maximizando o aproveitamento de tudo o que já foi extraído da natureza. Contudo, a transição enfrenta barreiras significativas, especialmente para micro, pequenas e médias empresas, que esbarram em desafios de inovação, financiamento e um ambiente regulatório ainda incipiente no Brasil, como detalha um estudo de caso apresentado na revista. A proposta vai além de simplesmente reciclar; trata-se de um novo olhar sobre a matéria, onde o que hoje é visto como resíduo passa a ser encarado como recurso.
Outras vozes, outros saberes
Se um modelo de sociedade nos adoeceu, talvez a cura esteja naqueles que nunca se desconectaram da Terra. A publicação do Sesc insiste em um ponto nevrálgico: a crise atual é também fruto de um modelo de conhecimento que se construiu “às custas da expropriação de terras, do apagamento de culturas e da exploração de corpos”. Na contramão, emergem as contribuições de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujas cosmologias oferecem outros caminhos.
Para o povo Sateré-Mawé, por exemplo, a sustentabilidade não é uma meta, mas um princípio que orienta o ritmo da vida. Seu território não é um conjunto de recursos a serem explorados, mas uma “casa de muitos seres”, visíveis e invisíveis, com os quais se estabelece uma relação de reciprocidade e cuidado mútuo. A violação desse pacto relacional gera desequilíbrios, manifestados em doenças e eventos climáticos extremos. Nesse modo de vida, a floresta, os rios e os animais possuem agência, e o bem-estar da comunidade está intrinsecamente ligado à manutenção dessa teia de relações, algo que a ciência ocidental apenas começa a compreender.
Da mesma forma, o ensaio sobre “Amazônia e Negritude” desafia o imaginário popular que desvincula os corpos negros da floresta. O antropólogo Davi Pereira Junior demonstra com dados históricos e demográficos que a Amazônia Legal é composta por mais de 75% de pessoas que se autodeclaram negras. As comunidades quilombolas, surgidas como resistência à escravidão, estabeleceram uma relação ancestral com o território, desenvolvendo práticas ecológicas que são fundamentais para a preservação do bioma, embora permaneçam invisibilizadas. Essa desconsideração reflete a mesma lógica excludente que marcou a criação de muitas Unidades de Conservação (UCs), que, sob um pretexto preservacionista, expulsaram populações que historicamente protegiam aqueles territórios. Hoje, um “novo paradigma da conservação colaborativa” busca corrigir esse erro histórico, reconhecendo que não há como proteger a natureza sem incluir seus guardiões tradicionais.
Da teoria à prática: novos instrumentos
Além de questionar os modelos vigentes, a revista explora ferramentas concretas para construir um futuro mais sustentável. Uma delas é o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), um instrumento econômico que incentiva, com recursos monetários ou não, ações humanas que melhoram os serviços que a natureza já presta, como a purificação da água e a regulação do clima. A experiência de Extrema (MG) com o programa “Conservador das Águas” é um exemplo pioneiro. Iniciado em 2005 para recuperar mananciais, o projeto evoluiu e hoje integra a agenda climática, promovendo a neutralização de emissões de gases de efeito estufa em parceria com o setor industrial local.
No campo do turismo, a crítica se volta ao chamado “ecoturismo” que, muitas vezes, se apropria da natureza de forma utilitária, sem beneficiar as comunidades locais. Como alternativa, o Turismo de Base Comunitária (TBC) coloca o protagonismo nas mãos dos moradores, valorizando a cultura local e buscando a sustentabilidade econômica a partir da lógica da economia solidária e do Bem Viver. Essas iniciativas, segundo os autores, representam uma forma de resistência “contra-hegemônica e decolonial”, que usa o turismo como ferramenta para fortalecer territórios e garantir a permanência de seus povos.
O próprio Sesc São Paulo se apresenta como um laboratório de práticas. As ações da instituição vão desde a concepção de seus prédios, com prioridade para baixo impacto ambiental e certificações como o Selo LEED, até programas consolidados como o Mesa Brasil, que combate o desperdício de alimentos, e a gestão de resíduos com o programa “Lixo: Menos é Mais”. Essas experiências demonstram que a sustentabilidade pode e deve ser transversal, permeando todas as áreas de uma organização.
Para entender melhor:
- Economia Circular: Modelo econômico que se opõe à lógica linear (extrair-produzir-descartar). Busca manter materiais, produtos e componentes em seu mais alto nível de utilidade e valor, eliminando o conceito de lixo através de estratégias como reutilização, reparo, remanufatura e reciclagem.
- Pagamento por Serviços Ambientais (PSA): Instrumento que remunera agricultores, comunidades ou proprietários de terras para que preservem ou recuperem ecossistemas. O pagamento compensa as ações que garantem serviços essenciais à sociedade, como água limpa, ar puro e sequestro de carbono.
- Turismo de Base Comunitária (TBC): Modalidade de turismo na qual a comunidade local tem o papel principal no planejamento, gestão e execução das atividades. O objetivo é gerar benefícios coletivos, valorizar a cultura e promover a conservação ambiental de forma autônoma e sustentável.
- Bem Viver (Sumak Kawsay): Conceito originário das culturas indígenas andinas que propõe uma visão de mundo alternativa ao desenvolvimento capitalista. Não se foca no acúmulo material, mas na harmonia entre os seres humanos, a comunidade e a natureza, buscando uma vida plena em coletividade.
O futuro é ancestral, mas o presente é desigual
O físico Paulo Artaxo é categórico: “quem vai efetivamente sofrer com a mudança do clima é a população de baixa renda”. A crise climática, impulsionada em 89% pela queima de combustíveis fósseis, aprofunda as desigualdades existentes. As famílias mais pobres são as que vivem em áreas de risco a deslizamentos e enchentes e as que não têm ar-condicionado para enfrentar ondas de calor letais. O Brasil, por sua posição tropical e dependência do agronegócio, é um dos países mais vulneráveis do mundo.
Nesse cenário, as soluções não podem ser apenas tecnológicas; precisam ser fundamentalmente justas. A invisibilidade da Amazônia negra e quilombola é um sintoma grave de um sistema que nega a contribuição e a própria existência de quem mais protege os biomas. Como afirma Davi Pereira Junior, “não há a possibilidade de os quilombolas existirem fora das relações de seus corpos com seus territórios estabelecidas ancestralmente”. Proteger esses territórios, portanto, é a política climática mais eficiente.
A publicação do Sesc não oferece respostas fáceis, mas um convite à reflexão e à ação. A mensagem que ecoa em suas páginas é que a transição para um futuro sustentável já começou, não nos gabinetes de grandes corporações, mas nos territórios que resistem, nas comunidades que praticam a reciprocidade e nos movimentos que ousam imaginar outros mundos possíveis. Como nos lembra Ailton Krenak, talvez a tarefa mais urgente seja “adiar o fim do mundo”, e para isso, talvez precisemos, como sugere a revista, simplesmente voltar a florestar — não apenas as paisagens, mas principalmente, nossas mentes.











